Rolezinho e roleta-russa

1490702_781379198556597_2129245307_oEugênio Bucci, O Estado de S.Paulo, 23 de janeiro de 2014

1. Trilhas sonoras defasadas. Uma canção ecoa na cabeça das autoridades do governo federal, numa trilha sonora trazida de memória: “Tudo era apenas uma brincadeira/ E foi crescendo, crescendo, me absorvendu-u-u…”.

A prática do rolezinho, que começou na planície periférica de modo quase inocente, como brincadeira juvenil, foi crescendo, crescendo, ganhou proporções de impasse político e de potencial perturbação da ordem pública e hoje atormenta os corredores planaltinos, absorvendo o tempo escasso do pessoal que bate ponto na Esplanada dos Ministérios. A esta altura, a composição de Peninha, provavelmente nos vibratos indefiníveis de Caetano Veloso, faz o fundo musical das piores paranoias das autoridades. Entre um respiro e outro, elas torcem para que outro verso da mesma letra seja igualmente verdadeiro: “Mas não tem revolta, não”. Continue lendo

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‘Rolezinhos’ têm raízes na luta pelo espaço urbano, diz pesquisador

charge54881_linkEleonora de Lucena entrevista James Holston, Folha de S.Paulo, 19 de janeiro de 2014

Como os protestos de junho passado, os rolezinhos são manifestações de uma cidadania insurgente cujas raízes estão na luta pelo espaço urbano que ocorre há décadas no Brasil. A análise é do antropólogo James Holston, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA).

“O Brasil vibra nos últimos 50 anos de cidadania insurgente. É uma coisa ótima para sacudir uma sociedade de muita desigualdade. As manifestações são necessárias e vão continuar. Até hoje, considerando o tamanho da desigualdade, há muita pouca violência. A violência maior é a da polícia”, afirma, prevendo um “ano quente” para o Brasil. Continue lendo

O rolê da ralé

RolezinhoGrito dos quase incluídos? Flash mob da periferia? Repique das jornadas de junho? Marcha do desprezo pela cultura democrática? Ou apenas e tão somente “um rolê”? O País discute o que vai pela cabeça daqueles rapazes de bombeta e bermudas, que se endividam para comprar um tênis Mizuno, a congestionar os corredores dos shopping centers – estes também chamados aqui e ali de “templos do consumo”, “espaço privado aberto ao público” ou “única opção de lazer na quebrada”, de acordo com o gosto do freguês. Os rolezinhos entraram com tudo no vocabulário político nacional e andaram nas bocas do prefeito Fernando Haddad, do governador Geraldo Alckmin e até da presidente Dilma Rousseff.

Ivan Marsiglia entrevista Jessé Souza, O Estado de S. Paulo, 19 de janeiro de 2014

Para o sociólogo potiguar Jessé Souza, doutor pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, com todas as interpretações que se possam atribuir ao fenômeno (e, em especial, às reações da sociedade brasileira a ele), uma coisa é certa: estamos diante de “um reflexo do apartheid brasileiro que separa, como se fossem dois planetas distintos, os brasileiros ‘europeizados’, da classe média verdadeira, e os percebidos como ‘bárbaros’, das classes populares”. Continue lendo

O rolezinho e o risco de uma guerra “longa e dolorosa”

jovens-no-plaza-shopping-intitulado-de-rolezinho-em-niteroiAndré Singer, Viomundo, 18 de janeiro de 2014

O prefeito Fernando Haddad indicou o caminho certo. Diante do crescimento do conflito causado pelos “rolezinhos”, estimulou as partes a conversar. Como ficou claro em junho passado, atitudes extremadas só levarão ao desgaste da autoridade pública, com aumento da tensão social já visível nas grandes metrópoles.

O problema é que não há solução fácil no horizonte. Não basta disposição para o diálogo quando interesses materiais e simbólicos começam a se opor de maneira radical. Os jovens que estão deixando os centros de compra em pânico podem não saber, mas explicitam um confronto crescente entre ricos e pobres no Brasil. Continue lendo

Profanando os templos do consumo e da desigualdade

rolezinho 2Com seus rolezinhos, jovens da periferia de São Paulo profanam os shopping centers, os templos do consumo, desacralizando o que de mais valioso eles oferecem para as camadas conservadoras da sociedade, a sensação de segurança e a segregação das “classes perigosas”. Eles visibilizam a profunda desigualdade social e racial do Brasil e estão contribuindo para tematizar a privatização do espaço urbano.

José Correa, Outra política, 16 de janeiro de 2014

Valquiria Padilha, em seu estudo sobre os shopping centers no Brasil, chama-os de “templos da mercadoria”. E, de fato, sua proliferação pelo mundo acompanha a expansão da sociedade de consumo de massa e a difusão do american way of life, de sua religião, o culto ao mercado, e de seu ideal de felicidade, o consumo. Desde que o Shopping Center Iguatemi foi inaugurado em 1966 em São Paulo, o número de shoppings no Brasil atingiu 577 em 2004, passando para 766 em 2010 (sendo 153 no estado de São Paulo) e prevendo-se que eles cheguem a 985 em 2016.

Segurança e segregação em questão. Em uma das sociedades mais desiguais do mundo, que aboliu formalmente a escravidão há pouco mais de um século, os “templos do consumo” teriam que institucionalizar fortemente a segregação e preconceito. Os shoppings prometem aqui, aos seus freqüentadores, segurança e segregação social – dois “serviços” que, aos olhos da burguesia e das classes médias conservadoras, estão diretamente ligados. Eles se tornaram um componente central na segregação territorial e social das cidades brasileiras, recebendo todo tipo de isenção e apoio dos governos. Continue lendo

Os novos “vândalos” do Brasil

rolezinhoO rolezinho, a novidade deste Natal, mostra que, quando a juventude pobre e negra das periferias de São Paulo ocupa os shoppings anunciando que quer fazer parte da festa do consumo, a resposta é a de sempre: criminalização. Mas o que estes jovens estão, de fato, “roubando” da classe média brasileira?

Eliane Brum, El Pais, 23 de dezembro de 2013

O Natal de 2013 ficará marcado como aquele em que o Brasil tratou garotos pobres, a maioria deles negros, como bandidos, por terem ousado se divertir nos shoppings onde a classe média faz as compras de fim de ano. Pelas redes sociais, centenas, às vezes milhares de jovens, combinavam o que chamam de “rolezinho”, em shopping próximos de suas comunidades, para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras” ou “tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos”. No sábado, 14, dezenas entraram no Shopping Internacional de Guarulhos, cantando refrões de funk da ostentação. Não roubaram, não destruíram, não portavam drogas, mas, mesmo assim, 23 deles foram levados até a delegacia, sem que nada justificasse a detenção. Neste domingo, 22, no Shopping Interlagos, garotos foram revistados na chegada por um forte esquema policial: segundo a imprensa, uma base móvel e quatro camburões para a revista, outras quatro unidades da Polícia Militar, uma do GOE (Grupo de Operações Especiais) e cinco carros de segurança particular para montar guarda. Vários jovens foram “convidados” a se retirar do prédio, por exibirem uma aparência de funkeiros, como dois irmãos que empurravam o pai, amputado, numa cadeira de rodas. De novo, nenhum furto foi registrado. No sábado, 21, a polícia, chamada pela administração do Shopping Campo Limpo, não constatou nenhum “tumulto”, mas viaturas da Força Tática e motos da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) permaneceram no estacionamento para inibir o rolezinho e policiais entraram no shopping com armas de balas de borracha e bombas de gás. Continue lendo

Rolezinhos: limpando o campo para pensar o papel de esquerda organizada

Edemilson Paraná, Imaginar para revolucionar, 15 de janeiro de 2014

Diagnóstico

Não, não são “protestos” por justiça-social (por mais que gostaríamos que fossem). São flashmobs, encontros de jovens onde a vida no Brasil, por várias razões, passou a dizer que jovens devem se encontrar: nos shoppings. É sobre curtir, azarar, cantar, viver (porque no capitalismo viver é, antes de tudo, consumir). O Funk Ostentação, trilha sonora dos eventos, não tem no seu conteúdo (ainda que ironicamente o tenha na sua forma, sobretudo por conta do “choque estético” que produz em certos setores) nada de flagrantemente contra-hegemônico do ponto de vista político – assim como hip-hop bling-bling nunca teve. Continue lendo