As manifestações e o direito à política

Tales Ab’Sáber, Folha de S.Paulo, 24 de junho de 2013

A crise universal da integração capitalista de 2008, produzida pelos ganhos desregulamentados de Wall Street –dos “terroristas” de Wall Street–, que liquidou a vida econômica e degradou a vida social em vários países, disparou outro processo mundial, o da desestabilização por movimentos populares de realidades políticas nacionais. Continue lendo

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Protestos – de onde vêm e para onde irão

Washington Novaes, O Estado de S.Paulo, 21 de junho de 2013

Ao mesmo tempo que se amiúdam na comunicação análises preocupadas com a situação econômica do País, vão-se tornando mais frequentes também manifestações populares de inconformismo e desapreço por governos, de protesto contra preço e qualidade de transportes, custo de vida, insatisfação com a saúde e educação ou ainda por causa do custo de construção de estádios de futebol. Que significado político mais amplo podem ter? Muitos, certamente. Mas índices de inflação e custos de alimentos têm tido presença importante. Continue lendo

Pegada ecológica: os seres humanos estão em déficit

A capacidade de consumo parece ilimitada e o planeta não é suficiente. Os recursos que serão utilizados daqui até o final do ano correspondem a estoques que não se renovam. A informação faz parte de um relatório baseado em dados científicos.

 Eduardo Febbro, Página/12, 27 de agosto de 2012. A tradução é do Cepat. Reproduzido de IHU On-line.

Desde 22 de agosto passado, a Humanidade está em déficit. Nos primeiros oito meses do ano, os seres humanos esgotaram a totalidade dos recursos que a Terra é capaz de produzir ao longo do ano. Em 22 de agosto, se alcançou o que a ONG Global Footprint Network (GFN) chama de Global Overshoot Day, isto é, “o dia do excesso”. Desde 2003, esta ONG mede todos os anos a pegada ecológica do planeta, o acúmulo dos recursos e a forma como os consumimos. A capacidade de regeneração anual do planeta é limitada. Diante disso, a capacidade de consumo do ser humano parece ilimitada e o planeta não é suficiente para cumprir com as exigências que a Humanidade lhe impõe. Desde a década de 1970, os seres humanos vivem muito acima dos seus meios. O relatório da GFN mostra um aceleramento constante do esgotamento dos recursos. Em 2012, o Global Overshoot Day foi atingido 36 dias antes que em 2011. A curva para baixo é constante. Os cálculos desta ONG se baseiam em dados científicos que se articulam em torno de uma medida, o hag, o hectare global mediante o qual se compara a biocapacidade do planeta com o consumo de cada país. O resultado dos estudos é catastrófico: para manter o nível de vida atual falta meio planeta suplementar. Continue lendo

O auge do “capitalismo moderno” e o ocaso da política

Roberto Savio, IPS, 15 de agosto de 2012

Algum dia será necessário refletir sobre o impacto da queda do Muro de Berlim, tanto no mundo dos vencedores como no dos vencidos. Os vencedores do comunismo foram os políticos, que tinham à disposição a força militar e as novas tecnologias. As corporações tiveram um papel fundamental, mas indireto até então. E os defensores do Ocidente daquela época (estamos falando de 1988), apresentavam como modelo um capitalismo que hoje está em vias de extinção.

Esse capitalismo havia se confrontado com as lutas sociais que se seguiram à Revolução Industrial e incorporara progressivamente valores como justiça social, participação e democracia na base da organização social. Um capitalismo que aceitara os sindicatos, os acordos entre sindicatos e empresas, e o trabalho como um direito fundamental.

No começo de julho, David Brooks, comentarista do conservador The New York Times, saiu em defesa do “capitalismo moderno”, observando que a cobiça é um forte estímulo para o sucesso. Afirmou que, se foram deslocados centenas de milhares de postos de trabalho, é porque o “capitalismo moderno” tem uma visão global, não meramente nacional. Isto implicou a criação de outros tantos postos de trabalho em países do Terceiro Mundo, o que é objetivamente um resultado de profundo significado social. Segundo Brooks, o capitalismo moderno continua sendo o único motor da história. Continue lendo

‘Crise prova que atual modelo econômico é inviável’

Marco Aurélio Canônico entrevista Tim Jackson, Folha de S. Paulo, 20 de junho de 2012

Como tem sido a recepção à sua proposta de “prosperidade sem crescimento” nesses tempos de crise?

É uma questão difícil para os governos, pois a estabilidade do sistema econômico atual depende de crescimento, de consumo contínuo. Mas o que a crise mostrou é que não é possível ter estabilidade desse modo. Estimular o crescimento indefinidamente gera mercados instáveis e situações muito ruins, como as da Grécia, da Espanha e de Portugal e a do meu próprio país, que adotou medidas de austeridade, punindo os mais pobres pela crise criada pelos ricos. Continue lendo

Planeta não é sustentável sem controle do consumo e população , diz relatório

O consumo excessivo em países ricos e o rápido crescimento populacional nos países mais pobres precisam ser controlados para que a humanidade possa viver de forma sustentável.

BBC Brasil / O Estado de S. Paulo, 26 de abril de 2012

A conclusão é de um estudo de dois anos de um grupo de especialistas coordenados pela Royal Society (associação britânica de cientistas). Entre as recomendações dos cientistas estão dar a todas as mulheres o acesso a planejamento familiar, deixar de usar o Produto Interno Bruto (PIB) como um indicativo de saúde econômica e reduzir o desperdício de comida. Continue lendo

População e consumo na Rio+20

José Eustáquio Diniz Alves, EcoDebate, 9 de novembro de 2011

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio/92) foi aberta oficialmente no dia 03 de junho de 1992. Naquela data a população mundial era de 5.478.595.455 habitantes. No dia 20 de junho de 2012, quando for aberta a Rio + 20 a população mundial deverá estar na casa de 7.052. 135.000 habitantes. Ou seja, em 20 anos a população mundial terá crescido em 1,6 bilhão de habitantes. Houve um aumento demográfico de 29% em duas décadas. Dá pra deixar as questões populacionais de fora da discussão do meio ambiente?

Em 1992, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB mundial – em poder de pardidade de compra (ppp) – foi de 27,9 trilhões de dólares. Isto representou uma renda per capita de 5 mil dólares no ano. Em 2012, o PIB mundial deve ficar em torno de 82,8 trilhões de dólares (ppp) com uma renda per capita mundial de 11,7 mil dólares. Houve um crescimento de 134% no poder de compra médio da população mundial em termos nominais. Deflacionando os números, o aumento foi de 98% em termos reais. Dá pra ignorar a dominação econômica sobre a natureza? Continue lendo

Foi um motim de consumidores excluídos

Foi um motim de consumidores excluídos’, diz sociólogo Zygmunt Bauman

LONDRES – Um dos mais influentes acadêmicos europeus, já descrito por alguns comentaristas mais entusiasmados como o mais importante sociólogo vivo da atualidade, o polonês Zygmunt Bauman viu nos distúrbios de Londres uma aplicação prática de suas teorias sobre o papel do consumismo na sociedade pós-moderna. Um assunto que o acadêmico, radicado em Londres desde 1968, quando deixou a Polônia após virar persona non grata para o regime comunista e por conta de uma onda de anti-semitismo no país, explorou bastante em conjunção com as discussões sobre desigualdade social e ansiedade de quem vive nas grandes cidades.

Aos 85 anos, autor de dezenas de livros, como “Amor líquido” e “O mal-estar da pós-modernidade”, Bauman não dá sinais de diminuir o ritmo. Há cinco anos, no lançamento de “Vida para Consumo”, uma de suas obras mais populares, fez uma turnê por vários países. Em entrevista ao GLOBO, por e-mail, ele afirma que as imagens de caos na capital britânica nada mais representaram que uma revolta motivada pelo desejo de consumir, não por qualquer preocupação maior com mudanças na ordem social. Continue lendo

Aumento do consumo de energia no mundo contrapõe capitalismo e meio ambiente

Os alemães querem acabar com a energia nuclear e buscar e energia renovável, mas continuam comprando SUVs. As emissões globais de carbono e o consumo de petróleo aumentaram drasticamente durante as duas últimas décadas ambientalmente conscientes – e as tendências continuarão enquanto os ocidentais continuarem a descobrir novas “necessidades”.

Harald Welzer, Der Spiegel / Uol, 18 de julho de 2011

Desde o anúncio da nova redução nuclear da Alemanha e de sua revolução energética vindoura, um fantasma vem assombrando o país. Ele se chama “eco-ditadura”. As pessoas que nos alertam contra seus perigos, ironicamente, não são conhecidas como defensoras passionais do processo democrático. Continue lendo

Consumo sustentável, contradição em termos

Dario Caldas, Folha de S. Paulo, 5 de junho de 2011

O consumo sustentável é um universo de atitudes e práticas em plena construção, que vai alterar definitivamente os estilos de vida das sociedades do século XXI. Como tudo o que está em formação, esse campo é atravessado, no presente, por uma série de contradições, a começar pela contradição em termos que a própria expressão encerra.

Na segunda metade do século XX, a ideia de consumir cada vez mais produtos que duravam cada vez menos pareceu-nos quase inevitável, “natural”. Do consumo, deslizamos para o consumismo, que se tornou uma espécie de constante na equação do estilo de vida ocidental. O longo período de prosperidade mundial do final dos anos 1990 até 2008 alimentou fenômenos como o boom internacional da indústria do luxo, o sistema “fast fashion”, que democratizou a moda, a invasão de objetos de “design para todos”, tudo sob o protagonismo do fator China, que transformou o mundo num enorme camelódromo. Continue lendo

O planeta é capaz de suportar mais dois EUA?

Chandran Nair, International Herald Tribune / Uol, 7 de junho de 2011

Tente imaginar um mundo com mais três Estados Unidos. Três potências econômicas gigantes, com cidadãos que compram, vendem e consomem, tudo na busca de suas versões do Sonho Americano. Difícil imaginar? Mas é nesta direção que os economistas dizem que estamos seguindo.

O amplo consenso é de que a China superará os Estados Unidos para se tornar a maior economia do mundo em duas décadas. E em 2050, a Índia será igualmente grande. Continue lendo

O mais ousado plano econômico da China

Projeto terá como base três iniciativas voltadas ao consumo.

Stephen S. Roach, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo, 2 de março de 2011

Na próxima semana, o Congresso Nacional do Povo da China aprovará seu 12.º Plano Quinquenal. Esse Plano provavelmente entrará na história como uma das iniciativas mais ousadas da China.

Basicamente, ele mudará o caráter do modelo econômico do país – saindo da estrutura com base em investimentos e exportações dos últimos 30 anos para um padrão de crescimento movido cada vez mais pelos consumidores chineses. Essa virada terá implicações profundas para a China, o restante da Ásia, e a economia global como um todo. Continue lendo

É um erro falar que existe nova classe média, diz sociólogo

É um erro falar que existe nova classe média, diz sociólogo

Uirá Machado entrevista Jessé Souza, Folha de S.Paulo, 13 de fevereiro de 2011

Autor do livro “Os Batalhadores Brasileiros”, o sociólogo Jessé Souza afirma que a ascensão social de 30 milhões de pessoas no governo Lula não produziu uma “nova classe média”, mas uma classe social diferente, que ele chama provocativamente de “batalhadores”. Continue lendo

Consumindo (nos)

Esther Vivas, 21 de dezembro de 2010. Trad.uzido para o português por Paulo Marques

Ano após ano se repete o mesmo ritual: chega o Natal e com ele os cânticos ao consumo e e compra sem limites. Nos dizem que necessitamos mais para ser mais felizes. Mas, isso é certo? Na realidade, e em um contexto de crise ecológica e climática global, de transbordamento dos limites do planeta, de desperdício coletivo…, deveríamos repensar nosso modelo de consumo e avançar no sentido de uma cultura de “ melhor com menos”, combatendo um consumo excessivo, antiecológico, supérfluo e injusto, promovido pelo mesmo sistema capitalista. Continue lendo

A História dos Eletrônicos

Anne Leonard apresentou mais um vídeo da série A História das Coisas. Reproduzido de Mercado Etico, 12 de novembro de 2010

Eletrônicos não foram feitos para durar. O consumo em massa de gadgets a cada semestre tem uma explicação econômica: é mais barato produzir aparelhos que quebrem com facilidade do que investir em tecnologia mais sustentável e duradoura. Quem mostra isso é Anne Leonard, no vídeo História dos Eletrônicos (disponível apenas em inglês). Esse último filme é uma continuação da série A História das Coisas e foi lançado no dia 9 de novembro. Continue lendo

Terra, o planeta consumido

Antonio Cianciullo, La Repubblica, 9 de novembro de 2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Reproduzido de IHU On-line.

Provocamos várias calamidades ao longo da nossa existência, mas sempre houve fenômenos limitados. Os mamutes foram extintos há 11 mil anos também por causa do homem. E esse é só um dos danos ao ecossistema. Com o caos climático produzido pelo uso dos combustíveis fósseis, tudo muda: a ameaça se torna global. Continue lendo

Planeta perdeu 30% de recursos naturais

Em menos de 40 anos, o mundo perdeu 30% de sua biodiversidade. Nos países tropicais, contudo, a queda foi muito maior: atingiu 60% da fauna e flora original. Os dados são do Relatório Planeta Vivo 2010, publicado a cada dois anos pela organização não governamental WWF.

O Estado de S. Paulo, 13 de outubro de 2010

O relatório, cujas conclusões são consideradas alarmantes pelos ambientalistas, é produzido em parceria com a Sociedade Zoológica de Londres (ZSL, na sigla em inglês) e Global Footprint Network (GFN).

“Os países pobres, frequentemente tropicais, estão perdendo biodiversidade a uma velocidade muito alta”, afirmou Jim Leape, diretor-geral da WWF Global. “Enquanto isso, o mundo desenvolvido vive em um falso paraíso, movido a consumo excessivo e altas emissões de carbono.” Continue lendo

Consumidor não tem informação para escolher produto sustentável

O designer e consultor Jeremy Faludi, professor na Universidade Stanford, em Palo Alto (EUA), está no Brasil para dar uma palestra sobre marca sustentável.

Afra Balazina e Andrea Vialli, O Estado de S. Paulo, 12 de setembro de 2010

Existem marcas realmente sustentáveis, hoje?

Apesar de nenhuma marca ter atingido o que eu chamo de sustentabilidade completa, muitas estão aprendendo a ser verdes, com variados graus de sucesso. Na parte de alimentação, a Stonyfield Farm (de comida orgânica) é líder há décadas. No mundo dos computadores, a Dell e a HP estão na liderança. Em softwares, temos a Autodesk. Em bens de consumo, Ikea, Walmart e Nike têm feito progressos. Nenhuma delas é perfeita, mas estão trabalhando duro para melhorar. Continue lendo

O mito do consumo responsável

Este mito diz-nos que podemos mudar o mundo pelo consumo, usando o nosso dinheiro para “votar” em produtos ecológicos. Obviamente, a realidade é muito diferente.

Ricardo Coelho, Esquerda.net, 25 de agosto de 2010

Um dos mitos propagandeado pelos diáconos do capitalismo e apropriado acriticamente por muitas ONGs é o do consumo responsável. Este mito diz-nos que podemos mudar o mundo pelo consumo, usando o nosso dinheiro para “votar” em produtos ecológicos. Assim se transfere a responsabilidade pela crise ecológica dos produtores para os consumidores e se cria a ilusão de que vivemos numa “democracia de mercado”. Obviamente, a realidade é muito diferente.

Dizer que consumindo produtos que vão de encontro a determinados padrões de ética ambiental podemos ter um impacto positivo no mundo em que vivemos é enfatizar uma evidência. Mas partir daqui para defender que a mudança social pode vir da acção descentralizada de consumidores individuais é não perceber nada sobre como funciona o sistema capitalista. Continue lendo

A nova ordem do progresso

As nações continuam a investir em modelos nos quais o progresso está mais associado ao consumo desenfreado que ao planejamento de um mundo em que a extinção da espécie humana não esteja no horizonte. Estaria nossa espécie condenada a jamais conquistar a concórdia? Elton Simões reflete sobre os dilemas envolvidos no embate entre a visão tradicional e as novas conceituações da palavra “progresso”.

Arnaldo Bloch entrevista Elton Simões, O Globo, 25 de julho de 2010

O homem sempre agiu baseado em duas premissas. De acordo com a primeira, nossas necessidades são infinitas e devem ser atendidas. De acordo com a segunda, os recursos para satisfazer essas necessidades são ilimitados. No plano coletivo, portanto, qualidade de vida é sinônimo de quantidade de consumo. Uma nação se desenvolve aumentando sua taxa de consumo e, consequentemente, consumindo mais recursos naturais. Logo, no plano individual, sucesso é medido pela abundância. Continue lendo