Crise europeia interrompe processo de globalização

Jovens_e_EspanhaPara Ignacio Ramonet, “o curso da globalização parece suspenso” e o momento é marcado por “desglobalização e decrescimento”. “Todas as sociedades do sul da Europa tornaram-se furiosamente anti alemãs, uma vez que a Alemanha, sem que ninguém lhe tenha outorgado esse direito, se erigiu em chefe. (…) A Europa é agora, para milhões de cidadãos, sinónimo de castigo e sofrimento: uma utopia negativa”.

Manuel Fernández-Cuesta entrevista Ignacio Ramonet, Eldiario.es, 26 de abril de 2013

Ignacio Ramonet (Redondela, 1943) é um dos pensadores mais lúcidos dos últimos tempos. Falamos com ele sobre a atualidade política, a crise e os emergentes movimentos sociais, a Europa e o porvir.

Assistimos a um renascimento dos movimentos de protesto cidadão?
Ignacio Ramonet – Desde que estourou a atual crise económico-financeira, em 2008, estamos a assistir a uma multiplicação dos movimentos de protesto cidadão. Em primeiro lugar, nos países mais afetados (Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha), os cidadãos – civicamente – apostaram em apoiar, com os seus votos, a oposição, pensando que esta traria uma mudança de política tendente a menos austeridade e menos ajuste. Mas quando todos estes países mudaram de Governo, passando da esquerda ou centro-esquerda à direita ou centro-direita, a estupefação foi completa, já que os novos Governos conservadores radicalizaram ainda mais as políticas restritivas e exigiram mais sacrifícios, mais sangue e mais lágrimas aos cidadãos. Aí é quando começam os protestos. Sobretudo porque os cidadãos têm diante dos seus olhos os exemplos de dois protestos com êxito: o do povo unido na Islândia e o dos contestadores que derrubaram as ditaduras na Tunísia e no Egito. Além disso, destaca o facto de que as redes sociais estão a facilitar formas da organização espontânea das massas sem necessidade de líder, de organização política, nem de programa. Tudo está preparado então para que surjam, em maio de 2011, os indignados espanhóis, e que o seu exemplo se imite de um modo ou outro em toda a Europa do sul. Continue lendo

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A situação atual na Grécia vista por dentro

greece-protestYiannis Bournous, Esquerda.net, 13 de fevereiro de 2013

Depois da escassa vitória da Nova Democracia, a 17 de Junho, e da formação pela Nova Democracia, o PASOK e pela Esquerda Democrática, do chamado governo de “troika interna”, e apesar das promessas pré-eleitorais de uma “renegociação” do Memorando e do acordo de empréstimo para a Grécia, na realidade as políticas ultra-austeritárias continuam e foram na verdade reforçadas.

A 7 de Novembro, a coligação tripartida do governo conseguiu aprovar no Parlamento o terceiro Memorando por uma escassa maioria de 153 votos (a maioria absoluta é de 151/300) e apesar da forte mobilização popular. Continue lendo

An Ascending Trajectory?: Ten of the Most Important Social Conflicts in the US in 2012

occupy togetherDan La Botz, Europe Solidaire Sans Frontiere / New Politics, January 3, 2012

The most important American social conflict of 2012—the Chicago Teachers Union strike—suggests that the rising trajectory of social struggle in the United States that began at the beginning of 2011 may be continuing to ascend. While the United States has a much lower level of class struggle and social struggle than virtually any other industrial nation—few American workers are unionized (only 11.8%) and unionized workers engage in few strikes and those involve a very small numbers of workers—still, the economic crisis and the demand for austerity by both major political parties, Republican and Democrat, has led to increased economic and political activity and resistance by labor unions, particularly in the public sector.[1] Continue lendo

Robôs e magnatas ladrões

BankersEmbora a economia ndos EUA esteja em depressão, os lucros das corporações batem recordes. Os lucros sobem cada vez mais às custas dos trabalhadores. Há duas explicações plausíveis para isso, sendo ambas verdadeiras até certo ponto. Uma diz que a tecnologia colocou os trabalhadores em desvantagem; a segunda que estamos sofrendo os efeitos de uma monopolização e da ação dos “robber barons” (“magnatas ladrões”, termo usado para caracterizar os capitalistas do século XIX”).

Paul Krugman, Carta Maior, 12 de dezembro de 2012

A economia norte-americana está, segundo a maioria dos indicadores, em profunda depressão. Mas os lucros das corporações estão batendo recordes. Como isso é possível? Simples: os lucros sobem enquanto salários e compensações por trabalho caem. O bolo não está crescendo da maneira que deveria, mas o capital vai muito bem obrigado por apanhar um pedaço enorme dele. Às custas dos trabalhadores. Continue lendo

O mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado

After FailureA inútil Cúpula da Terra de junho, as medidas débeis agora em discussão em Doha, o projeto de lei sobre energia e o estudo sobre redução da demanda de eletricidade lançado na Grã-Bretanha na semana passada expõem o mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado: sua incapacidade para resolver a crise existencial da espécie. O legado de 1000 anos das atuais emissões de carbono é amplo o suficiente transformar em lascas qualquer coisa parecida com a civilização humana.

George Monbiot, The Guardian,  7 de dezembro de 2012

A maior crise da humanidade coincide com a ascensão de uma ideologia que a torna impossível resolver. Ao final dos anos 1980, quando se tornou claro que as mudanças climáticas provocadas pelo homem colocavam em perigo a vida no planeta e a humanidade, o mundo estava sob o domínio de uma doutrina política extrema, cujos princípios proibiam o tipo de intervenção necessária para enfrentá-las. Continue lendo

“Haja Governo de Esquerda e nós estaremos lá”

João Semedo e Catarina Martins deram a primeira entrevista conjunta após a Convenção do Bloco. Para além da apresentação do modelo de coordenação paritária, falaram do sucesso da Greve Geral, da exigência da demissão do Governo e da proposta de um Governo de Esquerda que rompa com o memorando da troika.

Esquerda.net, 16 de novembro de 2012

Na entrevista ao programa “De Caras”, transmitido na quinta-feira na RTP, o jornalista Vítor Gonçalves questionou ambos os dirigentes bloquistas sobre o novo modelo de coordenação e as principais decisões saídas da VIII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda. Continue lendo

Manifestações de 15 de Setembro

Catarina Martins: “Este é um momento único de indignação e de combate”

Marisa Matias de Bruxelas: Que se Lixe a Troika! Queremos as nossas Vidas!

14 novembro: A primeira greve internacional do século XXI

Se qualquer convocatória de greve geral merece uma atenção especial pela sua transcendência e impacto político, a que se realiza este dia 14 de Novembro, ainda mais: trata-se da primeira greve internacional do século XXI.

Nacho Álvarez, Público.es / Esquerda.net, 14 de novembro de 2012

A Europa vive nesta quarta-feira uma Jornada Europeia de Ação e Solidariedade pelo emprego e contra as medidas de austeridade, que inclui protestos e manifestações em vários países assim como uma convocatória de greve geral em Espanha, Portugal, Itália e Grécia. Além disso, à convocatória uniram-se diversos coletivos e movimentos sociais, contribuindo com isso para que a greve transcenda o âmbito estritamente laboral. Continue lendo

Hemos perdido el miedo como ciudadanos, pero como trabajadores predomina la resignación

Entrevista a Esther Vivas y Josep Maria Antentas, expertos en movimientos sociales, autores del libro Planeta Indignado. Ocupando el futuro

Brais Benitez, MasPublico, 11 de noviembre de 2012

El 2011 quedará en la memoria como el año de las revueltas. Las protestas de la primavera árabe prendieron la chispa del 15-M. La ola de movilizaciones fue de Madrid a Barcelona, y de Atenas a Nueva York bajo un sentimiento común: la indignación. Pero, ¿en qué medida podemos relacionar las revueltas árabes con los movimientos indignados? ¿Responden a causas comunes? ¿Estas nuevas formas de movilización han sustituido ya a las protestas sindicales tradicionales? ¿Hasta dónde llega la crisis de la democracia?

Estas y otras cuestiones son las que han abordado Esther Vivas y Josep Maria Antentas, expertos en movimientos sociales, en su libro ‘Planeta Indignado. Ocupando el futuro’. Publicado a principios de este año, el ensayo va ya por la segunda edición. En un encuentro con MásPúblico, los autores repasan los temas más destacados del libro, y exponen sus razones por las cuales la sociedad debe avanzar hacia un cambio de sistema. Continue lendo

The new European treaty – the fiscal pact – explained in a few minutes

AttacTVFrance, Octobre 26, 2012

The treaty is called TSCG (treaty on stability, coordination and governance) and not SGP (stability and growth pact) as said in the subtitles.

A short and educational video on the new European treaty, and its consequences. Austerity doesn’t work ! http://www.audit-citoyen.org/

Não devemos, não pagamos

Esther Vivas,  1 de outubro de 2012

“A dívida: paga-se ou paga-se”. Ela foi gravada em nós a ferro e fogo; é como uma dessas máximas que, ao ser repetida inúmeras vezes, se converte em verdade absoluta. Porém, isso é correto? E se a dívida hipoteca nosso futuro? E se a dívida não foi contraída por nós? Então, por que pagá-la?

Anteontem o Ministro da Fazenda, Cristóbal Montoro, apresentava o projeto de Lei dos Orçamentos Gerais do Estado. Tudo, ou praticamente tudo, calculado por baixo. A saúde encabeça a lista, com uns 22,6% de recortes; a educação perde 17,4%. Querem que fiquemos doentes e analfabetos. Também diminui o seguro desemprego, os fundos destinados às políticas de igualdade, as subvenções à cultura, à cooperação ao desenvolvimento… E, o que sobe? Somente os juros da dívida! Continue lendo

Desemprego na Europa bate novo recorde: 25 milhões

O desemprego na zona do euro quebrou um novo recorde histórico no mês de agosto. Dados revelados ontem pelo Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat), de Bruxelas, indicam que 25 milhões de pessoas – ou 11,4% da população ativa – estão desempregadas na União Europeia. No agregado dos últimos 12 meses, o desemprego cresceu 1,2%. Para a União Europeia, os números apontam para um provável “desastre econômico e social”.

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo, 2 de setembro de 2012

Os números revelados ontem comprovam o que institutos nacionais de estatísticas já vinham anunciando. De norte a sul, o desemprego vem aumentando mês após mês e pelo 16.º período consecutivo superou a barreira dos 10%. São 2,14 milhões a mais de trabalhadores sem postos na zona do euro em apenas um ano. Continue lendo

A foto, o remix e a lógica do Facebook

A propósito dos protestos da Europa no Facebook

José Correa Leite, 1 de outubro de 2012

Uma foto emblemática das manifestações anti-austeridade de Madrid circula imediatamente pelo mundo todo. Um garçom de um restaurante aonde se refugiaram alguns manifestantes protege-os, junto com os fregueses de seu estabelecimento. Um garçom conservador, que vota no Partido Popular, mas que, como disse depois em uma entrevista, queria evitar uma tragédia, pois havia crianças e velhos comendo no restaurante. Eis uma destas muitas foto que circularam nas redes sociais:

Mas na sequencia também começa a circular um remix, bastante criativo e crítico:

Agora, o massacre da população espanhola pelas tropas francesas, retratado por Goya, é evocado. Talvez isso não faça muito sentido para os brasileiros, mas é uma imagem bastante conhecida pelos europeus cultos. A ironia do remix propicia um uso político nas redes sociais da imagem consagrada, acentuando a crítica dentro da lógica do espetáculo.

Mas essa ironia fina passa batida ou é banalizada na sequencia infinita de postes de festas, gatinhos, doces e clipes de músicas que vão se substituindo no Facebook, iluminando a efemeridade de tudo aquilo que se processa ai.

Também aqui um Benjamin contemporâneo lembraria que o anjo da história precisaria deter-se, mas é levado sempre adiante…

Madrid: Milhares de manifestantes mobilizaram-se para “resgatar a democracia”

 

A iniciativa “Cercar o Congresso” mobilizou milhares de pessoas que se insurgiram contra as medidas de  austeridade e exigiram a demissão do governo de Rajoy e a abertura de um novo processo constituinte “transparente e democrático”.

Esquerda.net, 26 de setembro de 2012

Os manifestantes concentraram-se, na sua maioria, na Praça Neptuno, nos arredores do Congresso dos Deputados, durante o plenário que teve lugar esta terça feira. Para o local foi mobilizado um aparatoso contingente policial, composto por 1300 agentes da polícia de choque, oriundos de 30 dos 52 grupos operacionais das Unidades de Intervenção Policial de toda a Espanha. O local foi ainda patrulhado por polícias a cavalo e por polícias acompanhados de cães.

Alguns elementos terão tentado transpor as barreiras policiais e terão arremessado alguns objetos aos elementos da polícia de choque, ao que estes responderam com inúmeras investidas indiscriminadas contra os manifestantes, e com o recurso a balas de borracha e a gás lacrimogéneo. Ainda assim, a polícia de choque não conseguiu dispersar todas as pessoas que se concentraram no local. Continue lendo

Ninety-Nine Weeks: A Fairy Tale

Ursula K. Le Guin, November 21, 2011

Enviado pelo Max Fuhlendorf. Obrigado, Max …

Once upon a time there was a poor woodcutter who lived with his wife and their daughter and son in a cottage at the edge of a forest. He loved his trade, and worked hard at it. But most of the land belonged to rich ogres, who kept the forests for their own use. Firewood was so expensive that ordinary people had begun to heat their houses with coal. The woodcutter went from door to door offering timber or firewood, but again and again he was turned away. His wife was lame and could not walk far, though she worked hard and well, keeping the kitchen garden and the house. The daughter and son went to the village school. Young Janet looked after the mayor’s wife’s babies every afternoon when school was out, and young Bob earned a penny here and there doing odd jobs. That bit of money the children could bring home was all the family had now, and every penny had to go for rent to their ogre landlord. They had no new clothes or shoes, and ate only from their garden. Their life had grown hard, and winter was coming on. Continue lendo

Portugal: um milhão exige demissão do governo

Maior manifestação desde o 1º de maio de 1974 exigiu a demissão de Passos Coelho, a saída da troika de Portugal e o fim da austeridade, que “deu maus resultados em todo o lado no mundo”. Organizadores propõem uma greve geral popular que pare efetivamente o país e convocam uma nova manifestação para a frente do palácio de Belém na 6ª feira às 18h, dia do Conselho de Estado.

Esquerda.net, 15 de setembro de 2012

O repórter do Esquerda.net esteve há 38 anos na manifestação do 1º de maio em Lisboa, em 1974, e apenas essa – que terá reunido um milhão de pessoas – foi maior que aquela que este sábado decorreu entre a Praça José Fontana e a Praça de Espanha. Mesmo a manifestação da “Geração à Rasca”, a 12 de março do ano passado, que reuniu cerca de 200 mil pessoas, foi superada largamente pela que desfilou sob o lema “Que se lixe a troika, queremos as nossas vidas”. Assim, o número de um milhão de pessoas em todo o país, apesar de não confirmado, não parece exagerado. Além disso, a jornada deste sábado realizou-se também em outras 33 cidades do país e pelo menos seis no estrangeiro, quando se reuniram mais muitos milhares – só no Porto ter-se-ão manifestado 150 mil pessoas. Continue lendo

Outono quente

Estamos a assistir à grande batalha do Mercado contra o Estado. Chegámos a um ponto em que o Mercado, na sua ambição totalitária, quer controlar tudo: a economia, a política, a cultura, a sociedade, os indivíduos…

Ignacio Ramonet, Esquerda.net, 15 de setembro de 2012

Como se as férias de verão fossem um manto de esquecimento que dissipasse a brutalidade da crise, os meios de comunicação tentaram distrair-nos com doses massivas de embrutecimento coletivo: Europeu de futebol, Jogos Olímpicos, aventuras estivais de ‘famosos’, etc. Tentaram fazer-nos esquecer que uma nova ronda de cortes se avizinha e que o segundo resgate de Espanha será socialmente mais lamentável… Mas não o conseguiram. Entre outras razões, porque as audazes ações de Juan Manuel Sánchez Gordillo e do Sindicato Andaluz de Trabalhadores (SAT) romperam o esquecimento e mantiveram o alerta social. O outono será quente. Continue lendo

Castells: como as elites estão rompendo o pacto social

Com argumentos inconsistentes e sem visão de futuro, o Ocidente constroi um Estado de Mal-estar. Para enfrentá-lo, novas alianças serão indispensáveis.

Manuel Castells, Outras Palavras, 4 de setembro de 2012

O que estamos a viver em todo o mundo, no contexto da crise financeira, é uma transição – do Estado de Bem-estar social para um Estado de Mal-estar. Na convenção do Partido Republicano, nos Estados Unidos, realizada em Tampa, na semana passada, aclamou-se um programa baseado na proposta de Orçamento apresentada por Paul Ryan, o líder mais carismático da direita. Implica cortar serviços públicos; reduzir maciçamente os impostos pagos pelos endinheirados e grandes empresas; manter os que são exigidos aos setores médios e baixos. Alega-se que, assim, será possível reduzir o défice orçamental (principalmente através dos cortes de despesas) e estimular o investimento (porque os ricos supostamente investiriam com o dinheiro disponível, o que contraria a evidência empírica dos últimos vinte anos…). Continue lendo

Economia chinesa na encruzilhada e Bolsa de Xangai em queda livre

A desaceleração económica da China aprofunda-se à medida que a crise europeia não dá sinais de recuperação e que a economia dos Estados Unidos se mantém estagnada.

Marco Antonio Moreno, Esquerda.net / El Blog Salmon, 6 de setembro de 2012

Durante os últimos meses a economia chinesa desafiou as expectativas e desacelerou de forma muito mais dramática, fazendo temer que a aterragem não seja tão suave como se previa. O curso seguido pelo índice bolsista de Xangai (Shanghai Composite Index) demonstra que é uma tendência inegável e que a China não escapa à pandemia que os países do ocidente vivem. Numa breve síntese: a economia da China começa a mostrar a sua debilidade para conter a crise que se vive no ocidente e desacelera mais rapidamente do que foi previsto. Continue lendo