Carro toma quase toda a rua sem transportar nem 1/3 dos paulistanos

Vanessa Correa, Folha de S.Paulo, 12 de dezembro de 2013

Quanto espaço das ruas os 3,8 milhões de carros que circulam pela cidade tomam? Nos horários de pico, 78% das principais vias são dominadas pelos automóveis -dentro deles, são transportados apenas 28% dos paulistanos que optam pela locomoção sobre rodas. Enquanto isso, os ônibus de linha e fretados, com ocupação de 8% do asfalto, levam 68% das pessoas.

“Quem quer que seja o próximo prefeito, terá de olhar para esse dado, fazer uma política inteligente e tentar reduzir a desigualdade no uso das vias”, diz Thiago Guimarães, especialista em mobilidade e professor da Universidade Técnica de Hamburgo, na Alemanha. Continue lendo

Civilização do automóvel dá sinais de esgotamento

A análise da Conjuntura da Semana é uma (re)leitura das Notícias do Dia publicadas diariamente no sítio do IHU, IHU On-line, 20 de setembro de 2013

Mobilidade colapsada 

Muito se falou e se comentou do caráter fragmentário e da ausência de bandeiras claras nas grandes manifestações de junho de 2013. Uma delas, entretanto, funcionou como um forte elemento agregador: a mobilidade urbana – ninguém aguenta mais a dificuldade de ir e vir nas grandes cidades, particularmente aqueles que dependem do transporte coletivo.

O estopim do vagalhão das manifestações que explodiram em todo país teve a sua origem na violenta repressão contra a manifestação convocada pelo Movimento do Passe Livre – MPL no dia 13 de junho em São Paulo. A manifestação do MPL tinha uma reivindicação clara, concreta e objetiva: revogar o aumento da tarifa do transporte coletivo na capital paulista.

A consigna do MPL “Por uma vida sem catracas” que anuncia a reivindicação da bandeira “Tarifa Zero” se transformou ao longo das manifestações na consigna “Muito mais do que 0,20 centavos” – da luta pelo transporte acessível a todas e todos e como um direito universal derivou para inúmeras outras bandeiras. Continue lendo

A mobilidade urbana não pode esperar mais

Washington Novaes, O Estado de S. Paulo, 16 de agosto de 2013

Serão extremamente úteis para o País, qualquer que seja o desfecho, as conclusões do atual debate que se trava em toda parte sobre mobilidade urbana, a partir das recentes manifestações de rua, assim como da criação de faixas exclusivas para ônibus na cidade de São Paulo. A discussão adequada do problema, a adoção de políticas principalmente nas regiões metropolitanas, poderá talvez evitar ou reduzir custos imensos e hoje progressivos. Continue lendo

Para não ficarmos imobilizados nas ruas

A woman with a child on her bicycle navigates through Beijing traffic.Washington Novaes, O Estado de S.Paulo, 19 de julho de 2013

Já não era sem tempo. A mobilização social, dezenas de grandes manifestações nas cidades com reivindicações em muitas áreas, afinal trouxe para as ruas um tema – a chamada “mobilidade urbana” – até então quase limitado às notícias de prejuízos financeiros ou de tempo perdido pelos usuários. Por isso mesmo, a discussão mais ampla ficava bastante confinada a editoriais de jornais ou artigos de especialistas.

Os números e outras informações sobre transporte urbano nesses dias foram impressionantes. A começar pelo cálculo (Mobilize, 12/7) de que as isenções de impostos para veículos de transporte individual e gasolina desde 2003 já somam R$ 32,5 bilhões, com os quais seria possível implantar 1.500 km de corredores de ônibus ou 150 km de metrô. Pode-se comparar essa cifra também com aplicações do Ministério das Cidades para financiar 95,6 km de metrô, trens, estações: R$ 15,4 bilhões. Só a redução da Cide no preço da gasolina significou R$ 22 bilhões; as reduções de IPI sobre veículos chegarão no fim deste ano a R$ 10,5 bilhões. Mas o ministro da Fazenda tem dito que esses subsídios são importantes porque a indústria automobilística significa 25% da produção industrial – ainda que, pode-se acrescentar, signifique prejuízos imensos para os usuários de transportes coletivos. Continue lendo

Dobra o número de casas com carros

Porcentual de domicílios com automóveis na garagem, que era de 23%, subiu para 40% em 20 anos; movimento é inverso ao dos EUA

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo, 13 de julho de 2013

O número de domicílios com carros no Brasil quase dobrou nas duas últimas décadas. Saltou de 23% para 40% do total de moradias, ou seja, de cada mil residências, 400 têm um ou mais veículos nas garagens, de acordo com estatísticas tabuladas pelo Estadão Dados com base no último Censo.

Nos Estados Unidos, há um movimento oposto. No início dos anos 90, 5,7% dos lares não tinham automóveis, porcentual que subiu para 9,3% no ano passado e deve chegar a 10% este ano, segundo a consultoria americana CNW Marketing.

As deficiências no transporte público – que recentemente desencadearam uma onda de protestos em várias partes do País – e o próprio desejo do brasileiro de ter um carro tendem a manter o mercado automobilístico aquecido nos próximos anos. Continue lendo

Rumo à tarifa zero

Tarifa-zero1Daniel Guimarães, Graziela Kunsch, Mariana Toledo e Luiza Mandetta, Folha de S.Paulo, 5 de junho de 2013

É preciso abrir a caixa-preta dos transportes públicos, com ou sem CPI, e, sobretudo, é urgente discutir o modelo de gestão

Há pouco, escrevemos sobre os motivos que nos levaram às ruas. O aumento de R$ 0,20 nas tarifas acentuaria a exclusão social provocada por um modelo de gestão do transporte baseado nas concessões privadas e na cobrança de tarifa.

Após duas semanas de luta, a população de São Paulo revogou o aumento. Resistimos à desqualificação dos meios de comunicação, bombas, balas e prisões arbitrárias.

Isso não fugiu à regra do tratamento que o Estado dá aos movimentos sociais. É importante que o Judiciário reconheça a ilegalidade das acusações que pesam sobre alguns dos detidos, entre elas a de formação de quadrilha. E que o Ministério Público reconheça a arbitrariedade da polícia e se recuse a oferecer denúncias contra manifestantes, evitando processos criminais.

Foi uma vitória das ruas, de esquerda e pedagógica, que ensinou que a população organizada pode mudar os rumos de sua cidade e, por consequência, de sua vida. Tarifas foram reduzidas em quase 50 cidades, sendo mais de dez capitais. Há lutas em andamento, e o debate sobre a tarifa zero está em pauta. Continue lendo

Na mesma lata de sardinha

pedagio-urbanoDo ônibus velho ao BMW zero, todos são prisioneiros do congestionamento e das pressões das grandes cidades

Carlos Lessa, Carta Capital, 28 de junho de 2013

A qualidade da vida urbana é um ingrediente-chave na vida da maioria das famílias brasileiras. Com 80% de nossa população urbana e 50% metropolitana, são variadas as dimensões definidoras dessa qualidade. Entre essas dimensões, ocupa um lugar-chave a questão da mobilidade. De forma simplificada, podemos dizer que cada integrante da sociedade urbana dedica ao trabalho ou atividade remunerada um terço das suas 24 horas diárias. Outro terço é usado para dormir. Sobram oito horas diárias para todas as demais atividades que não a obtenção de renda monetária, isto é, para as atividades ligadas à fisiologia individual, à convivência e lazer com amigos e família, a compras e, por vezes, ao aperfeiçoamento cultural e profissional. Ao menos em tese, cada um é soberano em relação a este tempo de existir. Continue lendo

Carta aberta do MPL-SP à presidenta

mpl-3À Presidenta Dilma Rousseff,

Ficamos surpresos com o convite para esta reunião. Imaginamos que também esteja surpresa com o que vem acontecendo no país nas últimas semanas. Esse gesto de diálogo que parte do governo federal destoa do tratamento aos movimentos sociais que tem marcado a política desta gestão. Parece que as revoltas que se espalham pelas cidades do Brasil desde o dia seis de junho tem quebrado velhas catracas e aberto novos caminhos.

O Movimento Passe Livre, desde o começo, foi parte desse processo. Somos um movimento social autônomo, horizontal e apartidário, que jamais pretendeu representar o conjunto de manifestantes que tomou as ruas do país. Nossa palavra é mais uma dentre aquelas gritadas nas ruas, erguidas em cartazes, pixadas nos muros. Em São Paulo, convocamos as manifestações com uma reivindicação clara e concreta: revogar o aumento. Se antes isso parecia impossível, provamos que não era e avançamos na luta por aquela que é e sempre foi a nossa bandeira, um transporte verdadeiramente público. É nesse sentido que viemos até Brasília. Continue lendo

A voz das ruas e a mobilidade urbana

CPF-cycling-bus-car-and-bicycle-Canberra1Lúcio Gregori, Folha de S. Paulo, 22 de junho de 2013

Finalmente, a voz das ruas foi ouvida e cidades como São Paulo e Rio revogaram o aumento do preço das tarifas dos transportes coletivos. Agora, é preciso estabelecer novos instrumentos de democracia direta, para não limitar a participação popular às eleições.

O cancelamento do aumento das tarifas suscita a urgente necessidade do estabelecimento de políticas permanentes de subsídios e, no limite, a tarifa zero. A manifestação popular fez essas reivindicações. Ao obter a revogação, conseguiu restabelecer seu foco original, tornando perfeitamente identificável pela população o resultado concreto dessa forma de participação popular.

A PEC (proposta de emenda constitucional) 90, de iniciativa de Luiza Erundina, estabelece a mobilidade urbana e metropolitana como direito social nos termos do artigo sexto da Constituição, tal como a saúde e a educação. É um passo importante na direção de uma política que garanta e amplie o acesso universal aos serviços essenciais. Continue lendo

Não há problemas técnicos nem financeiros pra implantar a Tarifa Zero

mobilidade6359843_f520Gabriel Brito e Valéria Nader entrevista Lucio Gregori, Correio da Cidadania, 21 de junho de 2013

Após provocar uma semana de históricas convulsões sociais que continuam chacoalhando o país, o Movimento Passe Livre obteve sua primeira vitória em praticamente dez anos de luta contra os preços e reajustes das tarifas do transporte coletivo. Para analisar o assunto, que seguirá em foco, o Correio da Cidadania entrevistou Lucio Gregori, ex-secretário de transportes de Luiza Erundina e um dos precursores do projeto Tarifa Zero, no mandato petista na cidade de São Paulo da virada dos anos 80 para os 90.

Para ele, o passe livre não é nenhuma utopia de jovens “vândalos” e “desocupados”, como gostava de cunhar a mídia, até ser posta de joelhos e mudar seu tom. Inclusive, a extinção da tarifa reduziria outros custos operacionais em geral excluídos do debate. Ele também escancara um impressionante detalhe que continua despercebido: a Lei de Mobilidade Urbana, sancionada pela presidente Dilma. “De acordo com essa lei, os contratos de concessão podem ter duas tarifas: a tarifa de remuneração ao empresário, que corresponde ao custo operacional do serviço; e também a tarifa pública, aquela que o usuário paga. Ou seja, a tarifa pública é decidida pelo poder público”, explica. Isso significa que zerá-la é uma questão de vontade política, que sequer deixaria de remunerar o concessionário. Continue lendo

Transporte coletivo gratuito é tão viável quanto o SUS

numbers-cost-car-bus1O engenheiro Lúcio Gregori, secretário de Transportes na cidade de São Paulo no governo Luíza Erundina (1989 a 1992), argumenta que a política tributária no Brasil impede a aplicação da gratuidade no transporte coletivo, tão viável quanto o SUS (Sistema Único de Saúde), escolas públicas e coleta de lixo. Gregori avalia que uma das formas de se pressionar por um transporte mais barato é fazer justamente o que os jovens paulistanos estão fazendo: ocupar as ruas e cobrar a redução da tarifa. Em sua opinião, transporte não é uma questão técnica, mas um debate em que está colocada a disputa pelos recursos públicos.

 Angela de Paula, ABCD Maior, 15 de junho de 2013. Reproduzido de IHU On-line.

Como o sr. avalia o modelo atual de transporte coletivo no Brasil, em especial da região metropolitana de São Paulo?

Avalio como sendo tradicional, e uma tradição ruim, que é a de transformar o transporte coletivo numa atividade econômica atraente para o setor privado e que acaba sendo prejudicial para as pessoas que usam o transporte e para a cidade como um todo. Três fatores contribuem para isso: o primeiro é o sistema de concessão de serviço público por tempo muito prolongado, podendo chegar a 25 anos, o que vai contra a dinâmica das cidades e causa contradições de interesses futuramente. O segundo é o modelo de vincular o transporte coletivo ao pagamento da tarifa e tratá-lo como um negócio qualquer, sendo que é um serviço de utilidade pública. O terceiro ponto é a priorização do transporte individual motorizado. O resultado é um transporte coletivo ruim e caro, e o grande sonho de todos é ter um carro para se libertar, levando a congestionamentos, estresse, poluição e mal funcionamento das cidades como um todo. O cidadão tem o direito de ir e vir, mas não tem como exercê-lo, sendo sonegado o acesso da população a vários serviços básicos, culturais, enfim. Continue lendo

País não resiste à permanência da desigualdade

desigualdadesocialA ebulição social a que o país assiste, com a escalada de protestos, reflete, na opinião de Jorge Almeida, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o preenchimento do vácuo dos movimentos sociais que se burocratizaram desde a chegada do PT ao poder, em 2003. Para ele, os distúrbios vêm num momento em que, por meio do convencimento e do aumento do poder de consumo – mas não da redução da desigualdade social – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou uma situação de hegemonia estável para o grande capital no país. Mas ela não teria resistido à permanência da desigualdade. E com um elemento novo, a presença de jovens que, depois de dez anos dos petistas no poder, cresceram sem ter parâmetros de outros governos. “Talvez esta juventude não esteja mais raciocinando numa base comparativa”, afirma.

Cristian Klein, Valor, 19 de junho de 2013

Qual é o pano de fundo deste movimento?

No começo do governo Lula houve um enfraquecimento dos movimentos sociais, não há dúvida. Eles passaram por um processo de moderação, apoiaram o governo e deixaram de mobilizar as suas bases. Ao mesmo tempo, o governo Lula representou o fortalecimento da hegemonia do grande capital no Brasil. Eu uso o conceito de hegemonia de Gramsci, o qual não se trata de uma simples dominação. Requer uma construção de consensos. A história do Brasil, desde a Colônia, é marcada por uma dominação muito grande, mas autoritária, que sempre se utilizou da força, mesmo no interregno democrático entre as ditaduras getulista e militar. Isso mostra uma hegemonia fraca, ou instável, porque a força tem que estar na frente, não o convencimento. A instabilidade dessa hegemonia sempre esteve associada à desigualdade social e aos movimentos sociais e entidades que se opunham a ela, como a UNE, o PT, a CUT, o MST. Estas organizações dificultavam a hegemonia e dois fatos importantes ocorrem no pós-Lula. Continue lendo

Tarifa Zero

imagesPaulo Sandroni, http:/sandroni.com.br, 3 de junho de 2013

Durante o mandato de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo (1989-1992) o Executivo enviou uma proposta de Tarifa Zero à Câmara de Vereadores. A ideia foi do Lucio Gregori então Secretario de Transportes coadjuvado pelo Jairo Varoli então Presidente do CET. Como Presidente da CMTC, empresa pública encarregada da operação e gestão do serviço de ônibus em São Paulo encampei imediatamente a proposta por reconhecer as enormes vantagens não apenas sociais, mas também econômicas e políticas que ela significava. Levamos a proposta à Luzia Erundina que imediatamente deu luz verde para que transformássemos a ideia em um projeto de lei a ser rapidamente encaminhado á Câmara de Vereadores. Percebendo o impacto do projeto e especialmente seus alcances políticos, a oposição que no momento mantinha maioria na Câmara de Vereadores rejeitou a proposta, e a tarifa zero não pode ser colocada em prática. Continue lendo

Grupo convoca protesto também do lado de dentro de estádios da Copa

cnt474291_h229_w407_aNoChange_veja-protesto-contra-a-copa-das-confederacoes-em-brasiliaOrganizadores de um protesto contra os gastos públicos para a Copa do Mundo em Fortaleza – palco do segundo jogo do Brasil na Copa das Confederações, na quarta-feira – querem levar para dentro do estádio o que até agora vem ficando do lado de fora.

Rogerio Wassermann, BBC Brasil, 18 de junho de 2013

Em uma página no Facebook criada para convocar a manifestação desta quarta-feira, os organizadores sugerem aos torcedores que compraram ingressos para as partidas da Copa das Confederações que não deixem de ir aos estádios, mas que se vistam de preto, pintem as mãos de vermelho e levem em cartazes para protestar. Continue lendo

Por uma vida sem catracas

logo-passe-livre-campanha-de-sao-pauloA boa utopia é sempre tópica, situada, se define pela mensagem voltada para o potencial de produzir experiências, de conectar idéias, sugere um caminho programático com base na sua autonomia quanto aos poderes dominantes

Cunca Bocayuva,  Canal Ibase, 18 de junho de 2013

Car@s amig@s, sem tentar tecer considerações sobre o óbvio acho que podemos sair em defesa do protesto social no Rio de Janeiro, em Paris ou em Istambul. Distintas razões estão levando ao protesto social a primeira geração global pós-neoliberal e pós-internet. Uma grande resistência começa a ser criada para fazer frente ao processo distópico, de destruição programada dos direitos econômicos, sociais e culturais. Vemos hoje os primeiros ensaios de uma convergência e interação de vozes e corpos, que se manifestam pelas redes e nas cidades. Continue lendo

“Paramos o país e não foi por 20 centavos: O que queremos”?

 

“Paramos o país e não foi por 20 centavos: O que queremos”? “Uma parcela considerável, senão a maioria dos manifestantes nunca protestou, nunca se mobilizou e, no caso dos jovens, não se vê representado pelo PT e muito menos cai na tese do ‘mal maior’ usada pelo PT. A geração que está nas ruas em peso nunca viveu sob FHC, ou seja, o discurso do PT não cola mais. Não adianta ficar se comparando ao que os jovens não conheceram, é preciso mostrar trabalho, se mostrar novo e o PT não tem conseguido fazer isso. Na verdade, nenhum dos partidos consegue”.

Raphael Tsavkko Garcia, 18 de julho de 2013. Reproduzido de IHU On-line.

Participei ontem dos maiores protestos que já vi agitarem o país. Ou, ao menos, que eu tenha tido o imenso prazer de participar. Paramos o país de norte a sul.

Éramos 100 mil no Rio, mais de 100 mil em São Paulo (o movimento que começou no Largo da Batata se dividiu em vários “menores”, um deles ocupou toda a Brigadeiro Luis Antônio da JK até a Paulista, só ali éramos mais do que os 60 mil totais divulgados pela mídia), mais de 20 mil em Belém, milhares em Brasília, PoA, Maceió, BH, Vitória, Londrina, Juiz de Fora, Caruaru, Santos… Em dezenas de cidades no Brasil e no mundo. Continue lendo

O “partido das ruas” está sendo construído nas manifestações

5983_10151665765099295_1680612744_nUma nova geração política está, extasiada, tomando consciência da sua força coletiva quando ocupa as ruas. E pretende ficar nelas enquanto o transporte público se degradar, evangélicos aprovarem a “cura gay”, ruralistas assassinarem índios e ecologistas, tecnocratas e banqueiros continuarem suas negociatas e os governantes administrarem tudo isso em nome da governabilidade

José Correa Leite, 18 de junho de 2013

O descontentamento latente com a política brasileira, por parte da juventude das grandes cidades, que vinha se acumulando nos últimos anos eclodiu nesta segunda-feira em protestos por todo o país. Centenas de milhares de pessoas – 230 mil numa soma rebaixada de alguns jornais – saíram às ruas para manifestar sua inconformidade, tendo como catalisador o aumento da tarifa dos transportes públicos e os protestos convocados pelo Movimento Passe Livre a partir da grande repressão que sofreu em São Paulo na última quinta-feira. E nesta terça atos massivos continuam ocorrendo. Continue lendo

Porque ir às manifestações nesta segunda-feira

guy-fawkesJosé Correa Leite, 16 de junho de 2013

Porque é uma demanda justa e urgente, que precisa ser reforçada
É justa para quase tod@s. O problema da mobilidade urbana está se tornado catastrófico na vida dos brasileiros. 55% dos paulistanos consideram o sistema de transportes públicos ruim ou péssimo. Os governos federal e estadual continuam estimulando a industria automobilística e nada fazem pelo transporte coletivo, degradando as condições de vida das grandes cidades e a saúde da população. Vivemos numa ditadura da sociedade do automóvel. As obras de mobilidade prometidas como o legado da Copa do Mundo para a melhoria das cidades ficaram no papel, na mais pura hipocrisia. Do jeito que as coisas vão, a feição das grandes cidades e de São Paulo em particular só vai mudar em 30 ou 40 anos.
É justa e urgente para os mais pobres. O transporte público nas grandes cidades brasileiras é um dos mais caros do mundo. Dezenas de milhões de brasileir@s tem gastar dezenas de horas por semana andando a pé porque o preço do transporte público não cabe em seus orçamentos – apesar de todo o alvoroço sobre a ascensão de uma “classe C”. Sem transporte público barato e de qualidade, qualquer acesso à cidade, aos seus serviços e suas possibilidades é propaganda vazia. Continue lendo

Muito mais do que 20 centavos

policial-que-disparou-spray-de-pimenta-em-jornalista-vira-meme-veja-as-montagens640x512_6455aicitonp17t337uue2bvr31g18a0rlgf1Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo, 16 de junho de 2013

Se engana quem acredita que a cidade parou por apenas 20 centavos. Embora 20 centavos façam a diferença para milhões. Na manifestação do Movimento Passe Livre de terça-feira, a unanimidade foi chamar todo cidadão que protestou de vândalo e baderneiro. As duas autoridades da cidade estavam juntas em Paris, o governador do PSDB, Geraldo Alckmin, e o prefeito do PT, Fernando Haddad, com o vice-presidente Michel Temer, do PMDB. Esqueceram as divergências para vender o Brasil a outro evento internacional.

Na França, apresentaram o projeto de São Paulo à Expo 2020, uma prova de que o poder vive num delírio megalomaníaco, ao passo que, quem leva 2h por dia para ir trabalhar, 3h para voltar, em ônibus entupidos e caros e enfrenta 200 km de congestionamento, vive a realidade. A manifestação nesses dias em São Paulo ganhou o caráter que deveria: uma revolta coletiva contra um Estado que trata o indivíduo como um estorvo: o inimigo. Estado que, em vez de solucionar os problemas da violência, aterroriza, que gasta em estádios, não em metrô.

Continue lendo

Quanto valem 20 centavos?

O que une os manifestantes de São Paulo é o movimento: o ato literal e simbólico de romper o imobilismo da cidade parada e andar

Eliane Brum, Época, 17 de junho de 2013

Vinte centavos não são vinte centavos. Vinte centavos tornaram-se ao mesmo tempo estopim e símbolo de um movimento tão grávido de possibilidades que foi reprimido a balas de borracha, a bombas de gás lacrimogêneo e também a golpes de caneta. O que começou com o aumento da passagem do ônibus, se alargou, se metamorfoseou e virou um grito coletivo que tomou a Avenida Paulista e ecoou nas ruas do Brasil. O que há de tão ameaçador nestes 20 centavos, a ponto de fazer com que governos da democracia protagonizem cenas da ditadura, é talvez algo que se acreditava morto por aqui: utopia. A notícia perigosa anunciada pelas ruas, a novidade que o Estado tentou esmagar com os cascos dos cavalos da polícia paulista, é que, enfim, estamos vivos. Continue lendo