Ucrânia: nem tropas russas, nem fascismo, nem instituições euro-atlânticas

russian troops in crimeaA queda de Ianukovitch não é “um golpe” fascista. Mas a composição e as orientações do “governo de união”, apoiado pelas potências ocidentais, vão provocar a explosão da Ucrânia. As explicações de tipo complot e polarizadas ocultam os desafios sociais e democráticos, apoiando-se apenas numa parte da verdade.

Catherine Samary, Esquerda.net, 4 de março de 2014

Do lado da Maidan: Foi um movimento popular, desafiante para todos os partidos por causa dos seus próprios métodos, que fez cair Ianukovitch: mais do que por causa da Europa, a Maidan mobilizou-se massivamente contra a “família” dominante, oligárquica e contra o curso cada vez mais repressivo e personalista do regime, temendo-se que uma integração dos projetos de Putin agrave estas derivas. Continue lendo

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The West and Russia: The Wrong Reasons to Back Pussy Riot

Vadim Nikitin, NY Times, August 20, 2012

From Madonna to Bjork, from the elite New Yorker to the populist Daily Mail, the world united in supporting Russia’s irreverent feminist activists Pussy Riot against the blunt cruelty inflicted on them by the state. It may not have stopped Vladimir Putin’s kangaroo court from sentencing them to two years in prison on charges of hooliganism, but blanket international media pressure helped turn the case into a major embarrassment for the Kremlin. Continue lendo

Pussy Riot – Sem medo do medo

O estado de direito não existe na Rússia, quando um tribunal decreta esta sentença ou quando um outro proíbe por 100 anos as paradas LGBT.

João Teixeira Lopes, Esquerda.net, 21 de agosto de 2012

O poder instalado no Kremlin aproxima-se cada vez mais de um fascismo. Para além da corrupção e do nepotismo, a concentração e a centralização do poder assumem proporções próprias das ditaduras. Eu sei que a oposição não é brilhante: entre um partido comunista enfraquecido, esclerosado e descaracterizado e os liberais cleptocratas herdeiros de Ieltsin, existe ainda pouca afirmação de uma sociedade civil independente dos poderes económicos e capaz de rejeitar tanto a via selvática de um capitalismo de abutres que despedaçam os bens públicos ou de um autoritarismo de estado sem ideologia que não seja a da sua própria perpetuação. Continue lendo

Marchas LGBT proibidas em Moscovo por cem anos

No dia em que um tribunal moscovita condenou a banda punk feminista Pussy Riot a dois anos de prisão, o Supremo Tribunal da Rússia confirmou a proibição das marchas do orgulho LGBT em Moscovo até 2112, por considerar que os moscovitas não apoiam esse tipo de eventos.

Esquerda.net, 18 de agosto de 2012

A decisão tinha sido tomada pelo município de Moscovo em resposta ao pedido do ativista dos direitos LGBT, Nikolai Alexeyev, para autorizar a realização da marcha do orgulho LGBT até 2112. Alexeyev recorreu à justiça e não se mostra surpreendido com a decisão anunciada esta sexta-feira. “Os tribunais russos raramente decidem a favor dos direitos dos gays e das lésbicas”, disse o advogado e jornalista russo ao El Pais, classificando a sentença de ilegal e injusta. Continue lendo

Alegato final de Yekaterina Samutsevich (Pussy Riot)

Alegato final de Yekaterina Samutsevich durante el juicio contra ella y otras dos componentes de la banda de punk feminista Pussy Riot. Texto traducido desde la traducción al inglés.

ladyfestmadrid, 13 de agosto de 2012

En su declaración final, se espera que la acusada se lamente y se arrepienta de sus actos, o enumere las circunstancias atenuantes. Tanto en mi caso como en el de mis compañeras de grupo, esto es totalmente innecesario. En vez de eso, quiero expresar mi percepción de las causas por las que nos ha ocurrido esto.

La importancia simbólica de la catedral de Cristo Redentor en la estrategia política del poder resultó obvia para muchas cabezas pensantes cuando el antiguo compañero [de la KGB] de Vladimir Putin, Kirill Gundyaev, tomó el relevo como cabeza de la iglesia Ortodoxa rusa. Desde entonces, la catedral de Cristo Redentor empezó a usarse abiertamente como un ostentoso escenario para la política de los servicios de seguridad, que son la principal fuente del poder [en Rusia]. Continue lendo

A verdadeira blasfemia

No caso Pussy Riot, a verdadeira blasfémia é a própria acusação do Estado, formulando como crime ou ódio religioso algo que foi claramente um ato político de protesto contra a clique governante.

Slavoj Žižek, Dangerous Minds / Esquerda.net, 20 de agosto de 2012

As Pussy Riot são acusadas de blasfémia e de ódio à religião? A resposta é fácil: a verdadeira blasfémia é a própria acusação do Estado, formulando como crime ou ódio religioso algo que foi claramente um ato político de protesto contra a clique governante. Recordem a velha ironia de Brecht na Ópera dos Três Vinténs: “O que é roubar um banco, comparado com fundar um banco?” Em 2008, Wall Street deu-nos a nova versão: o que é roubar um par de milhares de dólares, pelos quais se vai parar à cadeia, comparado com a especulação financeira que priva dezenas de milhares de pessoas das suas casas e poupanças, e é recompensada pela ajuda do Estado de grandeza sublime? Agora, temos outra versão, vinda do poder do Estado da Rússia: O que é uma modesta provocação obscena das Pussy Riot numa igreja, comparada com a acusação contra as Pussy Riot, esta gigantesca e obscena provocação do aparelho de Estado que escarnece de qualquer noção de lei e ordem decentes? Continue lendo

Ressurreição de uma potência

Apesar do ensejo separatista e da política de mão de ferro, a crescente economia russa dá sinal de futuro promissor

Carolina Rossetti, O Estado de S. Paulo, 29 de janeiro de 2011

A terça-feira dos moscovitas foi dedicada ao luto pelas 35 vítimas de um atentado à bomba no começo da semana. Velas foram acesas e flores deixadas no aeroporto de Domodedovo, palco da explosão. As reações do primeiro-ministro Vladimir Putin e do presidente Dmitrii Medvedev foram parecidas: caçar os culpados e puni-los. Putin logo descartou que o golpe tenha vindo da Chechênia e apontou o dedo para a região do norte do Cáucaso, berço de uma insurgência islâmica em ebulição. Como lhe é típico, falou grosso, clamou por “vingança” e “inevitável retaliação”. Já Medvedev, “sócio de Putin no poder” – segundo definição do diretor do Comitê de Estudos da Rússia e Europa Oriental da Universidade de Oxford, Christopher Davis, – pôs em prática seu perfil de administrador. Mais moderado que o parceiro, procurou botar ordem no “estado anárquico” do sistema de segurança. Demitiu o chefe da polícia de transportes e pediu “reestruturação” do Ministério de Interior, encarregado da defesa interna. Continue lendo

Putin faz uma oferta audaciosa

“Propomos a criação de uma comunidade económica harmoniosa que vá de Lisboa a Vladivostok”, disse.

Immanuel Wallerstein, Esquerda.net, 17 de janeiro de 2011

O primeiro-ministro Vladimir Putin, da Rússia, visitou a Alemanha no final de Novembro. Antes de chegar, publicou um artigo de opinião no jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que destacou este artigo sob o título “Putin abraça a Europa”.

O conteúdo do artigo é notável. Putin disse que a lição a tirar da mais grave crise da economia-mundo em oito décadas é a necessidade de a Rússia trabalhar mais estreitamente com a União Europeia. “Propomos a criação de uma comunidade económica harmoniosa que vá de Lisboa a Vladivostok”. Disse que “no futuro, podemos até considerar a hipótese de uma zona de comércio livre, ou mesmo de formas mais avançadas de integração”. Putin sugeriu que esse mercado continental valeria biliões (milhões de milhões, ou trillions, na designação inglesa) de euros. Continue lendo