China vira a nova fronteira para a exploração do xisto

candian-oil-sands-615Em dezembro, o Weir Group promoveu sua primeira festa de Natal para contatos da empresa no setor de petróleo e gás na China. Não foi um evento particularmente grande ou luxuoso: 75 dos clientes e fornecedores do Weir Group se reuniram para celebrar em estilo britânico a temporada de festas, no pub Park Tavern, em Xangai. Os convidados, no entanto, fizeram parte do que pode ter sido um fenômeno monumental: o nascimento da indústria de gás de xisto na China.

Lucy Hornby e Ed Crooks, Valor, 15 de janeiro de 2014

O Weir Group tem sede na Escócia, mas comanda suas operações de petróleo e gás a partir do Texas, ponta de lança da onda de expansão do xisto. É uma das maiores fabricantes mundiais das bombas de injeção usadas no fraturamento hidráulico – que jogam água, areia e produtos químicos nos poços a alta pressão, para abrir o xisto e outras rochas em que o petróleo e o gás são difíceis de extrair.

Em meio aos esforços para destravar o acesso a seu petróleo e gás de xisto, a China tem potencial para tornar-se um mercado imenso para empresas ocidentais, como a Weir. “Vai levar um longo tempo até a China atingir o nível dos EUA”, diz Keith Cochrane, CEO da empresa. “Não há dúvida, no entanto, de que eles levam a sério.”

Os responsáveis por planejamento na China olham com inveja para a revolução do xisto nos EUA, que reduziu os custos das fontes de energia e encolheu as importações. Por seu lado, os EUA veem os esforços da China em criar sua própria revolução do xisto como uma oportunidade de ouro para empresas americanas. Se a China puder desencadear sua própria revolução, o custo da energia para sua indústria cairia e sua própria indústria de petróleo e gás poderia emergir como uma mundial. Ainda assim, o governo Barack Obama avalia que os possíveis benefícios para as empresas americanas superariam em grande medida qualquer possível dano.

Várias petrolíferas internacionais, como as americanas ExxonMobil, Chevron e ConocoPhillips e as europeias Shell, Total e Eni, assinaram acordos para explorar os recursos de xisto na China. As empresas que oferecem serviços para a produção de petróleo e gás, desde perfurações e fracionamento hidráulico até a gestão do uso da água, podem ter prêmios ainda maiores. Schlumberger, Halliburton, Baker Hughes e Weatherford, as maiores companhias privadas mundiais de serviços petrolíferos, vêm incrementando sua presença na China.

Mas, apesar de todo o entusiasmo, o futuro do xisto na China continua nebuloso. O progresso até agora vem se mostrando decepcionante e a produção de petróleo e gás de xisto no país enfrenta muitos obstáculos. Em última medida, seu desenvolvimento será um teste não apenas para a geologia do país e a criatividade de seus engenheiros, mas também para seu inteiro modelo econômico.

O potencial da China, certamente, é vasto. Estima-se que o possui os maiores recursos de gás de xisto do mundo, tendo 68% de gás tecnicamente recuperável a mais do que os EUA, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Os avanços, contudo, são lentos. O governo chinês ainda se apega a suas metas oficiais de produção, de 6,5 bilhões de m3 de gás de xisto, em 2015, e de 60 bilhões a 100 bilhões de m3 em 2020. Pelo atual ritmo de produção, é improvável que essas previsões se materializem.

A Shell apostou alto no potencial da China, alocando US$ 1 bilhão. Desenvolveu o poço com melhor desempenho no país até hoje. Agora, entretanto, sustenta que projetos significativos de xisto fora dos EUA poderiam levar décadas para se consolidar.

Os recentes êxitos obtidos pela Sinopec, segunda maior petrolífera estatal da China, na bacia de Sichuan reanimaram as esperanças de que a produção de xisto possa prosperar na China. Ainda assim, parece improvável que o xisto seja suficiente para atender a demanda cada vez maior do país por gás. Além do alto empenho com a produção doméstica, a China busca diversificar seu fornecimento internacional e está perto de acordo para receber gás da Rússia.

As reservas de xisto da China, muitas vezes, são mais complicadas de explorar que a dos EUA. Geólogos chineses sonhariam com algo como o petróleo de xisto de Bakken, em Dakota do Norte, ou o gás de xisto de Marcellus, na Pensilvânia, onde as reservas podem estar a apenas 1,5 km da superfície. Nas altas montanhas de Sichuan, estão a cerca de 5 km de profundidade, em estruturas retorcidas por falhas tectônicas ativas.

A China também não tem os gasodutos que atravessam a América do Norte. Pequim teve de oferecer incentivos para a construção de instalações de compressão ou liquefação de gás em áreas próximas às reservas de xisto, para que o produto possa ser transportado por caminhões para fora dos vales, onde há pouca infraestrutura acessível. E na maioria das áreas promissoras em gás de xisto na China, como a bacia de Tarim no noroeste, há oferta limitada de água para o faturamento hidráulico.

Mais do que todas essas diferenças concretas, o que pode estar refreando a revolução do xisto na China são questões “intangíveis”, como a falta de um cenário aberto e competitivo para as empresas e a de propriedade privada das terras, além da carência de estruturas legais consolidadas.

“Há muito dinheiro a se fazer com o xisto na China, mas o desenvolvimento é muito lento. Então, deve haver algum problema”, diz Lin Boqiang, diretor do China Center for Energy Economics Research, na Xiamen University.

Para muitos executivos e analistas, a diferença crucial entre EUA e China é a estrutura do setor. Nas palavras de Chen Liming, presidente da BP China, em recente discussão em Pequim: “Acho que os EUA tiveram êxito por causa de seu mercado aberto. Sem competitividade, eles não teriam sido bem-sucedidos. Então, há melhoras constantes. Por meio da competição, é possível aumentar grandemente a eficiência e diminuir os custos”.

A revolução do xisto nos EUA foi encabeçada pelas pequenas e médias empresas do país, que tentaram várias abordagens até “decifrar a solução” e destravar o petróleo e gás de xisto. Os EUA também têm um cenário rico em empresas de serviços petrolíferos – até 10 mil em algumas contagens. Na China, em contraste, os projetos de xisto são dominados por dois grupos estatais: a Sinopec e a CNPC, controladora da PetroChina. Todos os acordos de exploração de petróleo e gás de xisto com grandes empresas ocidentais foram assinados por alguma das duas, mas ambas ainda mostram dúvidas quanto ao potencial do xisto.

Como a produção de cada poço de xisto cai rapidamente, as empresas precisam perfurar mais e mais poços para conseguir mantê-la, o que exige grandes gastos de capital, algo que causa receio entre as grandes petrolíferas chinesas pelo tipo de comprometimento que envolve.
“Se os grandes grupos petrolíferos dos EUA, ExxonMobil e Chevron, tivessem 90% da área de xisto nos EUA, o ritmo de desenvolvimento não teria sido nem de perto tão rápido”, diz Trevor Houser, consultor do Rhodium Group.

Impacientes com a lentidão das grandes petrolíferas da China, os ministérios encarregados abriram a segunda rodada de leilão de áreas de xisto a outros concorrentes. Especialistas no país, porém, dizem que as recém-chegadas, que incluem empresas de energia, mineradoras de carvão e uma usina siderúrgica, não vêm atendendo os compromissos mínimos de investimento, em parte,porque subestimaram as barreiras encontradas diante do domínio das gigantes estatais.

Uma vez que ganham leilões para explorar áreas, as novatas encontram dificuldade para contratar fornecedoras de serviços petrolíferos, empresas em sua maior parte afiliadas a organizações estatais. Também têm problemas para transportar o produto para mercados urbanos – de preços mais altos – já que as grandes estatais controlam os gasodutos.

As grandes petrolíferas estatais e as agências governamentais de planejamento destacam a necessidade de encontrar soluções locais para lidar com a geologia única da China. Por exemplo, as perfuradoras costumam encontrar muito mais lama nos poços de xisto da China, o que pode deter o fluxo de gás e levar ao acúmulo de concentrações de água, afetando a produtividade do poço. A empresa chinesa de software para campos petrolíferos Recon Technology oferece um sistema de monitoramento de dados para detectar esses bloqueios com antecedência. “É difícil ter sucesso com a tecnologia dos EUA, mas também temos nossa própria tecnologia”, disse Jiang Xinmin, vice-diretor do Instituto de Pesquisas de Energia, da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento, a influente agência de planejamento da China.

A PetroChina solicitou patente doméstica para um caminhão de fraturamento desenvolvido por uma de suas unidades e testado em Sichuan, em setembro. A empresa também trabalha para desenvolver sua própria tecnologia de imagens, embora ainda seja muito básica em comparação ao sistema desenvolvido pela Baker Hughes, dos EUA.

A estrutura industrial da China faz com que tecnologias de xisto locais tenham mais probabilidade de surgir caso se tornem prioridade do governo central, algo que ainda não ocorreu. “Uma empresa privada chinesa não pode fazê-lo porque precisaria do trabalho dos institutos de pesquisas e da Academia Chinesa de Ciências”, diz um executivo de uma das petrolíferas chinesas. “Não é como nos EUA, onde todos estão investindo em inovação e todos colhem os benefícios”.

Isso cria oportunidades para os grupos internacionais de serviços petrolíferos, que controlam tecnologias cruciais para a produção de petróleo e gás de xisto. A China representa apenas uma pequena parte de seus negócios, mas para alguns essa participação cresce com rapidez. Hoje, empresas de serviços ligadas a grupos estatais controlam cerca de 90% do mercado, diz o analista James West, do Barclays. Ele, no entanto, prevê que isso vai “mudar drasticamente”, à medida que o setor sair em busca da experiência internacional.

A Schlumberger, maior grupo de serviços petrolíferos do mundo, é particularmente ativa na China, tendo inaugurado um centro de pesquisas em Pequim em 2012 e um novo laboratório em Chengdu, em 2013. West estima que suas receitas com as atividades em terra poderiam subir dez vezes em cinco anos.

Mas o risco para as empresas ocidentais é que a China demande a propriedade de tecnologia assim que os projetos de xisto no país decolarem. A indústria chinesa tem um longo histórico de copiar tecnologia ou valer-se de engenharia reversa para oferecer versões “boas o suficiente” muito mais baratas, que acabam empurrando os equipamentos estrangeiros para fora do mercado, com exceção dos segmentos de alto padrão.

Uma política governamental conhecida como “inovação local” busca desenvolver versões domésticas de tecnologias dominantes para encorajar a indústria chinesa e evitar taxas de licenciamento. Robert Ivy, diretor do escritório em Pequim do Departamento de Energia dos EUA, argumenta que as grandes empresas internacionais deverão conseguir evitar isso. “As grandes empresas com as quais temos ligação nos EUA dizem que as tecnologias que estão trazendo para aqui são tecnologias especiais, não as mais avançadas”, diz. “Eles já estão anos à frente, buscando a próxima inovação”.

Há sinais de que as empresas ocidentais de serviços vêm tomando cuidados com sua propriedade intelectual – e escondendo parte de suas tecnologias mais importantes. As americanas recusaram-se a permitir a quebra das patentes dos ingredientes de seus fluídos de fraturamento, apesar dos pedidos chineses.

Ivy argumenta que o governo chinês tem plena consciência de que precisa resolver questões como a proteção da propriedade intelectual para que a indústria de xisto tenha sucesso na China. “Eles sabem que tem de trabalhar na esfera da regulamentação, que precisam de proteções ambientais em vigor, que precisam ter seu sistema legal funcionando”, diz.

Todas essas condições estão em maior ou menor medida ausentes na China. Para que o país consiga ter sucesso com o xisto, precisará também de uma revolução em seu cenário institucional.

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