Governo adia aposta em energia limpa

PollutionRecuo: energia eólica perde espaço em leilões do governo

Wellington Balhnemann, O Estado de São Paulo, 26 de maio de 2013

RIO – Em nome da garantia de abastecimento de eletricidade, o governo federal decidiu, por ora, abrir mão da expansão da matriz energética com base apenas em fontes limpas. 

A crise dos reservatórios no início do ano acendeu a luz amarela do Ministério de Minas e Energia e evidenciou a necessidade de ampliar a participação das térmicas na matriz. Sem gás natural barato disponível, a solução foi recorrer ao carvão, uma das mais poluentes fontes de geração. Esse movimento diminuirá o espaço para as eólicas, que há quatro anos vêm dominando os leilões do setor.

A tendência ficou clara quando a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) excluiu as usinas eólicas do leilão de energia nova que contratará a demanda das distribuidoras em 2018 (A-5), marcado para agosto. Isso foi significativo porque o leilão A-5 aponta para os agentes a direção da expansão da matriz energética no País. O temor do governo era de que, ao misturar eólicas e térmicas na licitação, apenas as eólicas fossem contratadas, dado o baixo custo de geração. “Esse é o momento de equilibrarmos a matriz e darmos mais espaço para as térmicas”, afirmou o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim.

Segundo ele, a montagem da matriz energética é um processo artesanal, no qual a EPE olha as necessidades do País para definir a expansão das fontes. Por falta de projetos hídricos, o ministério permitiu a contratação de um grande volume de termelétricas para o atendimento da demanda nos leilões até 2008.

Em 2009, o Brasil assumiu o compromisso de reduzir emissões de gases de efeito estufa, e a EPE passou a desestimular a contratação das térmicas, principalmente as mais poluidoras – a carvão, óleo combustível e diesel. Nesse meio tempo, avanços tecnológicos reduziram substancialmente o preço da energia eólica, produzindo um avanço notável da fonte na composição da matriz brasileira.

O saldo dos leilões mostra que as eólicas representam 11% da energia contratada pelo governo desde 2005, com 7,04 mil MW. Isso produzirá um salto na capacidade da fonte, dos 2,5 mil MW para 8,83 mil MW. Além disso, a energia eólica se consolidou como a segunda fonte mais barata do País, com valor médio nos leilões de R$ 137,01/MWh, atrás somente das hidrelétricas.

Ainda que a expansão tenha contribuído para limpar ainda mais a matriz brasileira, a predominância da eólica trouxe preocupações sobre a operação do sistema por ser uma fonte intermitente de energia. Uma das principais vozes a manifestar essa apreensão é o próprio diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp. Há tempos ele vem alertando sobre a perda gradual de regularização dos rios brasileiros com a construção das hidrelétricas a fio d”água (sem reservatório). Além de perder a capacidade de armazenar água, essas usinas têm alto nível de variação na produção de energia por depender da vazão dos rios.

O coordenador do Grupo de Estudos do Setor de Energia Elétrica (Gesel/UFRJ), Nivalde de Castro, vê com bons olhos essa mudança no planejamento. Segundo o especialista, o que se via até então era o planejamento “ex-post”, uma vez que a matriz era construída após os resultados dos leilões. Ao priorizar as térmicas, o governo reverte essa lógica. “Estamos partindo para a construção de uma matriz estratégica.” De fato, os leilões organizados até o ano passado só consideravam o menor custo da geração, sem levar em conta os de transmissão e a segurança energética.
“Se colocar todas as fontes em um leilão, obviamente a eólica vai ganhar”, acrescentou Chipp. No leilão A-5 de 2012, 50% da energia contratada era eólica. A competitividade da fonte é tão alta que impediu a contratação de termoelétricas a gás na boca do poço da MPX. Para evitar essa situação, Tolmasquim disse que o governo está priorizando as eólicas nos leilões A-3 e de energia reserva, cuja demanda é inferior ao A-5.
Mesmo nesses leilões, a EPE fixou regras mais restritivas para as eólicas. Para o leilão de energia de reserva desse ano, em agosto, a EPE adotará pela primeira vez o conceito de “capacidade de hospedagem” na transmissão. Isso significa que a contratação dos empreendimentos estará limitada à capacidade de conexão ao sistema. Os projetos sem interligação à malha de transmissão não poderão disputar. Com isso, a oferta deve cair de 14 mil MW, no leilão A-5 de 2012, para entre 2,5 mil MW e 3 mil MW.

Retomada das térmicas anima indústria de carvão
Empresas estudam projetos para o leilão de energia nova deste ano, que contratará a demanda para 2018
A retomada da contratação das termelétricas reanimou a indústria de carvão. A Tractebel, a maior geradora privada do País, e a MPX, do empresário Eike Batista, são algumas das empresas que estudam incluir projetos no leilão de energia nova A-5 deste ano, que contratará a demanda das distribuidoras em 2018. O leilão também poderá culminar em novos investimentos na expansão da capacidade de produção de carvão mineral.
É o caso da estatal gaúcha Companhia Riograndense de Mineração (CRM). Fornecedora de 3,3 milhões de toneladas por ano de carvão para a térmica Candiota (RS), da Eletrobrás CGTEE, a companhia avalia investir R$ 200 milhões para ampliar em quase 2 milhões de toneladas ao ano sua produção, caso feche novos contratos para os projetos do leilão. O presidente da CRM, Elifas Simas, revelou que a empresa negocia o fornecimento de carvão a três empreendimentos no Rio Grande do Sul, sendo um da Tractebel e outros dois da MPX.
Os dois projetos da MPX somam 1,320 mil MW de capacidade instalada, e a CRM negocia para se tornar “fornecedora backup” de carvão para as térmicas. Já o projeto da Tractebel é de uma usina de 350 MW, e a estatal seria a fornecedora principal. A CRM também foi procurada pela CTSul para discutir o suprimento a uma usina de 650 MW em Cachoeira do Sul (RS).
Segundo Simas, o carvão que abastecerá as novas usinas virá da mina a céu aberto de Candiota, a maior jazida brasileira. O presidente da Empresa de Pesquisa (EPE), Maurício Tolmasquim, afirmou que o carvão desse tipo de mina é o mais competitivo para geração de energia pelo baixo custo. A fase III de usina Candiota, que entrou em operação comercial em 2011, tem custo de geração de R$ 54,99/MWh, um dos mais baixos entre as térmicas em operação no setor elétrico brasileiro.
Para Tolmasquim, o fato de o Brasil ter retomado a contratação das térmicas não significa que o País não terá matriz limpa. “As fontes renováveis representam entre 80% e 90% da matriz.” Segundo ele, se o governo tivesse de escolher entre uma usina a gás natural e uma a carvão, escolheria o projeto a gás pelo baixo custo e impacto ambiental menor.

Indústria de energia eólica busca saídas no mercado livre
Queda no preço chama a atenção de grandes empresas, que investem em projetos para reduzir custos de energia
Com o espaço reduzido nos leilões do governo, a indústria da energia eólica pode encontrar na autoprodução e no mercado livre oportunidades para desenvolver projetos. A expressiva queda do preço de geração eólica a partir de 2009 chamou a atenção das grandes indústrias, que buscam reduzir as despesas com energia. Esse movimento ganhou força com as mudanças regulatórias da MP 579.
Prova dessa tendência foi o anúncio da montadora japonesa Honda, no mês passado, de construção de um parque eólico de 27 MW de capacidade em Xangri-lá (RS) para suprir toda a demanda de energia de sua fábrica de automóveis em Sumaré (SP). O parque, que consumirá R$ 100 milhões, vai entrar em operação em setembro de 2014 e será o primeiro investimento da Honda desse tipo no mundo.
Além disso, a quantidade de clientes livres que só podem comprar energia de fontes alternativas não para de crescer e alcançou o recorde de 1.136 consumidores em maio deste ano.
Se no primeiro momento a leitura sobre a MP foi negativa para as fontes alternativas, o que se observa hoje é um setor mais otimista. Ao transformar a energia barata das hidrelétricas amortizadas da Cesp, da Copel, da Eletrobrás e da Cemig em cotas e repassá-las às distribuidoras, o governo diminuiu a oferta para os consumidores livres.
“O número de players no mercado livre foi reduzido”, afirma o diretor financeiro e de relações com investidores da Renova Energia, Pedro Pileggi. A Renova é o veículo de investimentos em energias renováveis da Light, controlada pela Cemig.
Segundo o executivo, esse movimento provocou uma mudança estrutural no mercado. Anteriormente, a energia eólica era tomadora de preços em razão da maior competitividade das hidrelétricas existentes.
Com a saída dessa oferta e a queda do preço de geração da eólica, isso mudou. “Hoje, a eólica ajuda a formar os preços dos contratos negociados no mercado livre”, diz Pileggi. Levantamento da EPE mostra que o valor médio da venda da eólica nos leilões é de R$ 137,01/MWh, comparável aos R$ 140/MWh que a Eletrobrás pagou pela energia de Jirau (RO).
Outro sinal positivo é a mudança no cálculo da energia no mercado de curto prazo, o chamado preço de liquidação das diferenças (PLD). A nova metodologia incorporará o custo das térmicas acionadas por segurança energética, o que elevará o valor da energia.
O grande desafio para os projetos eólicos é equacionar o financiamento. O BNDES exige contratos de venda de energia de longo prazo, em torno de 16 anos. Isso contraria a lógica das grandes indústrias, que preferem contratos de menor prazo.
Essa questão tem dificultado os projetos de empresas de menor porte, já que os maiores grupos de energia conseguem compor um portfólio de contratos por meio de suas comercializadoras, que permitem acessar os bancos de fomento.
Para superar o entrave, a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Élbia Melo, diz que os produtores independentes estão buscando acordos de venda de energia dos projetos para os grupos de maior porte, para viabilizar o financiamento.

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