O pelourinho carioca e a transmissão do ódio via concessão pública de TV

justiceiros do rioLeonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 6 de fevereiro de 2014

Depois que algum braço da Ku Klux Klan composto por cariocas desmiolados prendeu um rapaz negro pelo pescoço em um poste no Rio de Janeiro, imaginei que o caso iria atiçar o debate sobre a dignidade da molecada pobre nas grandes cidades – que, mais de 20 anos depois da Chacina da Candelária, continua uma peça de ficção científica. Continue lendo

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Lógica do mercado favorece trabalho escravo

Amazon SlaveryEm 28 de janeiro de 2004, os auditores do trabalho Nelson José da Silva, João Batista Lage e Eratóstenes de Almeida Gonçalves, além do motorista Ailton Pereira de Oliveira, faziam uma operação de fiscalização em Unaí (município do noroeste de Minas Gerais) quando, segundo a investigação do Ministério Público Federal (MPF), foram assassinados. Eles já eram conhecidos na região e haviam despertado raiva pelos registros de trabalho análogo à escravidão em algumas fazendas. O nome dos criminosos já foi até divulgado – Rogério Alan Rocha Rios e Erinaldo de Vasconcelos Silva. Houve condenação em primeira instância, mas, dez anos depois, ninguém foi preso.

IHU On-line, 2 de fevereiro de 2014

O dia 28 de janeiro se tornou, então, um marco no combate ao trabalho escravo. Por isso, desde a última segunda-feira, várias cidades do país têm recebido eventos sobre o tema. É hora de parar para pensar nele, já que os números apontam milhares de trabalhadores brasileiros em situação de trabalho análogo à escravidão. No Senado, uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC 57A/1999) bate à porta, mas está sendo freada pela bancada ruralista. Quais os argumentos dos ruralistas? Como a sociedade civil está se organizando para isso? E a que interesses serve o trabalho escravo de hoje?

O coordenador da ONG Repórter Brasil e membro da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, Leonardo Sakamoto, responde a estas questões com o olhar de quem acompanha o tema há mais de 10 anos. Continue lendo

Rio perdeu o pudor de adotar o terrorismo de Estado como política pública

maraLeonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 26 de junho de 2013

O governo do Estado do Rio de Janeiro enlouqueceu. Não há outra forma de descrever o comportamento de suas forças de segurança nas últimas semanas. E olha que quem escreve é um morador de São Paulo, que possui uma das polícias mais meigas do país. Não estou surpreso com a violência desmesurada ou com o pouco respeito à vida e à dignidade, mas pelo fato do governo ter perdido o pudor e não se preocupar mais em esconder as besteiras que faz.

Primeiro, a selvageria contra manifestantes que marchavam em paz no Centro da capital carioca sem nenhum constrangimento, ignorando que o comportamento de um grupo de idiotas não pode justificar o tratamento ignóbil dispensado à imensa maioria pacífica. Os policiais não atuavam entre os que causavam danos ao patrimônio público, mas intimidavam ostensivamente qualquer um que não estivesse em casa vendo a novela. Isso sem contar as bombas de gás, balas de borracha e spray de pimenta lançados contra quem protestava pacificamente próximo ao estádio do Maracanã.

Somado a isso, o pânico provocado no Complexo da Maré com a operação que deixou, pelo menos, dez mortos – inclusive um policial. Supostamente, em busca de supostos responsáveis por um arrastão e, depois em clara vingança pela morte de um sargento, a força pública esculachou moradores, invadiu casas, abusou da autoridade, enfim. Centenas se reuniram para protestar contra a presença do Bope na favela e a própria polícia – pasmem – reconheceu que inocentes foram mortos. Continue lendo

O efeito dominó da revolta em Jirau

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 23 de março de 2011

Conversei com jornalistas que foram cobrir a situação causada pelos protestos no canteiro de obras da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Quase todos foram com uma pauta sobre vandalismo, mas voltaram com um número maior de matérias tratando de graves problemas trabalhistas e de sério desrespeito aos direitos fundamentais. Isso foi percebido pelos leitores/ouvintes/telespectadores que acompanharam o caso com atenção nos últimos dias, a ponto de refletir nas cartas e e-mail recebidos em redações. As primeiras notícias trataram de quebra-quebra, depois começou a aparecer o pano de fundo. Continue lendo

Jirau: um país que vai pra frente, mas passando por cima

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 18 de março de 2011

A destruição de parte do canteiro de obras da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, causada por protestos de trabalhadores, tem sido pauta nos últimos dias. O quiprocó teria começado com uma briga entre operários e motoristas da obra, a maior em curso no país. Mas pavio aceso só explode se tiver pólvora por trás. E esta seriam as condições a que estariam submetidos os trabalhadores, o que inclui reclamações por falta de tratamento decente aos doentes, pagamento de hora extra e o não cumprimento das promessas dos recrutadores que trouxeram mão-de-obra para a usina. Continue lendo

Fome: Fazer a opção pelo pequeno é sonhar grande

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 14 de março de 2011

Jacques Diouf, presidente da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), alertou hoje para o risco de uma crise alimentar nos países em desenvolvimento semelhante à que ocorreu entre 2007 e 2008 devido ao aumento no preço da comida. Enumera entre motivos, o aumento no preço do petróleo, utilizado não apenas no transporte mas intensivamente na produção de fertilizantes. Continue lendo

Belo Monte: a população local é apenas um detalhe

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 8 de fevereiro de 2011

Cansei de ouvir intelectuais dito progressistas e autodenominados esclarecidos fazendo coro com parte da Esplanada dos Ministérios e do empresariado nacional e internacional ao pedir que o meio ambiente não seja um entrave para o crescimento. Como já disse aqui antes, fazem contas para mostrar que a vida de algumas centenas de famílias camponesas, ribeirinhas, quilombolas ou indígenas não pode se sobrepujar sobre o “interesse nacional”. Defendem a energia nuclear como panacéia. Taxam de “sabotagem sob influência estrangeira” a atuação de movimentos e entidades sérias que atuam para que o “progresso” não trague o país. Continue lendo

O Planalto, seus caciques e a hidrelétrica

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 9 de fevereiro de 2011

Representantes do Palácio do Planalto receberam, nesta terça (8), manifestantes contrários à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, Estado do Pará. Trago um breve relato de como foi a audiência feito por pessoas que dela participaram. Vale pela curiosidade. Continue lendo

A Vila Cruzeiro é do Estado. Mas o Estado a quer?

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 25 de novembro de 2010

“Posso dizer, com 100% de certeza, que a Vila Cruzeiro é do Estado.” A frase é do subchefe operacional da Polícia Civil, Rodrigo Oliveira, e foi dita nesta quinta após operação de combate a traficantes que envolveu 250 policiais na zona norte do Rio de Janeiro.

Desde que começou a atual onda de violência na capital fluminense, tem sido frequente o uso de expressões como o “Estado não entra lá” e coisa do gênero. Bem, considerando o calor do momento e as circunstâncias, releva-se uma certa “licença poética operacional”, por assim dizer. Mas vale uma observação. Facções como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando e o Amigos dos Amigos são grupos criminosos e não têm objetivos políticos de tomar o governo, muito menos criar um “Estado paralelo”. Pelo contrário, eles se valem da falta de uma presença do Estado (com serviços públicos precários, acesso à Justiça risível e forças de segurança que agem, muitas vezes, como aqueles a quem deveriam combater) para criar um “poder paralelo” em um determinado território a fim de proteger o seu negócio. Continue lendo

A boa disputa entre fazendas de vento e de cana

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 4 de setembro de 2010

O avanço na produção e comercialização de energia eólica no Brasil tem incomodado produtores de biomassa (como o bagaço queimado usado geração de energia elétrica, resultante da moagem de cana em usinas). Dizem que as “fazendas de vento” têm se beneficiado de financiamentos diferenciados e isenções de impostos. Considerando os leilões de energia elétrica em 2010, o preço médio do MWh contratado ficou em R$ 130,86 na eólica e R$ 144,20 na biomassa, de acordo com matéria publicada neste sábado pelo jornal Folha de S. Paulo. Continue lendo

Parabéns, paulistanos! Hoje o ar de SP está irrespirável

Leonardo Sakamoto, Blog de Sakamoto, 21 de agosto de 2010

Para quem está (por sorte) fora daqui: mentalize um ar muito seco, atacamesco mesmo, somado à poluição gerada por milhões de felizes condutores de automóveis, motocicletas e caminhões que crescem a cada dia a taxas chinesas. Sentiu? Desistiu de vir para cá passar férias? O pior é que quem conta o número de anos perdidos pelos citadinos paulistanos por respirar meleca são considerados entraves ao desenvolvimento. É mais patriótico comemorar os recordes de fabricação de veículos.

Ah, e o dinheiro público que despejamos na indústria automobilistica não nos ajudou a sair da crise econômica? É verdade. Mas a confirmação disso é exatamente a certeza de que sempre optamos pela saída mais fácil, sem pensar nas consequências. Pois, como boa parte do capital não aceita condicionantes, contrapartidas ambientais decentes pelo dinheiro investido só quando um fusca falar. Continue lendo

Jornada menor e taxação de fortunas. Radicais? Uma pinóia!

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 13 de julho de 2010

Alguém me explique, por favor, eu imploro, por que a taxação de grandes fortunas e a redução da jornada de trabalho estão sendo consideradas ações radicais? Aliás, radical na opinião de quem? Dos trabalhadores e da imensa maioria da população que se beneficiaria com essas medidas?

Primeiro, a Organização Internacional do Trabalho divulgou, recentemente, um estudo mostrando que a redução do teto da jornada para 40 horas semanais, como defendem as centrais sindicais, beneficiaria um contingente de 18,7 milhões de trabalhadores brasileiros. Continue lendo

Ruralistas: o inimigo do meu inimigo é meu amigo

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 24 de junho de 2010

Em artigo na Folha de S. Paulo de hoje, Kátia Abreu, senadora pelo Tocantins (DEM) e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), elogiou Aldo Rebelo (PC do B-SP) por sua “coragem moral” como relator do projeto do Novo Código Florestal, exaltando o seu nacionalismo, sua autoridade, sua incorruptibilidade (como ela sabe disso é que eu não sei…) e sua racionalidade ao criar o diálogo entre o meio ambiente e a agropecuária.

Bem, conforme já discutido aqui anteriormente, se aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente da República, o novo Código vai legalizar e incentivar a produção não sustentável e rifar a qualidade de vida das futuras gerações. Aldo conseguiu algo raro: a imensa maioria dos veículos de comunicação, das mais diferentes orientações ideológicas, escreveram editoriais descascando a sua proposta. Quase uma unanimidade. Continue lendo

Bem-vindos à era das crianças por controle remoto

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto, 29 de março de 2010

– Vai já para trás do seu irmão! – gritou a mãe.

E o rapazinho, do alto dos seus cinco ou seis anos, acelerou o seu sedan de brinquedo e foi para perto do irmão, que passeava em um reluzente esportivo azul. Procurei os pés dele empurrando o carro por baixo, no melhor estilo Flinstones, ou mesmo algum pedal. Nada. O brinquedinho era elétrico. Continue lendo

Por que a Lei Áurea não representou a abolição definitiva?

Leonardo Sakamoto, Fundação Lauro Campos, 20 de julho de 2008

Em 2008, comemora-se os 120 anos da Lei Áurea, quando o Estado brasileiro passou a considerar ilegal o direito de propriedade de um ser humano sobre outro. Contudo, o ato da princesa Isabel não foi a causa do fim do regime escravista no país, mas o final (postergado, ao máximo) de um processo que começou com a proibição do tráfico negreiro entre a África e o Brasil. E contou com a instituição de garantias prévias para que os proprietários rurais tivessem mão-de-obra farta e à disposição mesmo após a assinatura que condenou o trabalho escravo à ilegalidade. Continue lendo