Para a vitória não se transformar em derrota: o PSOL e as eleições municipais de 2012

Freixo na Lapa

Coordenação Nacional do Enlace, novembro de 2012

Nas eleições municipais, os grandes blocos nacionais em disputa – o governo social-liberal e os partidos que o apoiam, a oposição de direita e a oposição de esquerda – se enfrentam num contexto em que pesam, para além das polarizações nacionais, questões locais variadas.

Na geleia geral da política brasileira, os 29 partidos participantes do pleito normalmente se aliam ou se enfrentam em cada cidade ao sabor de um pragmatismo rasteiro, sem qualquer coerência de projetos – ou, colocando de outra maneira, quase todos compartilham da aceitação, com diferentes nuances, do marco geral neoliberal, ainda que o interpretando de maneira mais doutrinária (os tucanos) ou mais flexível (os petistas).

Mesmo que limitada por essa geleia geral, uma avaliação é necessária porque permite perceber as relações de forças políticas na sociedade, os eventuais realinhamentos, os espaços de atuação e as possibilidades para a disputa geral de 2014.

O bloco governista: as vitórias que já viraram derrotas há muito tempo!

No campo do governismo, em que pesem fracassos em cidades importantes como Porto Alegre, Belém, Recife, Salvador e Fortaleza, o PT saiu fortalecido do processo eleitoral. A razão para esta avaliação, apontada por quase todos os analistas, foi o resultado no Estado de São Paulo – e não apenas na capital; o PT governará cidades que representam 45% da população do Estado, o dobro do PSDB.

São Paulo foi decisivo para o destaque do PT: foi o partido mais votado para prefeito no primeiro turno, com 17,2 milhões de votos válidos (16,79%), elegeu a segunda maior quantidade de vereadores, 5.067 (cresceu 22%) e irá administrar municípios que juntos tem 27,6 milhões (20%) de eleitores e 77,7 bilhões reais de orçamento (22,8% do total dos municípios).

No entanto, isso não significou um deslocamento à esquerda do eleitorado – na maioria das vezes o PT concorreu se utilizando de grandes máquinas, com alianças à direita, sem qualquer afirmação de um projeto de esquerda. Restringiu-se, como regra, à defesa dos governos Lula e Dilma, e no mais das vezes com candidaturas conservadoras (chegando ao extremo de ter eleito no RJ dois vereadores que supostamente têm relações com as milícias!).

O resultado irrisório do PT em Porto Alegre e Belém – historicamente duas referências de administrações locais em que o chamado “modo petista de governar” mais avançou – e a vitória de Fernando Haddad de braços dados com Maluf são o retrato do petismo cada vez mais conservador que sai das urnas. Além disso, o PT foi derrotado em cidades em que Lula foi pessoalmente apoiar os candidatos do partido. Isso ajuda a demonstrar que um histórico de vitórias eleitorais da “esquerda” pode se tornar uma derrota para um projeto socialista, se decidir trilhar os caminhos do jogo viciado da política tradicional.

Dentro do bloco governista, a vitória de Eduardo Paes no Rio de Janeiro estabiliza a situação do PMDB. Mas ocorreram disputas intensas entre PT e PSB, todas com desfechos positivos para este último: Recife, Belo Horizonte, Fortaleza, Campinas, Cuiabá. Há movimentos de reacomodação e disputa de espaço entre este partido e o PMDB. Especula-se, na mídia, qual papel o PSB poderá ter em 2014.

A oposição de direita enfraquecida

O PSDB irá governar cidades com 18,3 milhões (13,24%) eleitores e os Democratas 6,4 milhões (4,6%), o que demonstra uma tendência à diminuição de suas forças, mesmo que esse campo se mantenha com um peso relevante na política nacional.

No entanto, as derrotas sofridas no Estado de São Paulo podem desencadear mudanças para a oposição de direita – já que o PSDB paulista era até então seu centro de articulação nacional.

Ao que parece, o centro da oposição de direita se deslocará para o Estado de Minas Gerais, sob liderança de Aécio Neves, que desenvolveu uma política com alguma diferença em relação ao PSDB paulista, costurando alianças que perpassaram partidos da base governista.

Outra dúvida é se o projeto Marina vingará. Ao que parece, o sucesso governista nas eleições levou ao adiamento de sua pretensão em concorrer à Presidência da República.

O resultado para a oposição de direita sugere que a política do PT em estruturar um “Centrão político” absorvendo grande parte das legendas de direita fisiológicas e de aluguel diminuiu espaços de atuação autônoma para as correntes de direita, cuja pauta política fica restrita à denúncia da corrupção. Nas poucas vezes que a oposição de direita buscou uma disputa mais clara de projetos nos últimos anos, ela o fez em parceria com setores mais conservadores do bloco governista – Código Florestal, PLC 122 que criminaliza a homofobia, royalties para a educação…

Uma vez que se esvazia qualquer polarização entre o governo e a oposição de direita, a confrontação de projetos para o Brasil só pode ser pela esquerda, e que cabe ao PSOL assumir este protagonismo.

PSOL: a nossa força é a coerência!

O PSOL, pela pluralidade de visões que o compõe, se apresentou com candidaturas de perfis bastante diferentes nestas eleições municipais. Algumas candidaturas foram mais moderadas, centradas no discurso da ética na política, enquanto outras apostaram em perfis insurgentes que defenderam o direito à cidade para os explorados e oprimidos e se confrontaram com os interesses das empreiteiras, imobiliárias e grandes conglomerados empresariais.

Mas, independentemente do perfil apresentado, as candidaturas do PSOL tiveram um resultado eleitoral muito positivo, sobretudo se compararmos a 2008, quando tivemos de 1 a 2% nas capitais. O PSOL foi o partido que apresentou o maior crescimento de votação para prefeito/a comparando-se as eleições de 2008 e 2012, ficando à frente até mesmo de partidos com maior visibilidade com o PV e PC do B.

O resultado positivo do partido no país foi obtido, com maior destaque, no Rio de Janeiro, onde alcançamos mais de 900 mil votos (dos 2,3 milhões de votos conquistados em todo o país). Mas também pelo país afora: 12 % em Fortaleza – enfrentando outras seis candidaturas com viabilidade eleitoral e as máquinas dos governos municipal, estadual e federal; 4,5% em Belo Horizonte – enfrentando candidaturas consolidadas do PT, que apresentou um quadro histórico e com alguma imagem de esquerda, e do PSTU, que concorreu em outros pleitos com nosso apoio; a importante reeleição dos dois vereadores em Porto Alegre, mesmo com Luciana Genro fora do pleito; os surpreendentes 15% em Florianópolis; o fenômeno de 18% em Niterói – onde o partido elegeu a segunda maior bancada na Câmara da cidade. A estes números se juntam tantos outros: Sorocaba com 15%, Pelotas com 13%, 12,5% em Juazeiro do Norte, Feira de Santana, Etc. E, é claro, a eleição do prefeito de Itaocara (RJ) e a ida para o segundo turno em Belém e Macapá.

Seria um equívoco dizer que o sucesso eleitoral do PSOL no primeiro turno se deu graças a um ou outro perfil de candidatura local adotado nas eleições, porque o resultado foi muito espalhado por todo o país. Refletiu, antes, um processo de construção nacional como uma opção de esquerda coerente ao colapso do projeto petista e daqueles que gravitavam ao seu redor. É importante assinalar que, ainda que o DN-PSOL tivesse aprovado uma política de alianças excessivamente “ampla”, o PSOL, na grande maioria das vezes, e inclusive onde teve melhores resultados eleitorais (exceto em Belém e Macapá, que foram, neste aspecto, exceções), se apresentou com cara própria ou em aliança com PSTU ou PCB – portanto sem alianças com partidos de direita ou com partidos de aluguel.

O sucesso do PSOL foi pavimentado por nossa coerência: na campanha do Plínio em 2010, que retomou bandeiras históricas dos movimentos sociais abandonadas pelo PT, em especial a centralidade da luta pela igualdade social; na atuação da nossa bancada, que teve papel central em disputas no Congresso: contra o Código Florestal, em defesa do PLC 122 que criminaliza a homofobia, contra a privatização da previdência, na CPMI do Cachoeira…; na coerência da nossa aguerrida militância na retomada das mobilizações sociais do último ano, na greve das Universidades Federais, dos servidores/as Federais, d@s profissionais da educação básica, de bombeiros e PMs. Da luta pela terra e territórios à Marcha da Maconha e a luta contra Belo Monte, a militância do PSOL esteve presente em tudo o que se moveu.

Esta foi, também, uma eleição com um peso crescente das mídias sociais, o que tornou possível, em muitos momentos, furar o bloqueio da mídia corporativa, dando voz a uma nova geração que se coloca em movimento, e não viveu a derrota de apostar no PT e ver seus sonhos de mudança se frustrarem. Soubemos catalisar a enorme disposição para construir o novo de uma nova geração que emerge para a política.

As eleições demonstraram que há um espaço importante para o PSOL se apresentar como esquerda coerente e renovada, sem buscar compensar limites no seu enraizamento social pela adesão ao jogo viciado da velha política entre partidos da ordem ou pelas alianças fisiológicas que descaracterizam seu projeto.

Da Primavera Carioca à Fortaleza Insurgente: o caminho para a esquerda socialista

De todas as experiências do PSOL nesta eleição, a que mais se destacou foi a do Rio de Janeiro, que também contribuiu, pela sua repercussão nas mídias sociais, para a afirmação do PSOL em outras cidades do país.

A campanha no Rio de Janeiro aconteceu num contexto particular: todas as forças do Capital se aliaram em um projeto comum para a Cidade – que tem pela frente o calendário da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. A candidatura de Eduardo Paes contou com uma aliança de vinte partidos, a mídia, as igrejas fundamentalistas, as milícias e as grandes corporações.

Mas, apesar desse enorme consenso, que incluía o PT e PC do B, existia espaço para uma oposição à esquerda. Distintas visões estavam presentes no interior do PSOL-RJ sobre como a nossa candidatura deveria se apresentar. Muit@s entendiam que deveríamos apresentar um novo Gabeira, com algum verniz de esquerda. Isso pressupunha uma campanha tradicional, facilmente palatável para as maiorias conservadoras.

Felizmente esse perfil não se estabeleceu. A campanha foi se tornando crescentemente militante: em cada bairro, foram se formando comitês de campanha com 30, 40, 50 pessoas, na maioria jovens – e que, em sua maioria, não tiveram qualquer experiência de participação política anterior. A campanha não se contentou em construir uma candidatura personalista, mas soube transformar o carisma de Marcelo Freixo em movimento vivo. Os comitês cumpriram o papel pedagógico de formar uma nova geração de lutadores/as. Ao final de três meses, milhares de jovens assumiram nossas formulações sobre o direito à cidade, construíram uma visão mais à esquerda e humana, e se tornaram militantes prontos para se engajarem nas intensas lutas que se avizinham na cidade.

Essa foi a força viva sentida nas praças abarrotadas e nas redes sociais: os três mil jovens que compareceram a uma plenária da juventude, os quinze mil que compareceram a um comício na Lapa, sob uma chuva torrencial. Mas essa campanha vitoriosa só foi possível por um longo processo de construção política, que passou pela eleição de Freixo em 2006, pelas campanhas de Chico e Marcelo em 2010 e pela organização da plenária dos movimentos sociais. É a comprovação prática de que, para se ter um resultado com substância, o PSOL deve apostar com perseverança em um processo de reorganização da esquerda feito à quente, nas lutas sociais – que não pode ser substituído por nenhum atalho no viciado jogo da política partidária brasileira.

Sem os movimentos sociais, não teríamos uma coluna vertebral para agregar a juventude que se aproximou. Sem os movimentos sociais e a intelectualidade crítica, não seria possível construir um “programa-movimento”, que trouxe para a campanha uma reflexão sobre a cidade capaz de incidir sobre questões concretas a partir de uma perspectiva anticapitalista.

Foi uma campanha que abraçou o Maracanã para dizer que os bilhões de reais gastos numa obra obscura pretendem excluir daquele espaço as populações das favelas e periferias. Foi uma campanha cujo candidato teve o mérito de encarar de frente temas polêmicos, como a política de drogas, a liberdade sexual, a democratização do carnaval… Diferentemente de boa parte das candidaturas, mesmo do próprio PSOL, que fogem destes temas “impopulares” para o senso comum e terminam tragadas pelo pragmatismo eleitoral.

A Primavera carioca foi tão intensa que conseguiu transpor diversos limites da campanha: a tentativa de aliança com o PV que semeou dúvidas e atrasou a aproximação de divers@s lutadores sociais; o não funcionamento das instâncias, fazendo com que a vida partidária se expresse principalmente pelos mandatos parlamentares; e uma maioria na direção estadual que sequestra o partido para viabilizar a eleição de seu vereador – o que criou uma tensão permanente no interior da campanha; uma maioria que se reproduz por filiações cartoriais sem qualquer critérios, o que possibilitou a filiação de Berg Nordestino – criando o principal flanco de ataque de Eduardo Paes à nossa candidatura.

A campanha de Freixo demonstrou um caminho a ser trilhado pela esquerda socialista que quer construir processos de ruptura: a afirmação de projetos, a aposta na militância, o auto-financiamento, uma campanha criativa, combativa e insurgente.

Processo semelhante foi vivido em Fortaleza com a candidatura de Renato Roseno, que encantou uma nova geração de ativistas cearenses com a proposta de uma Fortaleza Insurgente e foi capaz de dobrar a representação na Câmara de Vereadores – apesar de não ter sido capaz de sensibilizar a maioria (ou maior minoria) da direção nacional do PSOL, que seguiu considerando que esta não era uma candidatura prioritária do partido.

Em Fortaleza, o PSOL saiu da campanha eleitoral organizando centenas de ativistas como militantes partidários comprometidos com uma nova forma de fazer política e se estabelecendo definitivamente como referência de esquerda no cenário estadual. O nosso companheiro Renato Roseno obteve mais de 148 mil votos (11,8%), ficando à frente do PSDB (que teve como candidato um ex-deputado, Marcos Cals, que foi presidente da Assembléia Legislativa) e do PCdoB (cujo candidato foi um Senador da República, Inácio Arruda) – que recebeu menos votos que nosso candidato a vereador, João Alfredo. A votação de Renato vem crescendo a cada eleição: de 5,8% há quatro anos atrás passamos para 11,8% neste ano, o que o coloca hoje como a principal referência da esquerda nessa capital.

Sobre a disputa à câmara de vereadores, podemos destacar a expressiva votação de João Alfredo, que obteve 20.222 votos, o terceiro mais votado. Igualmente importante foi a votação na legenda partidária, que foi a terceira maior votação e possibilitou uma duplicação da bancada, com a eleição de Toinha Rocha. Esse resultado foi viabilizado por uma visão de construção partidária, que estabeleceu o rodízio na vaga conquistada em 2008, em que Toinha Rocha, sendo a primeira suplente, assumiu a vaga por duas vezes, inclusive durante a campanha eleitoral. Esse fato proporcionou visibilidade à sua campanha e contribuiu para sua eleição.

A candidatura insurgente de Renato Roseno conseguiu vocalizar a proposta de uma nova política, marcada pela recusa ao fisiologismo, à corrupção e à vinculação aos interesses do grande capital. Isso se materializou na não aceitação de contribuição de empresas e na transparência das contas eleitorais. Afirmou, também, uma plataforma de governo construída coletivamente e que aborda, em uma perspectiva radicalmente democrática, socialmente igualitária e ecossocialista, os principais problemas da cidade. A aliança política construída abrangeu importantes setores da sociedade civil, não necessariamente vinculados a partidos, que se organizaram em torno do movimento Fortaleza Insurgente.

Devemos destacar ainda a vitória do PSOL na cidade fluminense de Itaocara, uma conquista do trabalho político acumulado e da coerência reconhecida pela maioria dos eleitores.

O segundo turno: Macapá ou os piores vícios da política dos “coronéis”

O segundo turno foi uma prova para a coerência do PSOL. A pressão para que o partido apoiasse os candidatos petistas se deu em diversas cidades. Em muitas, como São Paulo, era necessário demarcar claramente que o PSOL não daria qualquer voto à candidatura de direita, enquanto que em outras, como em Fortaleza, era necessário afirmar que, apesar de nuances, as duas forças que concorriam faziam parte do mesmo projeto de poder.

Mas as duas cidades em que o PSOL foi para o segundo turno, Macapá e Belém, colocaram problemas de outra ordem para o partido.

Particularmente desastrosa foi a política desenvolvida pelo setor dirigente no PSOL do Amapá, em especial pelo senador Randolfe Rodrigues e pelo candidato a prefeito de Macapá, Clécio Luís. O senador e a direção do PSOL-AP já haviam sido advertidos pelo Diretório Nacional do PSOL em dezembro de 2010, por terem feito uma aliança informal com o PTB no primeiro turno, apesar da proibição expressa disso pela Executiva Nacional, e pelo apoio dado ao candidato a governador do PTB no segundo turno.

Em 2012, no primeiro turno, o PSOL-AP não lançou candidaturas nas cidades do interior do Estado para que o senador Randolfe Rodrigues e o partido apoiassem candidatos de partidos com os quais o DN-PSOL havia expressamente proibido alianças.

No segundo turno de Macapá, o quadro piorou: o PSOL celebrou, em ato político público, uma aliança com o DEM, o PTB e o PSDB, partidos que gravitam, no estado, em torno da liderança do Senador José Sarney; representantes do partido deixaram claro que a aliança se fazia também para governar, e para depois… Clécio Luís terminou sendo eleito.

À gravidade dos fatos em si mesmos se somou a duplicidade do discurso do senador Randolfe Rodrigues e do prefeito eleito Clécio Luís. Em declarações para o público de Macapá e para a grande imprensa, eles têm reafirmado a idéia de que a aliança com os três partidos da direita mais tradicional foi realmente celebrada, e acrescentado que o PSOL deve aprender a compreendê-la e aceitá-la. Isto está fartamente registrado em vídeos e declarações aos jornais do estado. Já em declarações para o público interno do partido, eles têm procurado minimizar o fato, dizendo que houve apenas aceitação de apoios, e que, no máximo, “em momento de empolgação pelos apoios recebidos de parte dos que naturalmente se alinhariam com nosso adversário houve menção às eleições de 2014 que permitiu interpretação errada em nossa militância de que haveria acordos futuros”. Obviamente trata-se de uma explicação inverossímil. Trata-se, de qualquer forma, de um comportamento desleal de Randolfe e Clécio em relação ao PSOL, que justifica a instalação de uma comissão de ética.

O grupo de Randolfe e Clécio construiu argumentos frágeis para defender as alianças de Clécio em Macapá:

a) “O que se buscou em Macapá foi a divisão das forças conservadoras para derrotar a facção criminosa que governava Macapá”: mas entre os conservadores que apoiaram a candidatura havia também gente ligada a facções criminosas.

b) “A direita não terá participação no governo”: logo que a aliança com o candidato do DEM e outros partidos que o apoiaram começou a repercutir negativamente, falou-se que não tinha havido “aliança”, mas apenas haviam sido recebidos apoios – até um vídeo ser divulgado e mostrar Randolfe afirmando que se tratava de uma “aliança para governar” e Clécio saudando o ex-candidato a governador pelo PTB em 2010 como possível candidato, novamente, a governador. Depois das eleições, em sua carta de explicações e de reconhecimento de alguns erros, Randolfe e Clécio adotaram um discurso diferente, e deram a versão de que teria havido um excesso na fala de ambos no ato que celebrou a aliança. No dia seguinte à divulgação desta carta, entretanto, uma entrevista de Clécio ao portal UOL dizendo que não é bem assim: os quadros da direta poderão participar de seu governo, desde que não organicamente (??) aos seus partidos. Um discurso sempre ao agrado do público!

c) “o apoio da direita não significou qualquer rebaixamento programático”: Clécio declarar que Papaleo Paes, da tropa de choque do Sarney quando esteve no Senado, é um homem honrado e ilibado, não é um rebaixamento do discurso do PSOL? Clécio não responder à pergunta do jornalista do UOL (repetida três vezes) sobre o que o PSOL pensa do governo Dilma, não é um rebaixamento do discurso do PSOL? Clécio passar a defender o financiamento de campanha por bancos e empreiteiras, dizer que o PSOL precisa jogar com as mesmas armas que a direita, e que o PSOL deve se aproximar do campo social-liberal não é rebaixamento programático?

A vitória eleitoral em Macapá não foi alcançada com uma ampla mobilização social, mas com a exploração de contradições entre setores oligárquicos. E este rebaixamento não se encerrou com as eleições: a promiscuidade com a geléia geral das trocas de favores entre setores das elites locais tende a ser um dado permanente para a nova administração de Macapá.

Há coronelismo no Amapá. Ele não tem por base a enxada; o controle do voto se dá pelo acesso aos fundos públicos oriundos principalmente do governo federal (alimentando, como em outros estados da região norte, oligarquias regionais). Não é por não estarem vinculados, no Amapá, ao latifúndio tradicional, que os grupos de Sarney e seus acólitos deixam de representar tudo aquilo que de mais vil existe na tradição política brasileira, a expressão das práticas mais reacionárias da política que ainda é dominante nas regiões mais pobres do país.

O PSOL não pode participar de práticas de conciliação entre as elites, onde as decisões sobre a “senzala” são tomadas na “casa-grande” – mesmo que depois políticas de redistribuição dos fundos estatais por políticas públicas alimentem clientelas urbanas (como faz o PT). O partido está agora perante um grave dilema. Não há cenário possível de convivência entre o PSOL que se apresentou na Primavera Carioca ou na Fortaleza Insurgente como alternativa às práticas de todos os partidos burgueses, e que está se construindo com base nisso junto ao eleitorado jovem e mais politizado, e as práticas que têm caracterizado a atuação da maioria do PSOL do Amapá. São dois projetos estratégicos distintos, que falam para bases sociais que são, por todo um período histórico, incompatíveis. São políticas que traçam fronteiras muito distintas de onde termina o PSOL e onde começam os outros partidos (se é que Randolfe e Clécio traçam alguma fronteira para o PSOL!). As divergências dizem respeito à forma como o PSOL se insere no cenário político brasileiro: como portador de propostas e práticas de esquerda novas e coerentes ou como um partido que se constrói nas beiradas do petismo, repetindo seus piores erros (do ponto de vista de uma política socialista).

Belém: a diluição das fronteiras do PSOL com o PT

Foram também equivocadas as opções tomadas no segundo turno pela candidatura do PSOL a prefeito em Belém. O problema não foi o PSOL ter recebido apoio do PT; isto era aceitável, nas circunstâncias. O problema foi, em primeiro lugar, este apoio ter-se dado por meio de declarações de Lula, Dilma e diversos ministros de seu governo no programa do PSOL; em segundo lugar, estas declarações terem feito, essencialmente, a defesa dos governos do PT; e, em terceiro lugar, e em coerência com isso, a adoção pela candidatura do PSOL da linha de que Edmílson seria um bom prefeito por contar com a parceria do governo federal. O que estava implícito na propaganda veiculada não era uma relação republicana entre os vários níveis de governo, mas um acordo especial, uma afinidade política, em que o PSOL acabava assumindo a defesa dos governos do PT feita por Lula, Dilma e seus ministros.

Se estas opções não descaracterizaram inteiramente o PSOL como um partido socialista, porque o PT é visto por parte das classes trabalhadoras como seu representante político, elas nos enfraqueceram enquanto oposição de esquerda aos governos Lula e Dilma. Confundiram as fronteiras entre o esforço do PSOL de construir uma esquerda socialista coerente e a linha social-liberal do PT, com sua dupla alma (origem popular, política burguesa), que o torna o principal representante e a grande força política dirigente do capitalismo brasileiro.

Estrategicamente, o PT é grande obstáculo à reconstrução de um projeto de esquerda socialista no Brasil.

Os problemas da linha seguida pelo PSOL no segundo turno, incompatíveis com o projeto do PSOL no caso de Macapá, equivocados no caso de Belém, tornaram-se piores por se vincularem a uma grande deterioração da democracia interna no PSOL. O presidente nacional do partido agiu como líder de uma fração do partido, recusando-se a permitir que o Diretório Nacional do PSOL ou sua Executiva Nacional se expressassem sobre estes problemas e tomassem decisões para reorientar a posição partidária.

Para que uma grande vitória não se torne uma derrota!

O ufanismo partidário quanto aos grandes avanços obtidos em alguns dos principais centros urbanos do país não pode nos impedir de ver o novo quadro. Temos hoje um partido mais implantado, mais reconhecido, com muito mais perspectivas. Mas também um partido que enfrenta uma encruzilhada estratégica sobre qual rumo tomar daqui para frente. Avançar no sentido de sermos o partido da juventude indignada, dos movimentos sociais mais conscientes, daqueles que buscam uma alternativa de esquerda à degeneração do projeto petista de incorporação parcial das massas ao consumo, significa consolidarmos nossa ruptura com o legado da política petista que ainda permanece no PSOL e pode ser visto de forma exemplar em Macapá.

Um setor do partido defende, mais uma vez, não enfrentar com radicalidade a ruptura com o projeto partidário que representou a política em Macapá sob o argumento equivocado de “preservar o partido”. Mas foi a omissão do Diretório Nacional em 2010, quando Randolfe se aliou ao PTB, que criou o precedente para que ele agora tripudiasse novamente das resoluções partidárias. Clécio e Randolfe precisam responder ao Conselho de Ética do Partido e sua política precisa ser desautorizada pelo Diretório Nacional.

Não fazer isso é transformar a enorme vitória do PSOL nestas eleições – resultado de nossa coerência até aqui, mas também das opções políticas que fizemos em estratégia, discurso, escolha de interlocutores – numa derrota que coloca em risco a construção do PSOL como uma alternativa de esquerda para a sociedade brasileira. São milhares de jovens militantes que se encantaram com o PSOL por ser um partido diferente, que representa a renovação de uma política republicana e socialista. A sinalização que estaremos dando, se não rompermos com a política praticada por Randolfe e Clécio, é de um partido que não se diferencia da velha política, que se move a partir do jogo viciado da geléia geral do fisiologismo e da troca de favores, um partido onde a política não é feita por cidadãos, mas por parlamentares “de carreira”, que se colocam em uma posição superior.

A afirmação do PSOL como projeto coerente da esquerda socialista passa também por transformar a vida orgânica das nossas campanhas em força partidária, e ampliar a inserção social do partido. Consolidar os setoriais partidários, para que o PSOL fique cada vez menos refém de uma lógica eleitoral. Não nos iludamos. Não há ruptura sem luta, e só a militância que está nas lutas sociais poderá defender o partido da enxurrada de filiações em massa que acontecerão se for aceito o uso da máquina da prefeitura de Macapá.

Temos muitos outros desafios, bons desafios! Precisamos aprofundar o projeto de nação que defendemos para o Brasil, tornando nossa crítica ao petismo compreensível para as amplas massas. Precisamos, com base nisso, discutir um nome para representar o partido na disputa de 2014. E precisamos fazer da administração de Itaocara uma referência para a esquerda socialista, mostrando que é, sim, possível administrar uma cidade nos marcos do capitalismo, mas para construir melhores condições para a superação do capital.

A nossa força está na ousadia e na coerência!

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