O mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado

After FailureA inútil Cúpula da Terra de junho, as medidas débeis agora em discussão em Doha, o projeto de lei sobre energia e o estudo sobre redução da demanda de eletricidade lançado na Grã-Bretanha na semana passada expõem o mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado: sua incapacidade para resolver a crise existencial da espécie. O legado de 1000 anos das atuais emissões de carbono é amplo o suficiente transformar em lascas qualquer coisa parecida com a civilização humana.

George Monbiot, The Guardian,  7 de dezembro de 2012

A maior crise da humanidade coincide com a ascensão de uma ideologia que a torna impossível resolver. Ao final dos anos 1980, quando se tornou claro que as mudanças climáticas provocadas pelo homem colocavam em perigo a vida no planeta e a humanidade, o mundo estava sob o domínio de uma doutrina política extrema, cujos princípios proibiam o tipo de intervenção necessária para enfrentá-las.

O neoliberalismo, também conhecido como o fundamentalismo de mercado ou economia laissez-faire, pretende libertar o mercado de interferência política. O estado, afirma, deve fazer pouco, mas defender o status-quo, proteger a propriedade privada e eliminar os obstáculos aos negócios. O que os teóricos neoliberais chamam encolher o estado mais parece com o encolhimento da democracia: a redução dos meios pelos quais os cidadãos podem restringir o poder da elite. O que eles chamam de “mercado” parece mais com os interesses das empresas e dos ultraricos (1) . O neoliberalismo parece ser pouco mais do que uma justificativa para a plutocracia.

A doutrina foi aplicada pela primeira vez no Chile, em 1973, onde ex-alunos da Universidade de Chicago, treinados nas receitas extremas de Milton Friedman e financiados pela CIA, trabalharam ao lado de Pinochet para impor um programa que seria impossível em um estado democrático. O resultado foi uma catástrofe econômica, mas na qual os ricos – que assumiram as indústrias chilenas privatizadas e os recursos naturais desprotegidos daquele país – prosperaram muito (2).

O credo foi adotado por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Foi imposto ao mundo pobre pelo FMI e pelo Banco Mundial. No momento em que James Hansen apresentou a primeira tentativa d etalhada para modelar temperatura futura para o Senado dos EUA, em 1988 (3), a doutrina estava sendo implantada em toda parte.

Como vimos em 2007 e 2008 (quando os governos neoliberais foram forçados a abandonar seus princípios para salvar os bancos), dificilmente poderia haver pior conjunto de circunstâncias para enfrentar uma crise de qualquer tipo. Até que não tenha mais escolha, o estado neoliberal, que carrega o ódio de si mesmo, não vai intervir, mesmo que a crise se agudize a as consequências se agravem. O neoliberalismo protege os interesses da elite contra todos.

Prevenção do colapso climático: os quatro, cinco ou seis graus de aquecimento agora previstos para este século por “extremistas verdes” como o Banco Mundial, a Agência Internacional de Energia e a PriceWaterhouseCoopers (4, 5, 6) – implicam enfrentar as indústrias do petróleo, gás e carvão. Isso significa forçar estas indústrias a abandonar 4/5 ou mais das reservas existentes de combustíveis fósseis, as quais não poderemos nos dar ao luxo de queimar (7). Significa cancelar a prospecção e desenvolvimento de novas reservas – para que, se não podemos usar nem os estoques atuais? – e reverter a expansão de qualquer infraestrutura (tal como de aeroportos) que não possa vir a ser operada sem estes combustíveis.

Mas o estado que se auto-odeia não pode agir. Capturado por interesses que à democracia espera-se que contenha, só pode sentar na estrada, de orelhas em pé e bigodes eriçados, esperando ser atropelado pelo caminhão que se aproxima. O confronto é proibido, a ação é um pecado mortal. Talvez se possa dispersar algum dinheiro para energia renovável, mas não legislar contra o velho.

Assim, Barack Obama persegue o que chama de politica de “todos os itens acima”: promoção da energia eólica, petróleo, energia solar e gás (8). Ed Davey, o secretário britânico de mudança climática, na semana passada lançou um projeto de lei que dispõe sobre energia no parlamento britânico cuja finalidade era descarbonizar o fornecimento de energia. Mas no mesmo debate prometeu “maximizar o potencial” de produção de petróleo e gás no Mar do Norte e de outros campos offshore (9).

Lord Stern descreveu a mudança climática como “a maior e mais abrangente falha de mercado jamais vista” (10). A inútil Cúpula da Terra (Rio+20) de junho; as medidas débeis agora em discussão em Doha, o projeto de lei sobre energia (11) e o estudo sobre redução da demanda de eletricidade (12) lançado na Grã-Bretanha na semana passada (melhor do que poderiam ter sido, mas incomensurável à escala do problema) expõem o mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado: sua incapacidade para resolver a crise existencial da espécie.

O legado de 1000 anos das atuais emissões de carbono é amplo o suficiente transformar em lascas qualquer coisa parecida com a civilização humana (13). Sociedades complexas, por vezes, sobreviveram à ascensão e queda de impérios, pragas, guerras e fome. Mas não sobreviverão a seis graus de mudança climática sustentada por um milênio (14). Em troca de 150 anos de consumo explosivo, muito do qual nada contribuiu para o avanço do bem estar humano, estamos destruindo o mundo natural e os sistemas humanos que dele dependem.

A Cúpula do Clima (ou sopé), em Doha, e o som e a fúria das novas medidas do governo britânico sondam os limites atuais de ação política. Ir mais longe é quebrar a aliança com o poder, uma aliança tanto disfarçada quanto validada pelo credo neoliberal.

O neoliberalismo não é a raiz do problema: é a ideologia usada, muitas vezes retrospectivamente, para justificar a tomada global de poder, bens públicos e recursos naturais por uma elite desenfreada. Mas o problema não pode ser resolvido até que a doutrina seja desafiada por alternativas politicas eficazes .

Em outras palavras, a luta contra as alterações climáticas – e todas as crises que agora afligem os seres humanos e o mundo natural – não pode ser vencida sem uma ampla luta política: a mobilização democrática contra a plutocracia. Eu acredito que esta deve começar com um esforço de reforma do financiamento de campanha: o meio pelo qual as corporações e os muito ricos compram politicas e políticos. Alguns de nós lançaremos uma petição no Reino Unido nas próximas semanas, e eu espero que você a assine.

Mas este é apenas um começo. Temos de começar a articular uma nova política: uma que veja a intervenção como legítima, que contenha um propósito maior do que a emancipação corporativa disfarçada de liberdade de mercado, que coloque a sobrevivência das pessoas e do mundo vivo acima da sobrevivência de algumas indústrias favorecidas. Em outras palavras, uma política que nos pertença, e não apenas aos superricos.

Notas:
(1) See Colin Crouch, 2011. The Strange Non-Death of Neoliberalism. Polity Press, Cambridge.

(2) Naomi Klein, 2007. The Shock Doctrine: the rise of disaster capitalism. Allen Lane, London.

(3) http://www.nytimes.com/1988/06/24/us/global-warming-has-begun-expert-tells-senate.html

(4) Potsdam Institute for Climate Impact Research and Climate Analytics, November 2012. Turn Down the Heat: why a 4C warmer World Must be Avoided. Report for the World Bank.

(5) http://thinkprogress.org/climate/2011/11/09/364895/iea-global-warming-delaying-action-is-a-false-economy/

(6) PriceWaterhouseCoopers, November 2012. Too late for two degrees? Low carbon economy index 2012. http://www.pwc.co.uk/sustainability-climate-change/publications/low-carbon-economy-index-overview.jhtml

(7) http://www.monbiot.com/2011/07/19/an-underground-national-park/

(8) http://www.barackobama.com/energy-info/

(9) Publications/Parliament UK

(10) http://www.publications.parliament.uk/pa/bills/cbill/2012-2013/0100/130100.pdf

(11) Nicholas Stern, 2006. The Economics of Climate Change.
http://www.hm-treasury.gov.uk/d/Executive_Summary.pdf

(12). http://www.decc.gov.uk/assets/decc/11/consultation/electricity-demand-reduction/7075-electricity-demand-reduction-consultation-on-optio.pdf

(13) Susan Solomon, Gian-Kasper Plattner, Reto Knutti, and Pierre Friedlingstein, 10th February 2009. Irreversible climate change due to carbon dioxide emissions. PNAS, vol. 106, no. 6, pp1704–1709. doi: 10.1073/pnas.0812721106. http://www.pnas.org/content/early/2009/01/28/0812721106.full.pdf+html

14. Estou falando vagamente aqui, como Solomon et al propuseram que não 100%, mas cerca de 40% do CO2 produzido neste século permanecerá na atmosfera até pelo menos o ano 3000. Por outro lado, as emissões desenfreadas e o aquecimento global não vão parar por conta própria em 2100: as temperaturas poderão subir muito além de 6 oC no próximo século: sem mitigação afiada agora, estamos criando 1.000 anos de caos absoluto.

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