A pane no metrô: dos rolêzinhos à irresponsabilidade política

metro spJoão Sette Whitaker, Cidades para que(m)?, 6 de fevereiro de 2014

Seria muito, mas muito bom que o governador provasse, o quanto antes, as graves acusações que fez sobre a interrupção do dia 5 no metrô de São Paulo e toda a confusão que se seguiu (milhares de usuários andando pelos trilhos, gente passando mal, brigas, que mais uma vez não resultou em mortes por pura sorte): a de que ela foi provocada pela ação de “vândalos”. Caso não consiga, estaremos face a um perigoso cenário em que não há limites para criar versões que isentem o governo de suas responsabilidades.

Vale qualquer coisa para fugir dos fatos. Aponta-se como causa dos problemas os “distúrbios sociais”, o “vandalismo”, de responsabilidade difusa (a “situação do país”, o prefeito, o Governo Federal?), desviando-se o foco das suas causas reais, absolutamente mensuráveis e de responsabilidade bem precisa: o Governo do Estado.

A situação é a seguinte: temos um sistema de metrô saturado, um dos mais congestionados do mundo. Usando as palavras do governador, isso não é “geração espontânea”. É o resultado de cerca de vinte anos durantes os quais uma mesma gestão literalmente desprezou esse modal de transporte, construindo linhas à velocidade de tartaruga de 1,5 km ao ano. Para se ter uma ideia, a cidade do México, que começou seu metrô também na mesma época que o de São Paulo, tem hoje cerca de quatro vezes mais km de linhas do que o nosso.

Nos últimos anos, face ao visível colapso do modelo de transporte por automóvel e à evidência de que com tal atraso o metrô também iria colapsar, retomou-se um ritmo de construção mais intenso (mas ainda lento). Mas, tarde demais. O mal estava feito, e além do mais o modelo de terceirização adotado na construção de novas linhas vem se mostrando desastroso quanto aos acidentes na construção, à qualidade das estações, e a operação do sistema.

Pior, hoje sabe-se que todos esses contratos foram objeto de indecente corrupção, cujos valores, na casa de meio bilhão de Reais, são no mínimo cinco vezes maiores do que o tão falado mensalão. Se o metrô está do jeito que está, certamente é também porque lhe faltaram 500 milhões de Reais em investimentos, devidamente desviados em propinas diversas.

Para completar, esta semana o Ministério Público mandou cancelar os contratos de manutenção e reforma do metrô (leia aqui e aqui), por formação de cartel pelas mesmas empresas implicadas no propinoduto acima mencionado, com suspeitas de superfaturamento de mais de….800 milhões de Reais!

Diante de tal descalabro, problemas mais do que previsíveis acontecem cada vez mais frequentemente, sem que a grande mídia faça a relação, tão simples, com a falta gritante de investimentos durante décadas e o desvio escandaloso de somas tão faraônicas. O problema é que a cada vez estamos chegando mais perto de uma verdadeira tragédia, como aliás já escrevi há tempos neste blog .

Não há por onde escapar: o sindicato dos metroviários vem alertando sobre a degradação do sistema, incapaz de dar conta da demanda pois amplamente insuficiente (clique aqui). Segundo seu presidente, o trem que causou a pane desta semana já havia descarrilhado em agosto e aberto suas portas para a linha vazia em outubro. Foram 696 falhas só em uma das frotas do metrô, em apenas um mês, entre outubro de novembro de 2013.

Face a tais evidências, para botar a culpa dos problemas no “vandalismo”, é necessário que se prove, e rápido. Senão, o descrédito será ainda maior. Aliás, não é a primeira vez que se usa essa desculpa, sem que posteriormente as “sabotagens” fossem comprovadas.

Nesse contexto de manipulação da opinião pública, os famosos “rolêzinhos” vêm a calhar. Na ponta do lápis, se formos olhar bem, os tais rolés não provocaram nenhum incidente maior. O que houve, de fato, foi um enorme exagero da grande mídia, tentando criar um clima geral de insegurança face a essa incompreendida manifestação da juventude.

Primeiro, é preciso notar que após o primeiro caso, uma reação de jovens da periferia contra a interdição dos bailes pancadões, ocorrida em shoppings na própria periferia, houve uma proliferação de rolés de toda ordem, e em todos os cantos da cidade: de alunos brancos e ricos da FEA-USP, de evangélicos, do movimento negro, de jovens de classe alta em solidariedade aos jovens da periferia, e assim por diante. Incidentes aconteceram na medida em que os donos dos shoppings decidiram usar a força, de forma abertamente discriminatória, para conter aqueles que incomodavam: pobres e negros além do “aceitável” na cabeça apartheidiana daqueles senhores brancos e ricos.

A “violência” dos rolêzinhos foi muito mais a violência de quem os combateu, do nada, e sem justificativa real. A “violência” dos rolezinhos foi muito mais a violência das senhoras que, por exemplo, em vez de ouvir uma vez na vida as sábias palavras do jovem negro que lia um manifesto contra o racismo no Pátio Higienópolis, preferiram sair berrando que eram todos “vândalos e vagabundos” (leia aqui). No mais, a violência dos rolêzinhos foi muito mais um susto dos “consumidores de bem” que tiveram sua tranquilidade e segurança nos sagrados templos do consumo afetada por uma movimentação fora do normal. É claro, esse incômodo foi muito mais tolerado quando causado por jovens brancos da USP no Eldorado do que quando provocado por manos menos brancos da periferia.

A sociedade conservadora cria seus fantasmas e a mídia cria a partir disso um fenômeno de pânico geral. Os rolêzinhos viraram foco da imprensa muito mais do que incidentes e acidentes no metrô, que já mataram, infelizmente, bem mais gente.

Mas é aí que as coisas se juntam. Pois de repente, a sensação de “insegurança” face ao vandalismo, que agrega a incompreensão das gerações mais velhas a todos os eventos públicos e cívicos que se proliferam entre os jovens (das manifestações de junho às ocupações de praças para celebrar o amor ou praticar o skate, dos protestos por mais estações de metrô aos rolêzinhos), passa a ter enorme utilidade para esconder os problemas reais.

Já que estamos todos vivendo um “clima geral de insegurança” por causa desses vândalos de toda ordem, nada mais simples do que fazer a opinião pública mais ingênua acreditar que dali nascem todos os problemas, inclusive do metrô. O recado foi dado. Resta saber se a opinião pública, especialmente a que usa o metrô e se confronta diariamente a problemas cada vez mais graves, é tão ingênua quanto se pensa.

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