As esquerdas e os indignados brasileiros

Dilma e RandolfeO movimento que sai as ruas se contrapõe as instituições do estado e do poder, que incluem não só os partidos governantes, mas também as entidades que os apoiam. Mas o “partido das ruas” está vivendo um rápido aprendizado da necessidade de organização e bandeiras políticas claras, que prosseguirá enquanto o “partido da ordem” não conseguir retomar a iniciativa política. Esta situação impõe escolhas estratégicas para cada corrente política do país.

José Correa Leite, 1 de julho de 2013

O movimento dos indignados chegou ao Brasil com toda força, tendo como deflagrador a repressão promovida pela polícia de São Paulo no dia 13 de junho contra a manifestação do Movimento Passe Livre. Segundo a Confederação Nacional dos Municípios, ocorreram protestos em 438 cidades; no dia 20 mais de um milhão estiveram nas ruas. O movimento por transportes e contra a degradação das condições de vida nas cidades catalisou a indignação popular com a podridão do sistema político brasileiro e encontrou nas negociatas do governo brasileiro com a FIFA um novo alvo: “Queremos educação e saúde padrão FIFA”. Todos os dias novos protestos, dos mais distintos setores sociais, pipocam pelas principais cidades do país.

Indignados por toda parte

Nascido nas praças árabes na luta contra as ditaduras, reproduzido na Praça do Sol em Madrid e na Praça Syntagma em Atenas, o movimento global dos indignados chegou aos Estados Unidos onde produziu o Occupy Wall Street, que se espalhou por todo o país. Ecoou na luta dos estudantes chilenos, quebecoises, mexicanos e colombianos. Mirou o autoritarismo do governo islâmico da Turquia tendo como ponto de partida a defesa do Parque Gize em Istambul. Onde tinha alvos claros, como no Egito e na Tunísia contra as ditaduras, no Chile e no Canadá por educação para todos ou no Brasil por transportes vem sendo capaz de arrancar conquistas aos governantes. É hoje evidente que os indignados não são exceções, mas a nova configuração geral do movimento de massas que emerge em resposta à crise geral do sistema capitalista depois de 2008.

Está claro, para surpresa e perplexidade da “esquerda” ossificada, que uma nova forma de ação política caracteriza os novos movimentos de massa anti-sistêmicos. Uma nova geração política se coloca em movimento contra o sistema político vigente, utilizando-se de seu maior acesso à informação e de seu novo poder de conexão e organização possibilitado pelas mídias sociais. Ela se organiza de forma horizontal e se movimenta contra o poder e suas instituições, os partidos da ordem e as entidades que sustentam o sistema, mostrando-se implacáveis tanto com a direita como com a “esquerda” reformista, quando é ela que vertebra o sistema. O pós-neoliberalismo não é a multidão de Negri e Hardt, mas tem muito mais proximidades com isso do que com o bem-comportado e hierárquico pós-neoliberalismo que um certo petismo vislumbrava nos governos latino-americanos que desenvolvem ações redistributivas via mercado, mas desindustrializam e reprimarizam seus países, destroem seus ecossistemas e suas populações indígenas e mantem as práticas políticas das velhas classes dominantes.

Duas décadas em duas semanas

As experiências das massas nas últimas duas semanas valeram por aquelas de duas décadas de apatia. Em uma sociedade sofisticada como a brasileira, o movimento lançado pela esquerda (isto é, por partidos que mantem o horizonte da revolução socialista e por correntes anarquistas e autonomistas), tendo catalisado amplas massas, imediatamente despertou a atenção seja da direita, seja do centro petista – além das correntes de confrontação violenta da esquerda (Black Block, punks) e da direita (grupos neonazistas, infiltrações de provocadores da polícia, etc). E a grande mídia (Globo, Abril), atuando como o mais importante partido da ordem, imediatamente procurou “editorializar” o movimento, construir uma narrativa do que estava se passando em que buscava canalizar a ira dos manifestantes contra “os políticos corruptos”, com ênfase, naturalmente, aos mensaleiros do PT. O próprio PT vacilou alguns dias entre o discurso de um golpe da direita e uma justa manifestação da insatisfação popular.

O movimento veio para ficar, provocando pânico em todo o sistema político e produzindo um desgaste geral de todos os governantes, não importa seu partido – Dilma e Haddad do PT, Alckmin do PSDB, Sergio Cabral e Eduardo Paes do PMDB. Já tratei deste pânico que as elites tem do povo nas ruas e das propostas de reforma política como uma iniciativa para esvaziar o movimento em dois artigos anteriores (Pedindo para as raposas reformarem o galinheiro! e Três perguntas prévias para qualquer plebiscito que não seja uma farsa para tirar o povo da rua) e não vou retomar aqui o tema. Não é meu objetivo tampouco é fazer uma sociologia do movimento, suas raízes nas modificações recentes da sociedade, sua diferenciação interna ou suas pautas específicas. O que creio ser mais importante é fazer uma fenomenologia do movimento, porque ela é o elemento mais essencial para orientar a ação da esquerda que o desencadeou.

Movimento e instituição

O movimento é composto por todos aqueles que estão na rua, se manifestando, superando sua anterior alienação ou apatia e somando-se aos que já se moviam. Passam a considerar essencial, para mudar a situação, saírem para protestar, para alguns não importa exatamente por que bandeira – o artigo Qual baderna? é talvez a melhor descrição deste estado de espírito. Fazem isso por uma rejeição visceral das instituições políticas, do sistema, que consideram corrompido até a medula. Fazem isso de uma forma por vezes caótica, mas isso não deve ser visto como um problemas (vejam sobre isso o artigo de Eduardo d’Albergaria). Mesclam-se o tema da corrupção com uma revolta com as promessas não cumpridas de mudanças, a explosão contra o massacre cotidiano no transporte público nas grandes cidades com a raiva com as negociatas com a Fifa por conta da Copa do Mundo (das 44 obras de mobilidade prometidas como legado da Copa para as cidades, apenas uma foi finalizada!). O “partido da ordem” estruturado pelo PT, PMDB e PSDB vem atuando como sempre fez depois que Lula chegou ao governo em 2002. Estabelece-se assim uma contraposição, um tanto despolitizada mas fundamentalmente correta, entre movimento e instituições. Dai episódios, que vimos em muitas manifestações da palavra de ordem “sem partido, sem partido”, do rechaço aos partidos políticos que lançaram o movimento e de militantes do PSOL e do PSTU apanhando por conta do PT – além, é claro, de um episodio específico da extrema direita que espancou vários militantes do PSTU no Rio de Janeiro.

Esta contraposição movimento – instituições é, neste estágio, essencialmente correta e progressiva. Ela expressa a primeira entrada em ação de grandes massas antes apáticas que fazem sua primeira experiência na atuação política direta. Mas, apesar do rechaço inicial aos partidos, centenas de milhares de pessoas estão percebendo rapidamente a necessidade de participarem em organizações sociais e políticas. Em alguns casos, em grupos anarquistas e autonomistas; em outros em partidos como o PSOL e a Rede, que também estão crescendo na medida em que conseguem se diferenciar das instituições. Mas a tendência é ao movimento se diferenciar internamente e apenas os setores mais radicais manterem a iniciativa.

Instituições obsoletas

Em seu artigo desta segunda-feira na Folha de S.Paulo, dia 1 de julho, Bresser-Pereira, afirma que o “risco por que passa o Brasil não é a desordem, mas a desmoralização da política e dos políticos”. Ele argumenta, em seguida, que “a democracia participativa é um objetivo, mas longínquo: enquanto isso, não há construção social da nação e do Estado sem a intermediação dos políticos”. Seu argumento prossegue na defesa da social-democracia petista que não teria se deixado cooptar pelas elites liberais(?!) e que a desqualificação da política é a estratégia destas elites para neutralizar os que representam o povo.

Esta é uma maneira de pensar a política totalmente anacrônica e descolada da realidade. Para uma sociedade onde a maioria das pessoas tem acesso à internet e participa das redes sociais, a democracia participativa se tornou uma demanda para ontem. E se o sistema político não responder especificamente a isso será ultrapassado, como tem afirmado dezenas de teóricos. De maneira ainda amorfa, o que se demanda é a construção de outra nação, com base em outras formas de fazer política que as elites não conseguem sequer visualizar.

O Brasil viveu, na década de 1980, o maior ascenso da história do movimento de massas do mundo, que refluiu depois de 1990, com a reestruturação neoliberal da economia, da sociedade e da política sob Collor e FHC. Isso deu o lastro histórico para o Lula e o PT chegarem, em 2002, ao governo e, mesmo abandonando suas bandeiras e perspectiva de esquerda, manter um certa credibilidade na população pobre e, enquanto o país crescia, nas classes medias e na burguesia. Tudo isso está agora em xeque: o período de crescimento acabou e não vai voltar (por conta da situação internacional), a burguesia não tem estratégia, as classes médias estão insatisfeitas, os pobres que conheceram uma melhoria de sua situação social querem ainda mais e muitas organizações de massas construídas nas etapas anteriores foram ultrapassadas e/ou se tornaram obsoletas. Para tudo isso, de nada adianta substituir Dilma por Aécio. O poder e as instituições não tem, por hora, “plano B”.

A cartada dos “movimentos sociais”

Mas há ainda um recurso não utilizado pelo centro petista. As organizações da base do governo (CUT, UNE, MST, MMM…), até agora ausentes do movimento, parecem começar a se mexer. Elas se consideram “movimentos sociais” e, portanto, veem-se como parte do movimento. Mas para o movimento realmente existente, que está saindo às ruas, elas são instituições, são parte do sistema, beneficiando-se do mesmo arranjo que os políticos, mais presentes nos gabinetes de Brasilia do que nas mobilizações. São ramificações capilares do “partido da ordem”, do “sistema”.

A atual conjuntura seria uma situação ideal para estas entidades romperem com esta condição e impulsionarem mobilizações capazes de arrancarem conquistas históricas (ainda mais levando em conta que Dilma pode ser substituída como candidata em 2014 por Lula). Isso seria incondicionalmente saudado por toda a esquerda. Mas elas estão, na maioria dos casos, tão ossificadas como os partido políticos. Alguém concebe a CUT chamando uma greve geral real, massiva, convocada a partir de todos os seus recursos, para aprovar a redução da jornada de trabalho ou uma plataforma ampla de direitos sociais, como faz a CTA argentina? Talvez o MST possa se reposicionar, mas isso exigiria romper com o governo e se colocar como oposição de esquerda a ele – algo que eles já debateram no meio do governo Lula e descartaram, excluindo os militantes que defendiam esta posição.

Este conjunto de instituições tem também uma grave limitação ideológica: estão por demais enquadrados no esquema ilusório “governo de esquerda – oposição de direita, que capitaliza qualquer enfraquecimento do governo”. Um movimento de esquerda muito forte que conteste o governo acaba sendo visto, nesta viseira, como uma força auxiliar da direita. Mas aos olhos de boa parte da opinião publica progressista, o governo Dilma em nada se diferencia da direita: Código Florestal, Belo Monte, os estádios da Copa construídos desalojando o povo pobre, a desindustrialização, as privatizações para atrair a qualquer custo investimentos, repressão aos povos indígenas para defender o agronegócio, uma aliança de carne e unha com ruralistas e evangélicos para bancar a reeleição. O “partido das ruas” tem a nítida e correta percepção de que o PT é a corrente que estrutura o “partido da ordem”. A base eleitoral segura do PT é hoje a mesma que antes apoiava o PMDB, os grotões que agora estão nas cidades como “classe C” e que não se identificam como esquerda (para quem tem alguma dúvida disso, leia a excelente análise que André Singer faz deste fenômeno em “Os sentidos do lulismo”).

O que está em jogo no posicionamento destas entidades não é, potencialmente, pouca coisa. Na Europa, os “movimentos sociais”, em especial o movimento sindical, se opuseram aos indignados, impedindo até agora a progressão do movimento e abrindo caminho para vitórias da direita – porque a indignação não vai refluir. As exceções foram a Grécia, onde esta aliança reconfigurou uma esquerda, expressa no Syriza, capaz de enfrentar os desafios do presente, e a Tunísia e o Egito, onde o sindicalismo vem cumprindo um papel muito positivo. Veremos, nos próximos dias, o caminho que as organizações de massa dirigidas por setores governistas, especialmente petistas, escolherão: se serão capazes de se somar as lutas e fortalece-las, se entrarão em campo para tentar destruí-las ou se afundarão passivamente com o governo Dilma. A mobilização nacional do dia 11 de julho será a demonstração prática desta escolha.

Recomposição acelerada da esquerda no Brasil

Há uma miríade de correntes e organizações autonomistas e anarquistas que estão impulsionado as lutas atuais. Elas estão crescendo e são parte importante do movimento. Mas elas carecem de projeto estratégico. A crise política argentina de dezembro de 2001 demonstrou sua fragilidade para conjunturas onde a questão do poder pode vir a se colocar.

Há uma força política se estruturando bem posicionada para capitalizar o desgaste do sistema político desde uma posição análoga aquela hoje do PT, de centro, mas muito mais “moderna”, a Rede pela Sustentabilidade, de Marina Silva. Definindo-se como nem de esquerda nem de direita, mas com um foco na sustentabilidade, com uma base evangélica, mas também na classe média sensível às questões ambientais, com um importante apoio do empresariado verde, a Rede tem recursos para crescer muito na crise e crescer junto a setores desgastados com a política tradicional, embora dificilmente possa vertebrar uma alternativa de poder no Brasil – em especial em uma campanha contra Lula.

E há um partido de esquerda socialista, o PSOL, que já foi capaz, nas eleições passadas, de ter um desempenho expressivo em várias capitais, em especial na “primavera carioca” encarnada na figura de Marcelo Freixo. O PSOL tem tido uma forte participação na maioria dos protestos, integra organicamente quase todos os movimentos de esquerda que saem para protestar e poderia ser uma expressão do “partido das ruas”. Mas é um partido hibrido, em parte preso ao passado petista da esquerda brasileira, em parte voltado para os movimentos e lutas do século XXI. Ele vive e deve resolver seu drama hamletiano: enquanto a imensa maioria da militância está na rua como parte do movimento lutando contra o sistema, o grupo ao redor de seu presidente Ivan Valente encarna o ideal do partido como instituição, persegue uma estratégia estritamente eleitoral e vive uma nostalgia do seu passado petista mal-resolvido. Nesta segunda-feira, o porta-voz do grupo, o senador Randolfe Rodrigues do Amapá, que transita fluidamente entre todas as forças conservadoras do estado – de Sarney ao DEM – resolveu posar em uma foto ao lado da Dilma e falar besteira sobre o pré-sal, mesmo depois da executiva do PSOL, convidada por Dilma, ter decidido não ir ao encontro no Palácio do Planalto. Uma iniciativa sábia em um momento em que o governo é o alvo de toda ira dos manifestantes e a popularidade da presidente despenca de 57% para 30%, segundo a pesquisa, um nível de impopularidade que só rivaliza com o de Collor. O PSOL pode vir a ser uma alternativa às demandas dos indignados, mas para isso terá romper com a identificação visceral de alguns de seus dirigentes com o “partido da ordem”.

Podemos dar outro nome à indignação, a toupeira da história, que, oculta sob a terra por longos períodos, cava seu caminho e volta a emergir à superfície quando o sistema da mostras de apodrecimento. A crise é profunda, global e estrutural e não será resolvida no Brasil. A indignação manifesta nas nossas ruas não será aplacada tão cedo. O futuro estará não com os que quiserem tirar o povo da rua, mas com aqueles que demonstrarem sintonia com seus anseios, canalizando-os para modificações radicais nas relações de poder a partir das ruas e não dos gabinetes de Brasilia.

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