À sombra dos grandes asteroides

meteorcraterA curto prazo, o seu risco é irrelevante. Mas a história mostra: mesmo a colisão de um objeto astronomicamente pequeno pode abalar a vida terrestre.

Joel Achenbach, Outras palavras, 16 de fevereiro de 2013

Nesta sexta-feira, a Terra viu-se em meio a um tiroteio cósmico. O petardo maior veio do Sul; o menor, do Leste. Eram objetos sem relação entre si, com órbitas distintas. Um, do tamenho de um prédio de apartamentos; o outro, bem menor, mas com mira mais precisa.

O asteróide maior errou o alvo por 28 mil quilômetros, como esperado, mas o meteoro russo roubou o espetáculo, caindo como bola de fogo entre os Montes Urais e explodindo em fragmentos, criando uma poderosa onda de choque que estourou vidraças, derrubou telhados e feriu 1,2 mil pessoas — a maior parte, vítima de vidros partidos.

Foi com certeza o meteoro mais intensamente documentado na História — capturado por inúmeros motoristas russos, com suas câmeras acopladas a celulares. O espetáculo marcou um dia extraordinário para o planeta. O objeto, que explodiu sobre a cidade industrial de Chelyabinsk, causou o maior impacto humano num século e foi o primeiro, nesse período, a provocar vítimas — ao menos 48 pessoas hospitalizadas.

O asteróide esperado há muito — o 2012 DA14 — passou por nós de modo inofensivo, como os cientistas haviam prometido. O texto a seguir é sobre ele, a mística e as ameaças reais representadas por objetos semelhantes.

Os observadores de asteróides que são sérios conhecem os grandes por nome, diâmetro, composição, órbita, giro e potencial perigo. Existe o Apophis, por exemplo, uma pedra maior que o Pentágono, que, em 13 de abril de 2029, passará tão perto da Terra que poderá ser visto a olho nu, a ponto de acelerar corações. Também há o Toutatis, do tamanho de uma montanha que está caindo, por sorte, a uma distância segura. E também o 2005 YU55, de 400 metros de comprimento, que passou próximo do planeta, a uma distância quase igual à da Lua, mais de um ano atrás.

E agora veio o 2012 DA14, uma pedra do tamanho de um prédio, que nesta sexta-feira zumbiu próximo da Terra, a uma distância de 27, 5 mil km. Não constituiu perigo. Não gerou brisa suficiente para perturbar um único grão de areia sob o sol. O DA14é pequeno demais para ser visto a olho nu. Apesar de passar bem dentro da órbita dos satélites de comunicação, a chance de atrapalhar o seu programa de televisão favorito era infinitamente remota.

Cientistas notaram que nunca havíamos detectados um asteróide tão grande passando tão perto de nosso planeta. A palavra chave aqui é “detectar”. Astrônomos têm ampliado sua habilidade em ver coisas que, apenas algumas décadas atrás, seriam invisíveis. O universo continua tornando-se mais claro, e parece ser mais confuso que os antigos admiradores de estrelas poderiam ter imaginado.

“Trinta anos atrás, nós não seríamos capazes de achar essa coisa,” disse Michael Busch, um astrônomo planetário no Rádio-Observatório Astronômico Nacional, em Socorro, Novo México, EUA. Busch estima que um objeto desse tamanho deve passar a essa distância da Terra a cada uma ou duas décadas, em média. O cientista é parte de um grupo de pesquisadores que usaram quatro telescópios, instalados entre a Califórinia e o Novo México, para escapar dos sinais de radar, na tentativa de entender como o DA14está girando. O tamanho e forma precisos do asteróide são incertos. Nos telescópios, o DA14é apenas um ponto brilhante. Isso vai mudar a partir de agora, quando os astrônomos tiverem-no observado aproximando-se e partindo.

O DA14 não é um asteróide antigo. É provável que seja remanescente de uma colisão no cinturão de asteróides, nos últimos milhões de anos, Busch diz. Tais rochas têm vida limitada: quando a luz do sol alcança suas superfícies desiguais, elas giram cada vez mais rápido, até finalmente explodirem, um processo conhecido como efeito YORP (uma homenagem aos cientistas que os estudaram: Yarkovsky, O’Keefe, Radzievskii e Paddack).

A maioria dos asteróides está num cinturão famoso, entre Marte e Júpiter. Alguns deles são tão grandes que chegam a ter suas próprias luas. Pelo menos dois asteróides orbitam o Sol na direção contrária de todo o resto do sistema solar. Alguns deles giram ordenadamente em um único eixo; outros, como o Toutatis, rolam caoticamente, como se alguém os tivesse chutado de modo distraído.

Qualquer asteróide que passe a uma distância de 50 milhões de quilômetros da órbita terrestre é considerado um Objeto Próximo da Terra (NEO, em inglês). Existem centenas de milhares de NEOs, e os cientistas acreditam que já mapearam aproximadamente 95% dos maiores NEOs — os que seriam muito perigosos para a civilização, se acertassem o planeta. Nenhum dos encontrados até agora está em rota de colisão com a Terra.

O único impacto conhecido de um asteróide de tamanho considerável na história humana ocorreu em 1908 — o “evento Tunguska”. Não está claro se o objeto chocou-se contra o solo ou explodiu na atmosfera. O impacto arrasou uma vasta área de floretas remotas na Sibéria. Pesquisadores disseram, em 2012, ter encontrado um pequeno lago que surgiu sobre a cratera aberta pelo impacto, mas isso ainda permanece controverso.

O visitante da semana, DA14, é levemente maior do que o meteoro [um meteoro é um asteróide que se choca com o planeta] que atingiu a região de Tunguska. Tais asteróides provavelmente atinjam a Terra apenas uma vez a cada 1200 anos, em média, estimam os cientistas.

Vista num período de tempo mais longo, a hipótese de um grande impacto torna-se certeza. Os asteróides são pacientes e operam em escalas temporais diferentes de nós, meros mortais. “Não é o tipo de coisa para entrar em pânico,” diz Davis Kring, um geólogo no Instituto Planetário Lunar de Houston, Texas, EUA. “Mas é uma ameaça real, e nós deveriamos tomar passos prudentes para compreender melhor o perigo. Quais são esses passos prudentes? Primeiro, um geológico — estudar o passado geológico e medir as consequências dos impactos anteriores.”

Por muito tempo, os geólogos negligenciaram tal fenômeno, porque eram intelectualmente relutantes a aceitar qualquer coisa que cheirasse a catastrofismo. A teoria do “uniformismo” enxergava o mundo em termos de processos lentos e graduais — uma visão que ajudou Charles Darwin a desenvolver sua teoria da evolução.

O catastrofismo retornou depois que a equipe pai-e-filho formada por Luis e Walter Alvares anunciou, em 1980, ter descoberto irídio em sedimentos que marcam o fim do Período Cretáceo, quando os dinossauros e metade das espécies do planeta desapareceram, em uma extinção em massa. Irídio é raro na Terra, mas relativamente comum em asteóides. Uma década depois, os cientistas disseram ter associado o impacto do fim do Período Cretáceo a uma grande cratera na península Yucatan, perto da cidade de Chicxulub, no México.

“Parte da força deste novo ponto de vista está em que um impacto relativamente pequeno, de um objeto de 16 quilômetros, foi capaz de redirecionar o curso da evolução,” diz David Morrison, cientista da NASA e grande apoiador do mapeamento dos NEOs. “Seu poder foi imenso,” diz ele. “Foi um objeto geologicamente muito pequeno, mas que teve impacto tremendo na biologia.”

Adormecendo em algum lugar na terra, erodidas, enterradas e aplainadas pelo tempo, há mega-crateras, remanescentes do que os cientistas chamam de Bombardeio Pesado Tardio, ocorrido cerca de 4 bilhões de anos atrás. Não sabemos se a vida já tinha aparecido quando pedras de 112 km chocaram-se contra o planeta; mas não era, provavelmente, uma boa época para estar vivo.

“Os oceanos fervem,” diz Jay Melosh, um geólogo na Universidade Purdue, especialista em crateras provocadas por impactos. “A maior parte dos oceanos evapora, forma-se uma atmosfera de vapor que dura milhares ou dezenas de milhares de anos e a superfície, é claro, torna-se imensamente hostil.”

O estudo das antigas crateras é, num certo sentido, reconfortante. Elas são difíceis de encontrar porque esse mundo não é um lugar estático, mas vivo e dinâmico. A cada vez que olhamos para a Lua — fria, cinza e cheia de crateras — vemos o que poderíamos ter sido.

Traducao de Gabriela Leite

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