Bye bye Mariano

A paciência é como um copo de água que se enche e enche e enche e, no final, acaba por se derramar. Nunca sabemos qual será a gota definitiva que fará as pessoas saírem à rua, em massa, e dizerem “já basta”. Mas o que é certo é que, mais tarde ou mais cedo, esse momento chega.

Esther Vivas, Esquerda.net, 20 de julho de 2013

Estamos nas mãos de chouriços. Enquanto nos dizem que temos de ter paciência, que cedo chegará o final da crise, que agora sim veremos os, tão cacarejados, brotos verdes, damo-nos conta, já quase sem estupefação, que os mesmos que nos dão lições de austeridade, têm vivido, durante anos, na abundância e na opulência. Roubaram-nos, defraudaram-nos e enganaram-nos. E ainda têm a pouca vergonha de olhar para outro lado.

A paciência, contudo, é como um copo de água que se enche e enche e enche e, no final, acaba por se derramar. Nunca sabemos qual será a gota definitiva que fará as pessoas saírem à rua, em massa, e dizerem “já basta”. Mas o que é certo é que, mais tarde ou mais cedo, esse momento chega. Vimo-lo na Primavera árabe, o 15M, Occupy Wall Street e tantos outros. Como dizia o filósofo francês Daniel Bensaïd: “A revolução chega quando menos esperamos. A pontualidade não é o seu forte”. E assim é.

Ontem outra gota de indignação encheu o copo a cada dia mais saturado. Milhares de pessoas concentraram-se em frente às sedes do Partido Popular em todo o Estado para expressar a sua raiva e mal estar. E as palavras de ordem “Demissão”, “Não é um Governo, é uma máfia” e “Fora, fora, fora” escutaram-se de ponta a ponta da Península. As panelas, colheres, paelhas e demais utensílios de cozinha voltaram a repicar com essa ira contida a que nos têm acostumado estes tempos.

Ainda que a corrupção não tenha património. O poder, parece, engole tudo. O caso Bárcenas, Gürtel, Nóos, Palma-Areia, Fabra e o caso dos EREs, Mercurio, Pretoria e o caso Palau, ITV, Crespo, Pallerols. Bem vindos à Cosa Nostra, ao mais puro estilo ‘O Padrinho’. Não é em vão que um dos hashtags mais utilizados ontem no twitter foi #DemocraciaSinMafia e #AdiósMafia. Os inquilinos da rua Génova, Ferraz ou Còrsega conhecem bem as regras do jogo. A impunidade é sempre a sua última vaza.

A resignação, no entanto, vai-se extinguindo a golpe de envelopes, papéis, comissões, bónus. Enquanto ficamos desempregados, não chegamos ao final do mês, não podemos pagar a hipoteca, despejam-nos, não temos o que comer… assistimos a um novo ato desta tragédia que é a crise. E os papéis de Bárcenas, o último capítulo. O seu desenlace traz poucas surpresas. Os escritores têm-nos habituado a muito ruído e a poucas nozes e depois se te vi não me lembro. O que aconteceu com a tão apregoada entrada na prisão do banqueiro Miguel Blesa, que após quinze esquálidos dias entre grades já voltava a estar na rua. Oxalá surpreenda-nos agora o final do ato. Em todo o caso, dependerá de nós. Agir, mudar o guião, e poder dizer, finalmente: “Bye bye Mariano”.

http://esthervivas.com/2013/07/19/bye-bye-mariano/

Tradução de Mariana Carneiro.

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