América Latina, o outro Início

Jorge Alemán, Página/12, 23 de maio de 2013. A tradução é do Cepat.

I. O Ocidente desenvolvido e a Europa, em especial, encontram-se com seu final. Sobre este final, diferentes pensadores ensaiaram um diagnóstico antecipado. Marx, apontando como a Lógica do Capital e o “fetichismo da Mercadoria” iriam produzir tal deslocamento na realidade, de tal modo que “tudo o que é sólido se desmancharia no ar e se afundaria nas águas geladas do cálculo egoísta”. Freud, mostrando como a civilização iria intensificando suas exigências de renúncia aos sujeitos em favor do serviço voraz da pulsão de morte. Heidegger, anunciando que a metafísica europeia desembocava numa “objetivação e emprazamento” da existência humana, que acabaria uniformizando o mundo como imagem. Por último, a partir de sua teoria do Sujeito em relação com o Real, Lacan concluiria que o novo mal-estar do capitalismo se definiria como uma inédita extensão da lógica do campo de concentração e o aumento incessante de novas formas de segregação. Marx, Freud, Heidegger, Lacan, neste sentido, constituem outro modo de pensar o político por fora da racionalidade neoliberal, que é, em definitivo, a metafísica dominante do capital.

II. A América Latina, ao se constituir, no final do século XX e inícios do XXI, uma tentativa de contra-experiência da racionalidade neoliberal vigente, pode aparecer como a eventual invocação a outro Início. Um novo começo que já não procura se apresentar ao modo das metáforas vitalistas, que sempre mencionam a América Latina e seu suposto realismo mágico, ainda tributárias do ditame hegeliano, que quis ver a América Latina fora da história do Espírito. Este início é uma reapropriação radical da tradição ilustrada europeia e de seus impasses, e por sua vez é uma releitura dos diferentes projetos históricos da Emancipação. Por isso, as antecipações de Marx, Freud, Heidegger e Lacan encontram uma ressignificação que busca estar à altura das novas invenções políticas que o outro Início requer. Na América Latina, o outro Início é uma invocação para pensar numa universalidade não “eurocêntrica”. Desta vez, o outro Início latino-americano é o que precisa atender o mundo, caso queira se salvar de sua deriva niilista no Fim, uma deriva que na Europa promove somente acontecimentos éticos ou estéticos que não se articulam com projeto político algum.

III. O outro Início latino-americano não é um começo absoluto, é um acontecimento político que reinterpreta os legados latino-americanos, enviando uma mensagem ao mundo, ao Ocidente que busca, a partir de seu arquivo esgotado, os recursos de uma nova invenção política. Contudo, esta nova invenção, desta vez, ganhou existência material na América Latina, único lugar de onde se poderia convocar, como propôs Chávez, uma quinta Internacional. O início, é necessário esclarecer, possui um tempo histórico impreciso, pode durar anos e está por ser um começo diferente daquele da metafísica neoliberal, sempre ameaçado, a ponto de fracassar, assediado pelos inimigos que se multiplicam, que tentam capturar seu sentido para mostrá-lo como o de sempre, a mascarada política na qual dorme o sonho corporativo do Poder. O outro Início é um desejo de despertar e, por isso, vive entre tensões irredutíveis. Por isso, a América Latina, nesta perspectiva, é o lugar da Diferença insuperável e não do “diferente que sempre chama ao diferente” nas miragens do novo.

IV. Estas tensões irredutíveis são aquelas que, no outro início, são assumidas e encarnadas para dar lugar à Diferença:

1) Para a diferença entre a democracia e Estado de Direito, como meros dispositivos hierárquicos e institucionais garantidores da ordem pública, e para a democracia e o Estado, como instrumentos de luta frente ao projeto homogeneizante mundial do capital e de suas agências. Em definitivo, aqui, aludimos à tensão irredutível entre o Direito instituído e a Justiça sempre por vir.

2) Para a diferença entre a ciência moderna, com sua construção da verdade e suas pesquisas, e a técnica, que é uma estrutura tão acéfala como o capital, que substituiu a própria democracia, e que apenas busca se perpetuar em seu espetáculo ilimitado.

3) Para a diferença entre a Saúde pública e universal e as novas estratégias do “biopoder”, que estendem sobre as populações diversos dispositivos de avaliação ao serviço de lógicas segregativas.

4) Para a diferença entre a cultura do entretenimento e a cultura popular, que sempre exige a presença das teorias críticas que permitam decidir sobre a situação.

5) Para a diferença entre Saúde mental farmacológica e de classificação tecnológica e as práticas que respeitam o caráter irrepetível do sujeito singular, advindo ao mundo da palavra e linguagem.

Há muitas outras diferenças que poderiam ser estabelecidas, mas todas configuram o campo da Diferença Absoluta, que é sempre uma diferença que não se pode reabsorver em nenhum processo dialético, numa síntese final. No outro Início, trata-se sempre de viver na tensão, sem solução entre as mesmas, mas admitindo-as. Nenhum progresso eliminará sua fratura, mas, ao menos, existem processos políticos que, assim como o latino-americano, serão depositários das marcas destas tensões.

O outro início não dispõe de garantias a priori, está assediado pelas regras do jogo do neoliberalismo vigente, mas, neste caso, a América Latina é o lugar onde o sinal da Diferença constitui uma marca o suficientemente insistente em seu reaparecer, para que suscite um chamado para definir essa universalidade que, agora, permanece apressada na pinça metafísica da razão eurocêntrica do Ocidente dominante.

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