A gota de sangue

Luis SoaresLuiz Eduardo Soares, Facebook, 10 de fevereiro de 2014

A morte do cinegrafista da Band é uma tragédia e um ponto de inflexão no processo político em curso. Pela tragédia, me solidarizo com a dor de familiares e amigos. Quanto à política, esse episódio dramático é a gota d’água, ou a gota de sangue que muda a qualidade dos debates e das identidades em conflito.

Quebrar vitrines é prática equivocada, contraproducente e ingênua, mas compreensível como explosão indignada, ante tanta iniquidade e a rotineira violência estatal, naturalizadas pela mídia e por parte da sociedade. Mas tudo se complica quando atos agressivos deixam de corresponder à explosão circunstancial de emoções, cuja motivação é legítima. Tudo se transforma quando atos agressivos já não são momentâneos e se convertem em tática, autonomizando-se, tornando-se uma espécie de ritual repetitivo, performance previsível, dramaturgia redundante. Continue lendo

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La militarización democrática

desigualdade-socialRaúl Zibechi, La Jornada, 7 de febrero de 2014

El reciente informe de Oxfam Gobernar para las élites muestra con datos fehacientes lo que venimos sintiendo: que la democracia fue secuestrada por el uno por ciento para ensanchar y sostener la desigualdad. Confirma que la tendencia más importante que vive el mundo en este periodo de creciente caos es hacia la concentración de poder y, por tanto, de riqueza.

El informe señala que casi la mitad de la riqueza mundial está en manos de uno por ciento de la población, que se ha beneficiado de casi la totalidad del crecimiento económico posterior a la crisis. Acierta Oxfam al vincular el crecimiento de la desigualdad a la apropiación de los procesos democráticos por parte de las élites económicas. Acierta también al advertir que la concentración de la riqueza erosiona la gobernabilidad, destruye la cohesión social y aumenta el riesgo de ruptura social. Continue lendo

Psico Cops

Para refletirmos sobre a PM de Sao Paulo em sua guerra de disputa de espaco com o PCC. Onde quer que olhemos, do Brasil aos EUA, da Grecia a Espanha, da Turquia a Russia, o recrutamento de policiais em quase todos os paises se faz privilegiando um carater psicotico e/ou sadico de personalidade combinado com tracos politicos conservadores ou mesmo fascistas (veja-se a Grecia…) – semelhantes aos que Adorno descreveu com maestria como caracteristicos dos nazistas em “Educacao apos Auschwitz”. As instituicoes zelam pela impunidade de seus membros. Ha excecoes, mas se contam nos dedos – mas sao perigosas porque podem questionar ordens. O exemplo abaixo foi retirado da pagina do Occupy Wall Street no Facebook. 

(H) The last time we posted this picture it went viral. Now it is even more important to raise our voices against this abuse and corruption. Please like and share!

“Over the summer, a still from a surveillance camera showing a police officer kicking a handcuffed woman in the head went viral on Facebook and email. The text below the picture read, “Rhode Island police officer Edward Krawetz receive d no jail time for this brutal assault on this seated and handcuffed woman. Now he wants his job back. Share if you don’t want this to happen.” The allegation was wild enough to pique the interest of the rumor-debunking site Snopes.com, which determined that the story was, in fact, true.

In 2009, Officer Edward Krawetz of the Lincoln Police Department arrested Donna Levesque for unruly behavior at a casino in Lincoln, Rhode Island. While seated on the ground with her hands cuffed behind her, Levesque kicked Krawetz in the shin. Krawetz responded by cocking back his right leg and nailing Levesque in the side of the head, knocking her over. In March 2012, Krawetz was convicted of felony battery despite his claim that he kicked Levesque in “self defense.” The 10-year sentence he received was immediately suspended, and Krawetz was ordered to attend anger management classes.

But he wasn’t fired from the Lincoln Police Department. Under Rhode Island law, the fate of Krawetz’s job as a cop rested not with a criminal court, or even his commanding officer, but in the hands of a three-person panel composed of fellow police officers—one of whom Krawetz would get to choose. That panel would conduct the investigation into Krawetz’s behavior, oversee a cross-examination, and judge whether Krawetz could keep his job. The entire incident, in other words, would be kept in the family”

A cultura do baculejo

Um dado alarmante: a média mensal de abordagens e revistas da população pela PM em São Paulo subiu 65% desde 2005

Paulo Sergio Pinheiro, O Estado de S.Paulo, 20 de novembro de 2010

A média de abordagens e revistas da população pela Polícia Militar registrada por mês no Estado de São Paulo desde 2005 subiu 65%, passando de 565 mil para 930 mil revistas. A média mensal de abordagens em 2010 foi quase o dobro da de cinco anos atrás. Há motivos para a população comemorar? O Estado de Direito não parece estar sendo respeitado e é viável sustentar a inconstitucionalidade se essas revistas forem discriminatórias. Até o fim do ano, mais de 11 milhões de pessoas terão sido paradas e revistadas por PMs no Estado, o equivalente a quase 30% da população. Continue lendo

Onde estão nossos familiares?

Em maio de 2006, em meio à histeria geral — gestada pela mídia — em torno das rebeliões atribuídas ao PCC, cinco jovens foram abordados por policiais, em São Paulo e Guarulhos. Depois disso, nunca mais foram vistos.

Durante suas buscas, os familiares desses desaparecidos, além de não terem recebido nenhuma assistência oficial, foram mal tratados por agentes do Estado. Ouviram insinuações de participação das vítimas nos ataques atribuídos ao PCC, e foram “inquiridos acerca da vinculação [das vítimas] à alguma facção criminosa”. (Leia mais no relato do Observatório das Violências Policiais.)

As autoridades policiais e civis permitiram (e até incentivaram) uma verdadeira caçada aos “suspeitos”. Suspeitos por serem pobres e marginalizados. Nas palavras da irmã de um dos desaparecidos:

Foram às ruas em busca dos escolhidos, aqueles que tinham o perfil procurado naqueles dias, negros, pobres, ex-detentos e tatuados. [Os policiais] queriam ir à desforra, criminalizaram a pobreza, destroçaram as periferias.

Esses cinco desaparecimentos, revelados recentemente, são apenas a ponta de um iceberg. Eles juntam-se às 493 pessoas que morreram por arma de fogo entre 12 e 20 de maio daquele ano, de acordo com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Somente 46 desses crimes foram atribuídos aos ataques do PCC; há fortes indícios de que a maioria dos restantes tenha sido executada. Para o Observatório das Violências Policiais, que vem tabulando os mortos por policiais (ou por desconhecidos e encapuzados, com indícios de que sejam policiais), houve 217 mortes desse tipo no mês de maio.

Embora a violência policial tenha aumentado nesse período, ela não começou nem terminou ali. (Os dados do Observatório apontam mais 388 mortos de junho de 2007 até hoje.) Os casos desses desaparecidos são uma triste variação sobre o tema dos desaparecidos durante a ditadura de 64; histórias que continuam freqüentes nas periferias brasileiras.