A mesma retórica, apenas, não resolverá

Washington Novaes, O Estado de S.Paulo, 7 de dezembro de 2012

Em debate acadêmico em Porto Alegre entre economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – Marcos Antonio Macedo Cintra – e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – Maryse Farhi -, há poucas semanas, o primeiro chamou a atenção para o cenário do mundo, hoje. Apontou para um século 21 de “domínio asiático” e de “consequências apavorantes” para a América Latina, já que “os chineses precisarão de um mundo que apenas forneça alimentos e matéria-prima para o seu consumo interno, que chegará a 4 bilhões de pessoas na classe média em 2020”. Isso condenaria o Brasil, na relação com a China, à posição de exportador de alimentos e matérias-primas e importador dos produtos da revolução tecnológica chinesa.

Inquietante, ainda mais considerando (Estado, 19/11) que a China já se vai tornando o principal destino agrícola brasileiro, para onde convergem 24,3% dos produtos agrícolas que exportamos no primeiro semestre – destino que poderá superar a Europa (32,9%) ainda neste ano, com a soja representando 66,7% do total. Mas não é somente a China. O consumo dos países emergentes passará de um terço do total para dois terços até meados do século, segundo relatório do banco HSBC, invertendo as posições com o mundo desenvolvido. Até mesmo no consumo de energia os países mais ricos, que hoje usam 76% do total, cederão o primeiro posto aos emergentes (55%). Mas, de certa forma, questões de hoje só mudarão de lugar, uma vez que os 10% de domicílios das famílias mais ricas na China já têm 57% da renda e 85% da riqueza (Folha de S.Paulo, 28/10).

A chefe do governo alemão, Angela Merkel, não vê possibilidade de o quadro de crise dos atuais desenvolvidos encontrar solução antes de cinco anos (Agência Estado, 4/11). Celso Ming, neste jornal (8/11), ao comentar “o tamanho do abismo”, lembra que o déficit do Tesouro norte-americano, de US$ 14,3 trilhões, pode avançar para US$ 16,4 trilhões. O produto interno bruto (PIB) europeu em quatro anos poderá estar negativo em 2,5% (Estado, 16/11). Quase 60% dos jovens gregos até 24 anos já estão desempregados; na Espanha, 50%.

Que receitas estão na pauta, aqui e lá fora? Apenas generalidades, como “ampliar investimentos” e “reduzir despesas governamentais” – mas não com juros, que o setor financeiro não aceita, nem com previdência, saúde, desemprego, etc., que os setores menos privilegiados repudiam. E um relatório do Fundo de População da ONU adverte que o panorama se complicará ainda mais, com as pessoas acima de 60 anos de idade chegando, em 2015, a um número maior que o dos menores de 15 anos – o que significará também “desafios nas áreas de saúde, aposentadorias, etc.” (Página 22, 21/11). A população mundial conterá 1 bilhão de idosos daqui a uma década, com mais 178 milhões se somando aos 810 milhões de hoje (Estado, 2/10). A cada dois segundos, são mais duas pessoas nos 60 anos. Com a agravante de que em mais de cem países esse quadro será simultâneo com o da pobreza e da miséria (fora o aumento populacional global de 2 bilhões de pessoas até 2050).

No Brasil os idosos respondem por quase 20% da renda total. Ainda assim, a Previdência terá muitas questões a enfrentar: 15 milhões de idosos (ou 76%) recebem benefícios da Seguridade Social, embora 35% dos aposentados ainda trabalhem – inclusive porque nos lares onde vivem contribuem com 64,5% dos rendimentos familiares (Folha de S.Paulo, 12/10). E empresas devem R$ 17,5 bilhões ao FGTS (Estado, 10/10).

É certo que se poderá contar aqui com fatores favoráveis, como o de que, segundo a Pnad, a população nacional começará a cair em 2030 (e não mais em 2040), já que a taxa de fecundidade, 1,7 filho por mulher, está menor que a taxa de reposição – duas crianças por casal. E a fecundidade cai em todas as faixas. Os adolescentes, que eram 91 para 1.000 vivos, hoje estão em torno de 50. Isso significa também que haverá menor necessidade de oferta de empregos. Com o adicional de que a qualificação melhora, 49% das pessoas que trabalham tendo ensino médio completo. A revisão do IBGE aponta para 219 milhões de habitantes em 2039.

Quadro complexo é o da área agrícola, na qual 14,7 milhões do total de 29,3 milhões (15% da população total) trabalham no campo (Agência Brasil/Pnad), gerando 22,2% do PIB. É área próxima à da pobreza, em que, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, 17,2 milhões pertencem a famílias com renda per capita familiar até R$ 140; e, destas, 12,7 milhões recebem Bolsa-Família. De qualquer forma, pela primeira vez apenas 1% dos 49 milhões de domicílios no País são da classe E. Há 20 anos eram 13% dos domicílios e em 2001 chegavam a 10%. Hoje são 3,6% da população, 7 milhões de pessoas.

Se a situação social brasileira avança, o quadro mundial da pobreza segue difícil. Diz a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 22/11) que a fome continua presente na vida de 49 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe, embora 16 milhões tenham ascendido em 20 anos; 16 dos 33 países da região têm mais de 10% de sua população entre os famintos. Entre eles, Haiti (44,5%), Guatemala (30,4%), Paraguai (25,5%), Bolívia (24,1%) e Nicarágua (20,1%). Ainda que – repete-se pela centésima vez – o mundo desperdice a cada ano um terço dos alimentos produzidos. E será preciso produzir mais, pois temos 870 milhões de pessoas que passam fome e mais 2 bilhões de habitantes sobrevirão até 2050. Sobrecarregando a área agrícola, que já responde por 30% do total da energia consumida no mundo e 70% da água usada.

Para concluir, alerta a FAO (30/5): “Não haverá desenvolvimento sem erradicar a fome”. Mas no novo mundo que se configura, Ocidente em crise, Oriente em ascensão, mas segundo padrões semelhantes (o ex-ministro Delfim Netto apelidou o novo modelo de “Engana”, mistura de England com Gana), por onde se poderá caminhar? E o Brasil, nessa conjuntura específica, que fará, escapando à retórica antiga, esgotada?

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