A política do Facebook e as tarefas da esquerda: a revolução se faz no presente

João Telésforo e Edemilson Paraná, Imaginar para revolucionar, 21 de junho de 2013

Autoconvocação de massas. Algumas análises têm observado como a mídia tradicional, em especial a Rede Globo, mostra-se capaz de influenciar as atuais manifestações, fortalecendo ou enfraquecendo agendas e grupos. Não ignoramos esse fato. Porém, talvez se esteja superestimando a capacidade da grande imprensa – ou melhor, da velha mídia oligárquica – de dirigir os “movimentos” espontâneos dos últimos dias, por se desprezar um fator fundamental para a sua gênese e dinâmica política: as redes sociais, em especial o Facebook.

Meios de “autocomunicação de massas”, como Facebook, Twitter e Youtube, instauraram uma mudança estrutural na esfera pública. Até alguns anos atrás, não era tão fácil para uma massa de pessoas dispersas se comunicar e, portanto, ter capacidade de se autoconvocar. Dependia-se muito mais de uma direção, de um centro emissor forte engajado na mobilização: seja um canal de TV, grandes jornais, Igrejas ou outras organizações com capacidade aglutinadora criada por forte trabalho de base. Facebook e outros instrumentos da “rede” facilitam que uma massa amorfa e fragmentada se comunique sem depender da ação de um centro emissor e mesmo de “lideranças” que sirvam de referência objetiva e subjetiva para essa mobilização.

“Cidadania digital” e fragmentação do espaço público

A facilidade de mobilização, porém, não significa que essa massa tenha a mesma facilidade de se formar ou de se organizar de modo mais consistente por meio dessas ferramentas. Pelo contrário, pode ficar até mais difícil. Há mais de dez anos, diversos estudiosos têm constatado que a internet tende a incentivar as pessoas a praticamente só entrarem em contato com aquilo que concordam. As redes sociais fortalecem ainda mais esse processo de reafirmação de preferências. E o fortalecem, sobretudo, por meio de um direcionamento tecnicamente ancorado em algorítimos de seleção. Por trás da operação do Google ou o Facebook está uma busca empresarial e publicitária em apresentar e oferecer como conteúdo exatamente aquilo que mais agrada, aquilo que o usuário “receberá” e absorverá com mais facilidade, mantendo-o de modo confortável (e quase compulsivo) na plataforma.

O “cidadão 2.0” encontra no seu espaço público virtual uma série de opiniões discordantes. Porém, o debate a respeito parece não apenas não se aprofundar, mas nunca se apresentar de modo claro: perde-se em meio ao fluxo de informações e à torrente frenética de memes para todos os gostos. É da dinâmica desses instrumentos, pois, o imediato, o simples, o fugaz. O império da performance e do imagético diante do discursivo (ainda que imagem seja também discurso) tem um impacto profundo na cognição dos debates virtuais e, portanto, na construção da dita “democracia digital”.

Formas mais tradicionais de mobilização eram construídas ou por uma direção que aprofundava a formulação política e era legitimada (ou se fazia legitimar) por uma base; ou por espaços como conselhos e assembleias, nos quais existe um ambiente de discussão entre diversos pontos de vista visando à tomada de uma decisão. Por mais que assembleias não correspondam ao sonho utópico – e com um quê de desumano – dos modelos deliberativos racionalistas, há nelas não apenas algum espaço para o convencimento com base em razões, mas, sobretudo, a busca da construção de convergências e divergências claras, a tentativa de construir sentidos comuns que favorece a politização, força à compreensão mútua dos sujeitos.

Seria o Facebook uma grande, gigantesca assembleia, com as dificuldades enormes que isso traria? Talvez. Porém, parece haver diferenças de qualidade, e não simplesmente de quantidade: a lógica “participativa” das redes sociais parece guiar-se não apenas por métodos, mas por propósitos consideravelmente diferentes daqueles dos conselhos e assembléias.

Tudo indica que vivemos em um tempo contraditório (como sempre o são momentos de transição de uma realidade a outra), em que a lógica do broadcasting (grandes cadeias de rádio e televisão falando para as massas organizadas com base em seu lugar de trabalho e produção), da sociedade industrial e da lógica da comunicação “um para muitos” é paulatinamente substituída pela lógica do “muitos para muitos”, das redes sociais, da desterritorialização e desespacialização do trabalho no capitalismo informacional. Trata-se de um novo modo de comunicação para um novo modo de sociedade e vice-versa. Trata-se do tempo da “transmídia”: as televisões e rádios interferem nas mídias sociais, que interferem nas ruas, que voltam a interferir nas televisões e rádios; e assim por diante num ciclo que se retroalimenta. A linearidade cognitiva, discursiva e ideológica do século XX está posta em cheque.

Desafios da esquerda: que fazer?

Ante esse diagnóstico, a velha pergunta: que fazer? [E aí vai implícito, desde o nosso lugar de fala: o que nós, da esquerda revolucionária, devemos fazer?]

A pior postura que poderíamos assumir seria nos instalarmos numa posição saudosista dos velhos tempos, que amaldiçoa a “pós-modernidade” e as redes sociais. O mais curioso é que são justamente alguns supostos marxistas que parecem assumir essa atitude regressiva, que está em franca contradição com a teleologia progressiva de Marx, para quem a esquerda deve tratar de aproveitar as bases materiais e as contradições do capitalismo para movê-lo para o futuro.

Independentemente de teleologias, a esquerda precisa se reinventar, se quiser fortalecer seu projeto libertador de sociedade.

Primeiro, de modo mais imediato, apresenta-se como óbvia a tarefa de intervir na conjuntura atuando conforme a cognição que está implantada nas redes sociais. Tratemos de fazer mais memes, vídeos curtos, etc, em defesa de nossas bandeiras. “Ocupemos” a rede com política.

Segundo, é fundamental estender para o conjunto da população o acesso pleno à base material de que hoje as maiorias ainda são privadas no Brasil: internet de qualidade. Se nossa preocupação é com empoderar as classes subalternas, devemos lutar urgentemente pela internet banda larga universal e gratuita ou a preços extremamente acessíveis.

Terceiro: para democratizar a internet, não basta universalizar o acesso a ela. É necessário construir poder alternativo ao das grandes corporações que hoje a controlam em sua estrutura, base física e, em considerável medida, conteúdo. Facebook e Google, por exemplo, são empresas pautadas pelo lucro, e que muitas vezes têm posturas de conivência e colaboração com o vigilantismo dos governos – isso para não falar da invasão da privacidade dos usuários a serviço de seus interesses econômicos. Além disso, a produção de informação jornalística está cada vez mais concentrada em grandes agências, gerando um processo de oligopolização que também afeta a internet, e se mescla ao controle da infra-estrutura física da rede (cabos, servidores, distribuição, etc) pelas grandes empresas de telecomunicações. Trata-se, então, de uma luta contra o complexo comunicacional pautado pelo lucro e pelo vigilantismo, que atravessa Estados e grandes corporações da “velha” e da “nova” mídia.

Isso significa que a demanda pela democratização da internet exige a luta simultânea pela afirmação do princípio da neutralidade da rede (ou seja, que aquele que controla a infra-estrutura física da rede não possa condicionar seu conteúdo, escolher, com base em interesses de lucro e geopolíticos, quem os recebe ou não); pelo software livre; pelo fim do oligopólio das redes de rádio e TV no Brasil; pelo apoio e financiamento à comunicação comunitária; e pela construção autônoma de redes sociais autogestionadas, não pautadas pelo lucro nem controladas diretamente por grandes corporações e pela política externa de Washington e seus aliados. Dentre uma série de outras lutas convergentes…

Quarto, a luta se dá na esfera virtual (e na disputa pela sua base física) com cada vez maior centralidade, mas não apenas nela. É necessário aproveitar o momento de ascenso de massas, a valorização da participação na rua, para que o encontro no espaço público não seja apenas entre individualidades estanques, mas produtor de novas subjetividades coletivas, formadas pela cultura de colaboração, tomada de decisões pautada pela convivência, diálogo e conflito democrático no espaço público. Precisamos fortalecer a nossa capacidade coletiva de tomar decisões coletivas: construir autonomia política da sociedade não passa simplesmente por cada um/a ir à rua manifestar sua indignação individual, mas por interagir com os/as demais para formular e implementar projetos políticos comuns – mas sem a lógica totalitária de buscar identidades unas (a “luta contra a corrupção” que supostamente uniria a todos), que não apenas negam a alteridade e a pluralidade, mas deslegitimam o conflito, o grande produtor de democracia. Explorar as possibilidades de confluência dos movimentos saídos das “redes” virtuais com as diversas lutas urbanas, pelo direito à cidade em suas múltiplas dimensões, parece ser um dos bons caminhos para isso.

Quinto, é necessário retomar a velha e indispensável tarefa cotidiana do “trabalho de base”. No tripé clássico do trabalho revolucionário, formação e organização são tão importantes quanto mobilização. Boa parte da esquerda brasileira parece ter se esquecido disso, na medida em que se burocratizou e perdeu seu caráter e compromisso militante. Grupos conservadores como a direção das Igrejas neopentecostais não se esqueceram, o que certamente contribui para a hegemonia conservadora e o ascenso fundamentalista na sociedade brasileira.

O trabalho de base, porém, precisa ser criativo. Deve buscar na memória programática e organizativa da esquerda uma inspiração, mas não mais do que isso. É preciso buscar novas referências, métodos, e cultivar um espírito e práticas de abertura para colaborar com a construção de novos sujeitos – que, para serem efetivamente novos e terem capacidade de empreenderem suas próprias lutas, não poderão corresponder às imagens petrificadas trazidas de um passado distante. Para um nova configuração social e de comunicação, uma nova forma de fazer política e disputar a sociedade.

A revolução se faz no presente. E o tempo é de imaginar para revolucionar.

PS: os pontos três e quatro, da lista dos cinco, foram acrescentados posteriormente, a partir de comentários de Helena Martins e Natacha Rena… no Facebook.

PS2: este texto não objetivava propor um programa para a esquerda nas lutas atuais, mas discutir o estilo de trabalho a ser desenvolvido, à luz da leitura das condições materiais e sociais da configuração participativa posta. Acabamos enveredando por alguns pontos “programáticos”, particularmente no que diz respeito à democratização da internet, porque diz respeito de forma mais direta precisamente à infra-estrutura de participação pública que estamos analisando. Porém, sem perder a dimensão de totalidade, isto é, de que os problemas estão todos relacionados e a luta deve ser travada numa dimensão mais global, sabemos que a democratização da internet e das comunicações passa por uma série de outras questões.

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