Depois de 20 anos em São Paulo, tucanato mostra sua cara

metro_lotadoWaldemar Rossi, Correio da Cidadania, 7 de fevereiro de 2014

Quando Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi eleito presidente da República, em 1994, Mário Covas também se elegeu governador pelo estado de São Paulo. O PSDB planejava ficar no governo por 20 anos, pelo menos. Convenhamos, um projeto ousado. Com FHC não funcionou, bastaram oito anos para que o povo brasileiro acordasse, e vivesse nova (?) experiência com o PT. Mas com Covas/Alckmin/Serra deu certo. Deu certo?

Não houve alternância no governo paulista: Covas-Alkmin-Serra-Alkmin e lá se vão os 20 anos planejados. Com o apoio de um eleitorado estadual majoritariamente conservador e a cobertura midiática, conseguiram passar goela abaixo todos os projetos que interessavam ao capital, ditados pelo Consenso de Washington (CW). Continue lendo

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A pane no metrô: dos rolêzinhos à irresponsabilidade política

metro spJoão Sette Whitaker, Cidades para que(m)?, 6 de fevereiro de 2014

Seria muito, mas muito bom que o governador provasse, o quanto antes, as graves acusações que fez sobre a interrupção do dia 5 no metrô de São Paulo e toda a confusão que se seguiu (milhares de usuários andando pelos trilhos, gente passando mal, brigas, que mais uma vez não resultou em mortes por pura sorte): a de que ela foi provocada pela ação de “vândalos”. Caso não consiga, estaremos face a um perigoso cenário em que não há limites para criar versões que isentem o governo de suas responsabilidades.

Vale qualquer coisa para fugir dos fatos. Aponta-se como causa dos problemas os “distúrbios sociais”, o “vandalismo”, de responsabilidade difusa (a “situação do país”, o prefeito, o Governo Federal?), desviando-se o foco das suas causas reais, absolutamente mensuráveis e de responsabilidade bem precisa: o Governo do Estado. Continue lendo

Para não ficarmos imobilizados nas ruas

A woman with a child on her bicycle navigates through Beijing traffic.Washington Novaes, O Estado de S.Paulo, 19 de julho de 2013

Já não era sem tempo. A mobilização social, dezenas de grandes manifestações nas cidades com reivindicações em muitas áreas, afinal trouxe para as ruas um tema – a chamada “mobilidade urbana” – até então quase limitado às notícias de prejuízos financeiros ou de tempo perdido pelos usuários. Por isso mesmo, a discussão mais ampla ficava bastante confinada a editoriais de jornais ou artigos de especialistas.

Os números e outras informações sobre transporte urbano nesses dias foram impressionantes. A começar pelo cálculo (Mobilize, 12/7) de que as isenções de impostos para veículos de transporte individual e gasolina desde 2003 já somam R$ 32,5 bilhões, com os quais seria possível implantar 1.500 km de corredores de ônibus ou 150 km de metrô. Pode-se comparar essa cifra também com aplicações do Ministério das Cidades para financiar 95,6 km de metrô, trens, estações: R$ 15,4 bilhões. Só a redução da Cide no preço da gasolina significou R$ 22 bilhões; as reduções de IPI sobre veículos chegarão no fim deste ano a R$ 10,5 bilhões. Mas o ministro da Fazenda tem dito que esses subsídios são importantes porque a indústria automobilística significa 25% da produção industrial – ainda que, pode-se acrescentar, signifique prejuízos imensos para os usuários de transportes coletivos. Continue lendo

Rumo à tarifa zero

Tarifa-zero1Daniel Guimarães, Graziela Kunsch, Mariana Toledo e Luiza Mandetta, Folha de S.Paulo, 5 de junho de 2013

É preciso abrir a caixa-preta dos transportes públicos, com ou sem CPI, e, sobretudo, é urgente discutir o modelo de gestão

Há pouco, escrevemos sobre os motivos que nos levaram às ruas. O aumento de R$ 0,20 nas tarifas acentuaria a exclusão social provocada por um modelo de gestão do transporte baseado nas concessões privadas e na cobrança de tarifa.

Após duas semanas de luta, a população de São Paulo revogou o aumento. Resistimos à desqualificação dos meios de comunicação, bombas, balas e prisões arbitrárias.

Isso não fugiu à regra do tratamento que o Estado dá aos movimentos sociais. É importante que o Judiciário reconheça a ilegalidade das acusações que pesam sobre alguns dos detidos, entre elas a de formação de quadrilha. E que o Ministério Público reconheça a arbitrariedade da polícia e se recuse a oferecer denúncias contra manifestantes, evitando processos criminais.

Foi uma vitória das ruas, de esquerda e pedagógica, que ensinou que a população organizada pode mudar os rumos de sua cidade e, por consequência, de sua vida. Tarifas foram reduzidas em quase 50 cidades, sendo mais de dez capitais. Há lutas em andamento, e o debate sobre a tarifa zero está em pauta. Continue lendo

15 anos em 15 dias

Se do ponto de vista econômico a conquista pode parecer ninharia, no que tange ao seu significado político ela é enorme.

Coletivo Passa Palavra, Brasil de Fato, 20 de junho de 2013

Depois de quase duas semanas de intensa mobilização, as tarifas do transporte público das duas maiores capitais brasileiras foram revogadas. Ônibus, metrô e trem de São Paulo voltam a custar R$3,00; e no Rio a tarifa retorna ao valor de R$2,75. Continue lendo

O “partido das ruas” está sendo construído nas manifestações

5983_10151665765099295_1680612744_nUma nova geração política está, extasiada, tomando consciência da sua força coletiva quando ocupa as ruas. E pretende ficar nelas enquanto o transporte público se degradar, evangélicos aprovarem a “cura gay”, ruralistas assassinarem índios e ecologistas, tecnocratas e banqueiros continuarem suas negociatas e os governantes administrarem tudo isso em nome da governabilidade

José Correa Leite, 18 de junho de 2013

O descontentamento latente com a política brasileira, por parte da juventude das grandes cidades, que vinha se acumulando nos últimos anos eclodiu nesta segunda-feira em protestos por todo o país. Centenas de milhares de pessoas – 230 mil numa soma rebaixada de alguns jornais – saíram às ruas para manifestar sua inconformidade, tendo como catalisador o aumento da tarifa dos transportes públicos e os protestos convocados pelo Movimento Passe Livre a partir da grande repressão que sofreu em São Paulo na última quinta-feira. E nesta terça atos massivos continuam ocorrendo. Continue lendo

Porque ir às manifestações nesta segunda-feira

guy-fawkesJosé Correa Leite, 16 de junho de 2013

Porque é uma demanda justa e urgente, que precisa ser reforçada
É justa para quase tod@s. O problema da mobilidade urbana está se tornado catastrófico na vida dos brasileiros. 55% dos paulistanos consideram o sistema de transportes públicos ruim ou péssimo. Os governos federal e estadual continuam estimulando a industria automobilística e nada fazem pelo transporte coletivo, degradando as condições de vida das grandes cidades e a saúde da população. Vivemos numa ditadura da sociedade do automóvel. As obras de mobilidade prometidas como o legado da Copa do Mundo para a melhoria das cidades ficaram no papel, na mais pura hipocrisia. Do jeito que as coisas vão, a feição das grandes cidades e de São Paulo em particular só vai mudar em 30 ou 40 anos.
É justa e urgente para os mais pobres. O transporte público nas grandes cidades brasileiras é um dos mais caros do mundo. Dezenas de milhões de brasileir@s tem gastar dezenas de horas por semana andando a pé porque o preço do transporte público não cabe em seus orçamentos – apesar de todo o alvoroço sobre a ascensão de uma “classe C”. Sem transporte público barato e de qualidade, qualquer acesso à cidade, aos seus serviços e suas possibilidades é propaganda vazia. Continue lendo

Quanto valem 20 centavos?

O que une os manifestantes de São Paulo é o movimento: o ato literal e simbólico de romper o imobilismo da cidade parada e andar

Eliane Brum, Época, 17 de junho de 2013

Vinte centavos não são vinte centavos. Vinte centavos tornaram-se ao mesmo tempo estopim e símbolo de um movimento tão grávido de possibilidades que foi reprimido a balas de borracha, a bombas de gás lacrimogêneo e também a golpes de caneta. O que começou com o aumento da passagem do ônibus, se alargou, se metamorfoseou e virou um grito coletivo que tomou a Avenida Paulista e ecoou nas ruas do Brasil. O que há de tão ameaçador nestes 20 centavos, a ponto de fazer com que governos da democracia protagonizem cenas da ditadura, é talvez algo que se acreditava morto por aqui: utopia. A notícia perigosa anunciada pelas ruas, a novidade que o Estado tentou esmagar com os cascos dos cavalos da polícia paulista, é que, enfim, estamos vivos. Continue lendo

As manifestações, a tarifa e a política

Lúcio Gregori, Caros Amigos, 14 de junho de 2013

As manifestações promovidas pelo MPL e diversos outros movimentos e setores da sociedade civil contra o aumento das passagens dos transportes coletivos em São Paulo precisam ser entendidas em todos os seus aspectos.
“Foi uma manifestação para trazer à tona a discussão sobre a política de transportes públicos em geral e, particularmente, sobre a política tarifária”

Não se tratou de uma manifestação pontual contra o recente aumento das tarifas, que foram reajustadas abaixo da inflação por fator conjuntural e não por uma política tarifária permanente. Continue lendo

Por que estamos nas ruas

thumb-110611-protesto-sao-paulo-resizedO impacto violento do aumento das tarifas no bolso da população faz as manifestações extrapolarem os limites do movimento

Nina Cappello, Erica de Oliveira, Daniel Guimarães e Rafael Siqueira, Folha de S.Paulo, 13 de junho de 2013

O modelo de transporte coletivo baseado em concessões para exploração privada e cobrança de tarifa está esgotado. E continuará em crise enquanto o deslocamento urbano seguir a lógica da mercadoria, oposta à noção de direito fundamental para todas e todos.

Essa lógica, cujo norte é o lucro, leva as empresas, com a conivência do poder público, a aumentar repetidamente as tarifas. O aumento faz com que mais usuários do sistema deixem de usá-lo, e, com menos passageiros, as empresas aplicam novos reajustes. Continue lendo

Gente diferenciada invade Higienópolis para exigir Metrô

Foto de Maira Kubik Mano
Maíra Kubík Mano, Carta Maior, 14 de maio de 2011

– Eu não imaginava que as redes sociais pudessem mobilizar tanta gente.

– Eu fiquei um tempão na Praça Vilaboim e não tinha ninguém. Pensei que era lá. Ainda bem que quando cheguei aqui encontrei a multidão.

– Eu acho que tem pouca gente. Mais de 50 mil confirmaram pelo Facebook e não vieram. Tem pessoas que se escondem atrás do computador, fazem ativismo só online.

Divergências à parte, o churrasco da “gente diferenciada” estava cheio. Bem cheio. Eram pouco mais de 14h quando cerca de mil pessoas começaram a se concentrar em frente ao shopping Pátio Higienópolis. O motivo? Protestar contra a mudança da futura estação de Metrô da av. Angélica para a av. Pacaembu. A alteração dos planos na Linha 6 – laranja teria ocorrido após a Associação Defenda Higienópolis alegar que a obra não deveria ser feita ali porque aumentaria o “número de ocorrências indesejáveis” e a área se tornaria “um camelódromo”. Continue lendo

Contra enchentes, água do Pinheiros será bombeada mais rápido à Billings

Mas plano do governo do Estado, que inclui a compra de mais três bombas, é criticado por ambientalistas e secretário de São Bernardo

Eduardo Reina, O Estado de S.Paulo, 2 de marco de 2011

O governo de São Paulo quer aumentar de 12 para 15 o número de equipamentos que bombeiam água dos Rios Tietê e Pinheiros para a Represa Billings. Hoje os existentes nas Usinas Elevatórias de Traição e Pedreira jogam 675 metros cúbicos por segundo. O plano é aumentar em 200 m³/s. Mas essa alternativa da administração estadual para minimizar enchentes na capital já desperta polêmica: além de ineficaz, especialistas dizem que ela pode aumentar o volume de sujeira no manancial que abastece quase 30% da Região Metropolitana de São Paulo. Continue lendo

Segurança pública: política de confronto ou de extermínio?

Equipe do Observatório das Violências Policiais – São Paulo.

Este artigo analisa as políticas de segurança pública no Brasil e a prática das forças de repressão, a partir de comentário crítico sobre a matéria de O Globo (09/03/2008) que comparou a “letalidade” das polícias carioca e paulista.

As estatísticas, e sobretudo as percentagens, servem para tudo. Servem para negar ou reafirmar um fato, mas servem também para desviar a atenção do que é o principal. Há pouco o jornal O Globo, tomando o período de janeiro a setembro de 2007 e comparando os números de mortos em confronto com policiais militares no Estado de São Paulo (291) e no Estado do Rio (1.245), concluiu que “a Polícia Militar do Rio mata 327% mais que a de São Paulo”. A PM do Rio estaria “no topo do ranking nacional” e especialistas consultados teriam atribuído esses números à “insistência numa política de confronto”. Continue lendo