O “partido das ruas” está sendo construído nas manifestações

5983_10151665765099295_1680612744_nUma nova geração política está, extasiada, tomando consciência da sua força coletiva quando ocupa as ruas. E pretende ficar nelas enquanto o transporte público se degradar, evangélicos aprovarem a “cura gay”, ruralistas assassinarem índios e ecologistas, tecnocratas e banqueiros continuarem suas negociatas e os governantes administrarem tudo isso em nome da governabilidade

José Correa Leite, 18 de junho de 2013

O descontentamento latente com a política brasileira, por parte da juventude das grandes cidades, que vinha se acumulando nos últimos anos eclodiu nesta segunda-feira em protestos por todo o país. Centenas de milhares de pessoas – 230 mil numa soma rebaixada de alguns jornais – saíram às ruas para manifestar sua inconformidade, tendo como catalisador o aumento da tarifa dos transportes públicos e os protestos convocados pelo Movimento Passe Livre a partir da grande repressão que sofreu em São Paulo na última quinta-feira. E nesta terça atos massivos continuam ocorrendo.

Uma demanda clara para uma agenda difusa. A questão dos transportes é o foco mais claro dos protestos, o ponto onde fica mais evidente a inação e desprezo para com as necessidades populares por parte dos governantes. Equacionar isso é indispensável para criar condição de acesso à cidade para a juventude e para os pobres – para aqueles que usam transporte coletivo. Mas outras aspirações foram expressas nas manifestações: educação e saúde ao invés dos gastos com a Copa e seus estádios faraônicos, que enriquecem apenas as empreiteiras; o fim do Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 37, que quer reforçar a blindagem dos políticos e dos corruptos frente às investigações do Ministério Público; a rejeição à presença do deputado Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, destilando racismo e homofobia (e agora aprovando ai o projeto de “cura gay”!!!; a rejeição ao Estatuto do Nascituro (para criminalizar toda forma de aborto); a repressão ao povos indígenas, apresentados pelo governo e pelos ruralistas como inimigos do progresso; a construção de hidroelétricas como Belo Monte, que só beneficiam as empresas de mineração; a crítica aos políticos e aos governantes como surdos as preocupações do povo. A pauta é enorme e, para perplexidade dos políticos, difusa. Dilma e os tecnocratas que governam o pais estão surpresos e perplexos.

Uma nova geração política. Mas isso não tem nada de surpreendente para quem acompanha os movimentos sociais pelo mundo afora, como os manifestantes que fazem referencia à Grécia e à Turquia. Uma juventude que até agora se colocava fora da política expressou sua vontade de fazer valer sua voz, de romper com a passividade e a alienação (com muitas críticas aos políticos e à Globo) e “mudar o país” a partir das ruas e não do Facebook, como colocavam muitos cartazes. O mal-estar com a política vigente se expressa através de uma mobilização de inconformismo com a “ordem” e seus pilares: políticos, ruralistas, conservadores religiosos, tecnocratas, capitalistas. Esta parte da sociedade brasileira, a juventude, expressou, de forma pluriclassista, sua revolta com a forma como as elites políticas estão conduzindo o país. O “partido das ruas” formalizou, nesta segunda-feira, sua rejeição ao partido da ordem (esta vasta coalizão que abarca do PT ao PSDB, do PMDB ao PCdoB). Não é a toa que uma palavra de ordem forte do movimento é a de: “nenhum partido me representa”

No partido das ruas estão ativistas de todos os partidos e grupos de esquerda fora da base de sustentação do governo; estão algumas correntes de juventude até mesmo do PT; estão ativistas anarquistas e de grupos autonomistas; mas está, principalmente, uma ampla camada de jovens que estão se mobilizando e saindo às ruas pela primeira vez. Não são poucos os que afirmam: “preciso fazer alguma coisa”, “cansei de ser alienado”, “temos que sair das redes sociais para as ruas”…

É o início de uma “primavera brasileira”. Esta é, para centenas de milhares de pessoas, uma primeira experiência de participação política através da ação direta. Um processo gratificante, energizaste, que dá a seus participantes a consciência da força que adquirem quando atuam juntos. É um processo formador, que faz com que as pessoas cresçam e amadureçam individualmente e coletivamente. O movimento ainda está consolidando suas demandas iniciais – há clareza dos ativistas da importância de continuar focando a questão dos transportes. E está preocupado também em manter e ampliar sua capacidade de convocação e mobilização.

É uma primavera nos moldes da dos demais países que estão assistindo a mobilização política da juventude – na primavera árabe, nos Ocuppies, nos indignados europeus, nos movimentos estudantis de vários países das Américas. Movimentos horizontais, democráticos, sem lideranças ou estruturas rígidas, com amplo uso das redes sociais, essencialmente processos auto-organizados. Não são movimentos espontâneos, mas dotados de uma alta dose de espontaneidade. E movimentos ignorando e ignorados pelas tradicionais organizações verticais (como CUT, MST, mesmo a UNE).

Clareza de quem são os inimigos. Este “partido das” ruas terá que ser construído a quente, ocupando o espaço público, adquirindo clareza de seus objetivos e de sua estratégia, de quem são seus inimigos e quem são seus aliados. O Movimento Passe Livre e outros semelhantes tem uma longa experiência de relação conflitiva com governos, sempre mantendo sua autonomia e, podemos ter segurança que saberão perseverar na sua luta.

Mas agora o movimento cresceu e incorporou muita gente que não é (ainda) ativista experiente. Lula, Dilma e FHC já estão dizendo que o clamor das ruas não deve ser menosprezado, buscando diluir as mobilizações e retomar aos “business as usual”. As expectativas se tornaram maiores e os desafios também. O movimento deve, mantendo seu foco e conquistando vitórias exemplares, saber incorporar as aspirações daqueles que estão se mobilizando e que estão identificados com as lutas do conjunto dos explorados e oprimidos.

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