A filha da Índia

Bruno Góis, Esquerda.net, 1 de janeiro de 2013

“Nada do que é humano me é estranho”1, é nisso que penso quando as mulheres da Índia se despedem do velho ano com homenagens a uma jovem de 23 anos, estudante de medicina, que faleceu na sequência de uma violação coletiva.

É uma terrível ironia que a Índia seja, dada a sua dimensão populacional, considerada a “maior democracia do mundo” e ao mesmo tempo seja também etiquetada como o pior lugar para se nascer mulher em todo o mundo.

Caracterizando a situação na Índia, mas não esquecendo que infelizmente todo o mundo nos merece atenção, os dados mais recentes sobre as diversas formas de violência de género na Índia reportam-se a 2011: o número de raptos de mulheres aumentou 19,4% face ao ano anterior, os assassinatos aumentaram 2,7%, crimes de tortura, 5,4%, assédio sexual, 5,8%, a violência física em geral, 122%.

De acordo com um estudo dos economistas Siwan Anderson e Debraj Ray são cerca de 2 milhões de mulheres indianas assassinadas por ano (12% são recém-nascidas, 25% são crianças, 18% são jovens e 45% adultas). E, de acordo com o Nobel da economia Amartya Sen, em três gerações, “desapareceram” mais de 50 milhões de mulheres na Índia.

Esta brutalidade demonstra a necessidade de criar fronteiras às pretensões do relativismo cultural acerca dos direitos humanos. Não deve, porém, esta caraterização da maior evidência da violência objetiva do patriarcado nalguns países e culturas servir de cavalo de Troia para a xenofobia.

A opressão e a exploração de género ocorre por todo o mundo. Só para falar dos casos mais extremos e do ano de 2012, as 39 mulheres vítimas mortais de violência de género em Portugal e as 46 mulheres vítimas de tentativa de assassinato2 não nos deixam esquecer que a filha da Índia mora aqui ao lado.

1 A expressão é atribuída Terêncio, dramaturgo e poeta romano, nascido em Cartago, que viveu entre cerca de 195 e 159 antes da era comum.

2 Números do Observatório de Mulheres Assassinadas/UMAR.

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