A mulher de vermelho

turkey-2-e1370428762514-635x357Era apenas uma das jovens manifestantes do Parque Gezi em Istambul, mas facilmente se tornou um símbolo da resiliência Turca.

André Moreira, Esquerda.net, 8 de junho de 2013

O mundo voltou a tremer desta vez com a revolta turca, que continua a encher as manchetes dos jornais e as reportagens televisivas. Embora a comunicação social continue a associar esta revolta a um simples protesto ambientalista (muito devido ao controlo dos meios de comunicação sociais turcos por parte do governo de Erdogan), os mais atentos já perceberam que esta simples manifestação contra a destruição do Parque Gezi, deu o mote para uma reivindicação mais ampla de direitos e liberdades do séc. XXI. A tentativa de atentar contra o principal espaço verde da cidade foi a última gota de um copo cheio de opressão e autoritarismo, num regime antiquado e conservador, que luta a pulso de ferro pelo regresso à Turquia do passado, à Turquia dos velhos costumes, à Turquia centrada na religião e no dinheiro, de costas voltadas ao progresso.

Foi neste clima tenso, por entre gás lacrimogéneo e balas de borracha que a mulher de vermelho se deu a conhecer ao mundo. De vestido de algodão vermelho, colar e saco de pano ao ombro, era apenas uma das jovens manifestantes do Parque Gezi em Istambul, mas facilmente se tornou um símbolo da resiliência Turca, neste que já é um dos movimentos sociais que certamente alterará o panorama político da Turquia. Esta mulher de vermelho, que com toda a frontalidade estava na linha da frente do protesto, bombardeada com gás lacrimogéneo, e mesmo assim de pé, sem abdicar da sua luta, foi vítima dos mais variados cartoons e é hoje um rosto desta manifestação. Como ela, são muitas as que enchem neste momento a Praça Gezi, e que sonham com uma Turquia livre, longe da ditadura de Erdogan. Contudo a mulher de vermelho não representa apenas um símbolo do que se está a passar na Turquia, representa acima de tudo a face visível de quem combate a escassez de democracia que assombra o mundo.

Porque esta mulher não tem idade, veste-se como quer, é dona de si própria, é pro-ativa e combativa, é a mulher do progresso, do hoje e do amanhã, num claro combate à sociedade machista e patriarca em que vivemos, numa procura incansável pela democracia e justiça social.

Neste momento mais do que o destino do Parque Gezi discute-se o destino da mulher e da democracia na sociedade turca e quem sabe no mundo islâmico. Não fiquemos indiferentes a isso. Onde houver um governo autoritário, uma troika, um fanático religioso, um fascista, um capitalista, haverá sempre uma mulher de vermelho. Porque no final de contas, nós crescemos ao ritmo da vossa violência, seja sob que forma for.

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