Profanando os templos do consumo e da desigualdade

rolezinho 2Com seus rolezinhos, jovens da periferia de São Paulo profanam os shopping centers, os templos do consumo, desacralizando o que de mais valioso eles oferecem para as camadas conservadoras da sociedade, a sensação de segurança e a segregação das “classes perigosas”. Eles visibilizam a profunda desigualdade social e racial do Brasil e estão contribuindo para tematizar a privatização do espaço urbano.

José Correa, Outra política, 16 de janeiro de 2014

Valquiria Padilha, em seu estudo sobre os shopping centers no Brasil, chama-os de “templos da mercadoria”. E, de fato, sua proliferação pelo mundo acompanha a expansão da sociedade de consumo de massa e a difusão do american way of life, de sua religião, o culto ao mercado, e de seu ideal de felicidade, o consumo. Desde que o Shopping Center Iguatemi foi inaugurado em 1966 em São Paulo, o número de shoppings no Brasil atingiu 577 em 2004, passando para 766 em 2010 (sendo 153 no estado de São Paulo) e prevendo-se que eles cheguem a 985 em 2016.

Segurança e segregação em questão. Em uma das sociedades mais desiguais do mundo, que aboliu formalmente a escravidão há pouco mais de um século, os “templos do consumo” teriam que institucionalizar fortemente a segregação e preconceito. Os shoppings prometem aqui, aos seus freqüentadores, segurança e segregação social – dois “serviços” que, aos olhos da burguesia e das classes médias conservadoras, estão diretamente ligados. Eles se tornaram um componente central na segregação territorial e social das cidades brasileiras, recebendo todo tipo de isenção e apoio dos governos.

Nem todos os shoppings centers são iguais. Esses “serviços” são ainda mais valorizado naqueles voltados para serviços de luxo para a burguesia, as catedrais do consumo, com suas joalherias e grifes exclusivas: em São Paulo, shoppings como o Iguatemi, o Cidade Jardim, o JK Iguatemi e o Pátio Higienópolis. Na frente desse último, em junho de 2011, em um sábado à tarde, um “churrasco de gente diferenciada”, chamado pelo Facebook para ironizar o moradores da região que não queriam uma estação de metro no bairro – mas os 600 manifestantes eram, em sua maioria, estudantes de classe média. Já os shoppings de periferia são freqüentados por muitos dos jovens que participaram dos rolezinhos de dezembro, mas quando estão “bem comportados”, acompanhados pelos pais e diluídos entre uma maioria de clientes branca e de classe média, eles até são assimiláveis. É quando estão em grupos, cantando e dançando, que se tornam hordas dos “novos vândalos” (como bem intitulou Eliane Brum seu excelente artigo sobre os roles). Aliás, também nos EUA, os flash mobs de jovens negros pobres são duramente reprimidos pela polícia (em agosto de 2011 um encontro do tipo em Kansas City terminou com três jovens baleados).

Mas nos shoppings “populares” da periferia de São Paulo – como é o caso do Itaquera, do Internacional de Guarulhos, do Campo Limpo, do Metro Tucuruvi e do Metro Itaquera, onde eclodiram os rolezinhos em dezembro – um agito no estilo funk também assusta lojistas e clientes. Uma liminar reconheceu a existência de conflitos de direitos, mas colocou o direito de propriedade acima do direito de ir e vir dos jovens, criando uma aberração jurídica, o “direito à segregação” – como bem caracterizou Pedro Abramovay a multa de R$ 10 mil para os rapazes que participassem desses encontros.

As autoridades e os proprietários dos shoppings de São Paulo estão, agora escolados pelas manifestações de junho, afinando a linha para enfrentar o questionamento: os rolezinhos são “manifestações culturais legitimas” e só serão reprimidos em caso de violência ou roubos, mas “devem ser transferidas para as ruas e praças”. Mas, neste dia 16, o MTST promoveu um rolezão na frente dos Shoppings Jardim Sul e Campo Limpo, cujas entradas foram bloqueadas por seguranças. Para o próximo dia 18 de janeiro foram chamados rolezinhos para o exclusivo Shopping JK Iguatemi, atualmente o mais luxuoso da capital paulista (com o apoio de entidades do movimento negro), e para o menos periférico Metro Tatuapé – além do Center Norte. É evidente que os roles já estão colocando muita coisa em jogo, provocando muito mais preocupação do que as manifestações de rua.

Contradições da “inclusão” pelo consumo. Confluem nos rolezinhos dois elementos contraditórios, a inclusão na base da sociedade de consumo de massas de alguns setores da classe trabalhadora brasileira antes dela marginalizados (a chamada “classe C”), de um lado, e a insatisfação com a realidade social e política brasileira, que se manifestou abertamente nas mobilizações de junho, de outro.

A entrada no mundo do consumo, mesmo que de forma muito limitada, de dezenas de milhões de brasileiros, dá mais aderência ao consumismo como ideal de felicidade, manifestando-se culturalmente, por exemplo, no funk da ostentação. “Queremos consumir e consumir luxo!”. Isso faz sentido na lógica do capitalismo: na ideologia do consumismo, a pessoa é o que ela consome, as mercadorias icônicas são sintetizadas em marcas requintadas, que tem não apenas um valor ostentatório, mas são a manifestação da escolha de um estilo de vida, de uma forma de expressar um self organizado a partir de uma escala de valores adquirida da mídia que dá algum sentido à sua existência. Isso vale para um adulto, mas repercute ainda mais em adolescentes de quinze ou dezoito anos que estudam e trabalham na periferia de São Paulo, mas querem poder zoar com seus colegas no final de semana.

Porém aquilo que a mídia difunde como maiores objetos de desejo não é acessível para aqueles que entram agora no mundo do trabalho formal. Uma renda média familiar de três ou quatro salários mínimos não permite muito consumo e menos ainda consumo de luxo. E continua não permitindo também acesso a muitos direitos sociais reais. Daí a demanda difusa, nas mobilizações de junho, por direitos efetivos, a começar pelo que viabiliza o direito à cidade, o direito ao transporte público. Serviços públicos de qualidade, no “padrão Fifa”, deveriam estar ao alcance de todos.

Isso ocorre em uma sociedade profundamente desigual, em que cinco mil famílias ampliadas constituem a classe dominante e detém, segundo Marcio Pochmann, 40% do patrimônio no pais – a elas estão ligados quase todos os 165 mil milionários brasileiros. Claudio Diniz, autor de O mercado de luxo no Brasil, nos recorda que a capital paulista concentra 70% do mercado de luxo do país: um próspero comércio não só de mansões e apartamentos, mas também de jatos executivos, helicópteros, iates, carros e blindagens, obras de arte, jóias, cosméticos, roupas e acessórios e bebidas, além de serviços de segurança, gastronomia, hotelaria e turismo. Muito do cotidiano disso é vivido em alguns poucos shoppings de São Paulo.

Dessa forma, a demanda de simplesmente poder freqüentar coletivamente os templos do consumo, a ter o direito ao espaço público da cidade que foi privatizado, torna-se profundamente ameaçadora. Os jovens pobres e negros e seus fãs de Facebook quererem se encontrar e zoar nos mesmos shoppings que freqüentam como consumidores atomizados, significa romper a atomização, significa manifestarem-se como “classe perigosa”. Se puderem então fazer isso no Cidade Jardim e no JK Iguatemi é, em nossas sociedades de “consumidores do século XXI e cidadãos do século XVIII” (Canclini), uma tomada da Bastilha simbólica.

O shopping como destruição do espaço urbano. A multiplicação de shoppings pelo Brasil é, ao lado do seqüestro do espaço urbano pelo automóvel, a expressão mais aguda da degradação das condições de vida nas grandes cidades. A idéia de espaço público, de locais que possam ser freqüentados por todos os moradores da cidade, é destruída pela especulação imobiliária com a cumplicidade ativa dos governos, que sucateiam e desvalorizam praças e avenidas. A vida e a cidade são reduzidas a espaços de acumulação, trabalho e consumo. E se o lazer é igualado ao consumo, que melhor lugar para se estar do que em shoppings, deixando do lado de fora os maltrapilhos, os pobres, toda sorte de indesejados que não alcançam consumir, e a violência que eles carregariam. O shopping tornou-se, nesse sentido, um espaço muito mais vital do que as ruas e praças.

Os shoppings são a expressão da higienização social da cidade e da transferência das funções urbanas para o capital. O shopping deveria ser um espaço como a rua ou a praça, mas é privado; têm dono, câmaras de televisão e segurança privada para garantir que cumpra sua função de segregação e gere lucro para seus proprietários – contumazes corruptores do funcionalismo municipal para reduzirem taxas e desrespeitar a legislação urbanística. Os shoppings são a destruição do comércio de rua, da feira, do bairro e de seus pontos de encontro em locais públicos; é o fim da própria idéia de espaço cívico comum a todos, que deveria marcar a paisagem urbana e propiciar o convívio de diferentes.

Ao shopping se vai de carro, gastando-se horas para se deslocar, mas evitando todo contato com a alteridade que é própria da vida urbana. As classes afluentes vivem e trabalham em uma cidade de muros e seguranças, em bolhas, e se deslocam entre elas em bolhas móveis, onde passam o tempo paradas em congestionamentos, falando em celulares, com vidros fechados e ar-condicionado ligado. Os shopping são pólos geradores de tráfego, produzindo um enorme impacto na estrutura de serviços urbanos, cujos custos vão ser socializados entre todos os moradores da cidade, a começar pelos mais pobres.

O shopping é a cidade do toque de recolher, negando toda possibilidade de boemia à juventude pobre, que não tem onde possa se encontrar depois das 23 horas. Para os incluídos no consumo existem os espaços fechados de bares, baladas e boates – caros e rentáveis, que podem arcar com o isolamento acústico exigido por lei.

O shopping é o fanatismo da religião do mercado impondo seus ritos para a população transformada em consumidora e deixando de fora de suas catedrais góticas a massa de servos. É um espaço que não aceita nenhuma heresia, nada que possa ser gratuito ou ameaçar os lucros. É esse espaço que é agora profanado pelos rolezinhos de adolescentes zoando por seus corredores e assustando fregueses “de bem”. O questionamento sistemático da sacralidade do shopping deve rapidamente se desdobrar em uma polêmica jurídica visando assegurar direitos reais para a maioria, mas também deve levar a uma discussão de conjunto tanto da desigualdade social e racial como da organização excludente da cidade. Estas são, no Brasil, tarefas seculares de uma política profana.

2 Respostas

  1. […] conservadoras da sociedade, a sensação de segurança e a segregação das “classes perigosas” Profanando os templos do consumo e da desigualdade. José […]

  2. […] conservadoras da sociedade, a sensação de segurança e a segregação das “classes perigosas” Profanando os templos do consumo e da desigualdade,. José […]

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