EUA vivem debate acirrado sobre gás de xisto

Global-Shale-Gas-BasinsHá uma década, o xisto respondia por apenas 1% da produção de gás natural no país. Hoje, está perto de 29%.

Alex Ribeiro, Valor Economico, 12 de dezembro de 2012

Num filme que entra em cartaz na última semana deste mês, “Terra Prometida”, o ator Matt Demon faz o papel de um representante de uma companhia petrolífera que convence agricultores de um vilarejo na Pensilvânia a venderem o direito de explorar gás em suas terras. O solo e a água são contaminados por vazamentos de produtos químicos e Demon, que se apaixona por uma ambientalista local, fica dividido entre sua carreira e o futuro da comunidade atingida.

Esse é o mais recente ataque de Hollywood à extração de gás de xisto nos Estados Unidos, que para muitos por aqui é uma séria ameaça ao meio ambiente. Outros dizem que o recurso natural, se explorado de forma consciente, pode garantir autossuficiência a um país com apetite quase insaciável por combustíveis fósseis, além de ser uma fonte de energia mais limpa e barata que vai ajudar a reduzir as emissões de gases que provocam o efeito estufa. As discussões que acontecem por aqui são um exemplo para o Brasil, que engatinha na exploração de uma das maiores reservas do mundo.

A extração de gás de xisto tem sido associado nos Estados Unidos à contaminação de água de rios e poços artesianos, à poluição do ar e até a pequenos tremores de terra. Especialistas reconhecem que há riscos ambientais, mas dizem que eles podem ser controlados a níveis seguros com a adoção de regulação adequada e o uso das melhores práticas na produção. “Se for feito direito, a exploração do gás de xisto tem impacto ambiental mínimo”, afirma Philip Verleger, especialista em energia do Peterson Institute for International Economics, um centro de estudos de Washington.

No território americano, quem regula a exploração de gás e petróleo são os Estados. O presidente Barack Obama vê o gás natural como uma alternativa mais limpa para substituir o carvão na produção de energia elétrica e, até agora, tem se mantido relativamente afastado da polêmica ambiental. “Acho muito improvável que o governo Obama vá se mover para uma regulação extensiva da exploração de gás”, afirma Nitzan Goldberger, analista de política energética americana na Eurasia Group, uma consultoria de risco político de Nova York. O apoio de Obama ao gás natural garantiu votos de áreas produtoras, como Pensilvânia e Ohio, cujos colégios eleitorais têm peso muito grande na eleição de presidentes americanos.

Há reservas de gás de xisto em 48 Estados americanos. O Texas, que tem uma indústria petrolífera com larga tradição, foi o primeiro a furar poços, adotando uma revolucionária técnica que injeta água e produtos químicos no solo. A nova fronteira é uma gigantesca reserva chamada de Marcellus Shale, que cobre largas porções rurais de Nova York, Pensilvânia, Ohio, Maryland e Virgínia do Oeste. Esse é considerado o jardim e fonte de água pura pelas populações de alguns dos maiores conglomerados urbanos dos Estados Unidos, como Nova York e Philadelphia.

Há quatro anos, o Estado de Nova York decretou uma moratória na exploração, enquanto faz estudos para avaliar os riscos. Já foram elaborados dois relatórios de impacto ambiental, os quais receberam mais de 80 mil comentários, e agora o governador democrata do Estado, Andrew Cuomo, anuncia que quer ouvir a opinião de mais um grupo de especialistas. Ele está dividido entre atender as demandas do interior do Estado, que quer os investimentos e empregos prometidos pela indústria de gás, e ser castigado pelos ambientalistas das grandes cidades. No Canadá, a província de Quebec também declarou suspensão na exploração e revogou licenças já concedidas, no ano passado.

Os Estados Unidos têm 14 trilhões de metros cúbicos em reservas de gás de xisto, que alguns cálculos indicam que podem durar 100 anos, concentradas sobretudo em sete grandes depósitos, entre eles o de Marcellus Shale. Há uma década, o xisto respondia por apenas 1% da produção de gás natural no país. Hoje, está perto de 29%.

Os grandes depósitos de gás de xisto são conhecidos há muito tempo, mas eles ficam presos dentro de rochas a só se tornaram economicamente viáveis há alguns anos, com o desenvolvimento de uma ambientalmente polêmica técnica chamada de fratura hidráulica. Como o próprio nome diz, a técnica consiste basicamente em fraturar – ou seja, quebrar – rochas de xisto no subsolo para liberar o gás armazenado dentro delas, usando sobretudo água bombeada com alta pressão, junto com produtos químicos.

Em Marcellus Shale, tipicamente é perfurado um poço em sentido vertical até atingir uma profundidade de pouco mais de 1,5 quilômetro. Lá embaixo, a sonda muda de direção e segue cavando o poço no sentido horizontal por alguns quilômetros. O passo seguinte é bombardear as rochas com uma mistura composta por cerca de 90% de água, 9,5% de areia e 0,5% de materiais químicos. Quando a rocha quebra, é liberado o gás que estava preso em minúsculos depósitos. A areia serve para manter as fissuras abertas e permitir a liberação contínua do gás. A pressão do gás liberto faz com que boa parte da água e dos produtos químicos injetados no subsolo retorne à superfície, pelo poço perfurado, num movimento de refluxo.

O principal risco ambiental é a contaminação da água. Ambientalistas afirmam que muitos dos produtos químicos usados nas fraturas hidráulicas são mantidos em segredo pela indústria petrolífera. Algumas pesquisas independentes apontam que são usadas substâncias cancerígenas, ainda que em pequenas quantidades, e acredita-se que o processo de fratura hidráulica libere materiais radioativos que estão presos nas rochas de xisto.

“GasLand”, um documentário de 2010 que chegou a ser indicado para o Oscar, mostra algumas das piores imagens supostamente causadas pela exploração de gás de xisto. O diretor do filme, Josh Fox, foi criado num sítio na Pensilvânia e recebeu uma oferta de US$ 100 mil de uma companhia petrolífera para ceder o direito de exploração na propriedade da família. Curioso, ele vai conferir o que aconteceu com proprietários rurais que aceitaram o negócio. No filme, são entrevistados fazendeiros vizinhos a torres de exploração que exibem água encardida com produtos químicos retirada de seus poços artesianos. Exames em laboratório encomendados por Fox confirmaram a presença de agentes tóxicos. Numa das cenas do documentário, ele põe fogo na água misturada com gás que jorra de uma torneira.

Esses não são casos isolados, sugere uma criteriosa reportagem da ProPublica, uma organização não governamental que faz jornalismo independente. As investigações em tribunais e repartições públicas mostram mais de mil registros de casos de contaminação de água ligadas a gás de xisto nos Estados Unidos.

Em tese, há três grandes riscos ambientais associados com a exploração de gás de xisto. Um deles é a fratura das rochas se espalhar por outras camadas, chegando aos lençóis subterrâneos de água. Os cientistas afirmam que, embora não seja impossível, esse é um risco muito pequeno. Os lençóis de água ficam nas camadas mais superficiais do solo, separadas por centenas de metros da camada de xisto.
Outro risco é a mistura de água e produtos químicos expulsa das rochas contaminar os lençóis freáticos durante o movimento de refluxo pelo poço. A indústria de gás afirma que, se o poço for bem cimentado, esse risco é minimizado. Mas não é eliminado. O vazamento do poço da BP no Golgo do México foi causado por um poço mal cimentado. Um terceiro grupo de risco é o manejo da água e dos produtos químicos na superfície do poço. Vazamentos causados por armazenamento inadequado, acidentes ou mesmo por grandes tempestades podem descer ao lençol freático pela terra ou contaminar poços artesianos, rios e lagos.

Outra preocupações é o uso intensivo de água no processo de fratura. As estimativas indicam que, no caso de Marcellus Shale, são usados perto de 20 milhões de litros de água por poço perfurado. Os números chegam a proporções gigantescas caso se considere que é esperada a abertura de um milhão de poços no mundo todo. A indústria está desenvolvendo técnicas para limpar a água, mas mesmo quando o processo é bem feito ela não é própria para beber.

Até 2005, o risco da extração de xisto aos recursos hídricos estava sujeito à fiscalização federal da Agência de Proteção Ambiental (EPA). Mas o vice-presidente do governo George W. Bush, Dick Cheney, patrocinou uma lei que exime a indústria de petróleo de uma lei federal de proteção aos recursos hídricos. Hoje, a EPA regula basicamente os impactos da exploração de petróleo e gás sobre a qualidade do ar.

“Os riscos ambientais, por enquanto, parecem administráveis e exigem as melhores práticas pela indústria na extração e um monitoramento próximo pelos governos, especialmente pelos estaduais”, afirma Guy Caruso, consultor sênior para energia e segurança nacional do Center for Strategic and International Studies (CSIS), um centro de estudos de Washington. “O papel do governo federal provavelmente será secundário.”

Política de exportação agita bastidores de Washington

12/12/12 – Os lobistas da indústria de gás natural e os dos grandes consumidores do combustível travam uma batalha nos bastidores de Washington para determinar a política nacional de exportação do produto. Para muitos, o gás do xisto poderá alimentar o renascimento industrial dos Estados Unidos, enquanto outros fazem acusações de protecionismo.

O Departamento de Energia, órgão americano que equivale a um ministério no Brasil, suspendeu a concessão de licenças para a construção de novas instalações para liquefação de gás voltada à exportação. O governo Barack Obama quer, primeiro, avaliar os impactos econômicos da exportação maciça de gás.

Atraídas pelo gás barato, várias empresas estão investindo nos Estados Unidos. Um dos exemplos mais comentados é da Methanex Corporation, que havia fechado suas unidades químicas em território americano em 1999. Agora, está desmontando suas instalações no Chile para transferi-las para a Louisiana.

Com a revolução na exploração nas camadas de xisto, o gás natural custa hoje em torno de US$ 3,50 por mil metros cúbicos, bem baixo dos preços entre US$ 12 e US$ 16 vigentes na Europa e Ásia. “As empresas americanas tem uma grande vantagem competitiva”, afirma Raoul LeBlanc, diretor sênior da PFC Energy, uma consultoria global em petróleo e gás.

Além de beneficiar setores que usam gás natural diretamente, os baixos preços também contribuem para reduzir os custos da eletricidade, já que o combustível é usado em usinas termelétricas. De forma geral, os analistas afirmam que esses preços deprimidos não vão prevalecer no médio e longo prazo. Nos últimos anos, houve uma certa euforia em torno da exploração de gás natural, levando ao excesso de investimento, que jogou os preços para abaixo de US$ 2 por mil metros cúbicos. Agora, os preços começam a se recuperar.

“Muitas projeções indicam que os custos vão subir ao longo do tempo para entre US$ 5 e US$ 7”, afirma Guy Caruso, consultor sênior para energia e segurança nacional do Center for Strategic and International Studies (CSIS), um centro de estudos de Washington. “Ainda assim, continuará bastante competitivo em níveis globais.”

Essa vantagem, porém, pode se evaporar rapidamente se a indústria de gás passar a exportar grandes volumes. Nesse caso, os preços seriam ditados pelas cotações do mercado internacional, e não mais pela oferta e demanda dentro do mercado americano. Preços mais altos, por outro lado, incentivariam ainda mais investimentos para ampliar a produção de gás e gerariam mais receita para bancar importações.

Em Washington, a divisão é entre os protecionistas, que acham que o gás pode servir de esteio a uma política manufatureira, e os advogados do livre comércio, que defendem a tese de que os Estados Unidos saem ganhando se usarem as suas vantagens comparativas.

“O governo Obama vai se mover para aumentar a exportação de gás, mas apenas uma parcela dele, devido aos receios de os preços subirem muito”, afirma Nitzan Goldberger, analista de política energética americana na Eurasia Group, uma consultoria de risco político de Nova York.

Em tese, a vantagem competitiva americana criada pelo gás barato tende a se reduzir ao longo do tempo, na medida em que outros países com vastas reservas de xisto comecem a explorá-las. A China tem volumosas reservas, assim como países como o Reino Unido, Argentina e o Brasil.

Philip Verleger, especialista em energia do Peterson Institute for International Economics, um centro de estudos de Washington, defende a tese de que os Estados Unidos têm outras vantagens que possibilitarão a exploração do gás mais barato. Ele está escrevendo um livro sobre o gás natural cujo título será “Somente na América”. O gás de xisto tipicamente é explorado por pequenas empresas, com estruturas de custo mais leves do que as grandes do setor petrolífero. “Grandes empresas, como a Exxon e a Petrobras, têm suas fichas depositadas em exploração de alto custo”, afirma ele. O alto grau de desenvolvimento do mercado financeiro americano, argumenta, é outro fator único que permite às empresas levantar recursos mais baratos para seus investimentos e fazer seguros contra riscos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: