15 anos em 15 dias

Se do ponto de vista econômico a conquista pode parecer ninharia, no que tange ao seu significado político ela é enorme.

Coletivo Passa Palavra, Brasil de Fato, 20 de junho de 2013

Depois de quase duas semanas de intensa mobilização, as tarifas do transporte público das duas maiores capitais brasileiras foram revogadas. Ônibus, metrô e trem de São Paulo voltam a custar R$3,00; e no Rio a tarifa retorna ao valor de R$2,75.

Em São Paulo, fortemente pressionados por 6 grandes ações de massa que tomaram as ruas da cidade desde o dia 6 deste mês, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad foram constrangidos a vir a público anunciar o recuo frente à mobilização conduzida pelo Movimento Passe Livre. A decisão foi tomada após negociação entre os dois e conversas feitas com o governo federal.

Se do ponto de vista econômico a conquista pode parecer ninharia, no que tange ao seu significado político ela é enorme. Os dois maiores partidos que comandam a política institucional do país foram simultaneamente derrotados pela luta direta encampada por um jovem movimento social; uma luta que transcorreu nas ruas, longe dos gabinetes e das mesas de negociação. Trata-se de uma experiência inédita para uma geração de militantes que, há pelo menos 15 anos, vem sendo forçada a acreditar que a aceitação dos espaços pré-estabelecidos pelas instituições de poder é o único caminho a seguir, que vem sendo educada a admitir que a única política realizável é a política do possível, da redução das expectativas, do burocratismo.

E o que se dirá então de seu potencial de irradiação? Já são centenas de municípios do país a se organizar em torno da pauta que aflige milhões e milhões de trabalhadores na sua lida cotidiana sem o poder de rebelar-se, padecendo numa conjuntura aparentemente congelada e sem fim.

Como já fora dito em outros momentos por este site, era preciso sair do roteiro, uma certa dose de irresponsabilidade política nos fez bem; carecíamos de impulso de rebeldia, espírito de recusa – em uma palavra: ousadia.

Decisivo também talvez tenha sido o fato de essa disposição para a ação coletiva de enfrentamento, sempre tida como exclusividade de uma parcela mais abastada e “privilegiada” da classe trabalhadora, ter alcançado alguns pontos da periferia da cidade e região metropolitana. Desde quarta-feira, ações localizadas de protestos como os que ocorreram na M’Boi Mirim, em Taboão da Serra, Franco da Rocha, São Bernardo, Grajaú e outros sinalizam a possibilidade – explosiva – destes dois mundos se combinarem, ainda que nenhum projeto ou organização política esteja em condições de despontar como catalisador de um programa político definido – o que deve ter feito muito agente da ordem coçar a cabeça ainda mais e apressar prefeito e governador a selarem um pacto de divisão de prejuízos e tomarem medidas que buscam estancar a revolta social em tempo hábil.

A guerra travada pela redução das tarifas parece ter devolvido às ruas embates e contradições que, desde a solidificação dos mecanismos de conciliação inaugurados pela era PT, eram canalizadas para o interior dos palácios e, por isso, tendiam para a anulação. Uma fissura? Ocorre que, nesse processo, não são apenas as forças de esquerda as únicas a serem liberadas. Quais serão os verdadeiros frutos dessa curta jornada, não sabemos. Mas teremos de começar a pensar em colhê-los desde agora, ou melhor, amanhã, porque hoje é dia de comemorar!

Uma resposta

  1. Temos que cuidar que os próximos 15 dias – por manobras de interessados – não acabemos voltando ao estágio inicial. A sociedade não foi às ruas para definir posições; foi para exigir soluções.

    Roosevelt

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