Rolezinhos: limpando o campo para pensar o papel de esquerda organizada

Edemilson Paraná, Imaginar para revolucionar, 15 de janeiro de 2014

Diagnóstico

Não, não são “protestos” por justiça-social (por mais que gostaríamos que fossem). São flashmobs, encontros de jovens onde a vida no Brasil, por várias razões, passou a dizer que jovens devem se encontrar: nos shoppings. É sobre curtir, azarar, cantar, viver (porque no capitalismo viver é, antes de tudo, consumir). O Funk Ostentação, trilha sonora dos eventos, não tem no seu conteúdo (ainda que ironicamente o tenha na sua forma, sobretudo por conta do “choque estético” que produz em certos setores) nada de flagrantemente contra-hegemônico do ponto de vista político – assim como hip-hop bling-bling nunca teve.

Apesar de não ser deliberadamente contestador em seu aspecto político, guarda uma contradição gritante: desejando acesso à sociedade do consumo, sem querer, esses jovens a denunciam de forma didática, abrindo um debate importante. A pane na fronteira entre querer/poder consumir em uma sociedade de consumo que os vê como subclasse de consumidores é em parte responsável pelo curto-circuito nas elites ao lidar com o fenômeno. Racismo e classismo se encontram na contraditória negação da “igualdade pelo consumo”, a utopia capitalista fundamental. Quer dizer, “pode consumir, mas só da forma que eu permitir, e onde eu permitir”.

Não é por acaso que os shoppings são espaço de encontro dos rolezinhos. A centralidade do consumo na nossa sociedade repercute nas nossas cidades com a desvalorização dos espaços públicos como locais de encontro e criação. A cada ano mais shoppings são levantados em áreas urbanas. Símbolo máximo (junto aos condomínios) da cidade segregada, formam ilhas de segurança em relação ao seu exterior. Além disso, como urbanistas já alertaram, são responsáveis por aumento no tráfego de veículos e pela falência dos pequenos comerciantes ao seu redor. A falta de direito à cultura, acesso à espaços públicos e equipamentos de lazer para vivências coletivas joga, portanto, um papel importante, mas sozinho não é capaz de explicar o fenômeno. Padecendo da mesma falta, as “tribos” da classe-média (emos, góticos, etc) já ocupam shoppings e suas entradas há um bom tempo. Parece bastante óbvio que, nessa sociedade, jovens prefiram se encontrar onde há lojas, lan-houses, cinemas e praça de alimentação.

As forças da ordem têm instrumentos de sobra para tentar enquadrar e domesticar, ao menos temporariamente, esse fenômeno. Se a burguesia e as elites empresariais e governamentais pensarem racionalmente (e não por meio de seus violentos atavismos coloniais e racistas mais primários) perceberão o quanto a tarefa é simples: antevejo propagandas, quadros do Fantástico e programas como os de Regina Casé, na Globo, louvando a “espontaneidade” e as “excentricidades” do fenômeno. Antevejo shoppings fazendo “promoções do rolezim”, promovendo grandes eventos, e até desfile de moda no São Paulo Fashion Week com as tendências do Funk Ostentação. Foi o que tentaram em Junho, e voltar a aplicar agora a mesma fórmula não seria muito difícil. Isso pode, em certa medida, ajudar a pacificar momentaneamente as coisas (já que há indícios de que há algo de mais tectônico acontecendo e que, portanto, pode voltar a se expressar de outras formas em breve).

Tudo somado, é parte de um interessante fenômeno do “Brasil de Lula”. Uma demonstração cabal de que o consumo, de certa forma (muitas vezes sustentado por trabalho precarizado e extenuante), chegou, mas a cidadania de direitos ainda está à léguas. Esse consumo que promete a todos igualar, sustentáculo da “esfera-pública neoliberal”, ironicamente vê cor, raça e local de origem ao barrar a entrada nos shoppings de jovens que não fazem nada além de ocupar um espaço simbólico que a todo momento essa sociedade os vende, encanta e apresenta como índice de “cidadania” e reconhecimento social. Dificilmente esses jovens aceitarão um não como resposta a seus anseios – ainda que tais anseios sejam passear no shopping e comprar um tênis de marca (e não há que se moralizar isso com a pecha simplista de “consumismo”). A negação, em especial a violenta, produzirá mais frustração, o que amplia a instabilidade do cenário.

O papel da esquerda organizada: pontes e diálogos

Campo limpo, é hora de pensar os desdobramentos políticos dessa história e o nosso papel (movimentos sociais e esquerda organizada) no processo. De antemão, para além de fatores de ordem moral e humanística, a denúncia cabal de que essa “esfera pública” da cidadania do consumo não é, nem jamais será, para todos, já presta um importante serviço à disputa política em que nos empreendemos.

Mais uma vez, a juventude se apresenta como força capaz de expressar os tensionamentos sociais latentes e há alguns sinais de que isso deve se ampliar no próximo período. Diferentemente da aposta tradicional, não se trata da esquerda universitária de classe-média e seus aparelhos estudantis, de certa forma distanciados do contexto dessas juventudes, mas de “redes” de jovens das periferias, mobilizados a partir de suas vivências e trocas culturais. A popularização do acesso à internet e às mídias sociais jogam, mais uma vez, papel organizativo importante. As características verificadas nos movimentos de junho (ausência de “líderes” e hierarquias, espontaneidade, performatismo, etc.) estão também presentes. Trata-se de um cenário, como sabemos, relativamente novo e desafiador para a esquerda organizada (seja na classe-média, seja nos movimentos populares), que ainda luta para se recuperar dos últimos anos de cooptação, capitulação, burocratização e fragmentação de sua capacidade de intervenção.

A preocupação assustada da polícia, da imprensa, do sistema de Justiça e dos governos é mais um índice de que algo de subterrâneo está acontecendo neste país, e os rolezinhos, ao seu modo, são apenas mais uma parte da confusão nestes “tempos estranhos”. Onde isso irá desembocar? Difícil saber. Mas nosso apoio (político e logístico) pode cumprir um papel relevante como catalisador de mais politização (e a esse respeito, a organização de “Rolezões” pelo MTST em São Paulo é uma ótima notícia). É nosso dever abrir e ampliar, da maneira mais parcimoniosa possível, diálogo com esses eventos, seus participantes e organizadores, construindo pontes onde for possível. Os resultados dessa articulação também estão em aberto e devem ser disputados por nós como parte do esforço para ampliar seu conteúdo de contestação. Investir em agitação humorística e cultural, nas redes e nas ruas, pode ser uma boa opção.

Para isso, não nos cabe – como não cabia em junho – retirar desses jovens o protagonismo de sua auto-organização e auto-expressão, tomar frente ou nos reivindicar lideranças deste processo. Ele é, com antes, complexo demais para ser enquadrado em esquemas teórico-organizacionais de uma ortodoxia vanguardista, e poucas ações seriam mais elitistas e equivocadas como esta. O momento pede compressão e diálogo para uma ação mais unificada e eficaz possível. Tal diálogo é e será bom para ambas as partes, sobretudo para uma esquerda organizada disposta a se renovar e oxigenar seu conteúdo, prática e estética de denúncia política e mobilização social.

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