Análise mostra que emissões estão fora de controle

Relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente revela que ainda é possível manter aquecimento global a 2ºC com o corte de CO2, mas falta de ação pode levar a aumento da temperatura global entre 3ºC e 5ºC

Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil, 22 de novembro de 2012

Que as iniciativas climáticas tomadas até hoje para diminuir as emissões surtiam pouco efeito no corte de CO2 não é novidade para ninguém, mas um novo estudo indica que a disparidade entre as taxas de emissão de gases de efeito estufa (GEEs) e a necessidade de redução está aumentando, ameaçando ainda mais o controle da temperatura global.

Segundo o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), intitulado Emissions Gap Report 2012 (algo como Relatório de Disparidade de Emissões 2012), a transição para uma economia de baixo carbono está ocorrendo muito lentamente, o que pode não ser suficiente para manter o aumento das temperaturas em 2ºC, mesmo que atualmente essa meta ainda seja possível.

A pesquisa diz, por exemplo, que para evitar que o aquecimento global ultrapasse os 2ºC, as emissões deveriam ficar em média em 44 gigatoneladas (44 Gt) ou menos até 2020. No entanto, atualmente os níveis das emissões de GEEs estão cerca de 14% acima disso. A análise prevê que, se nenhuma mudança for feita nesse sentido, a diferença entre a meta e as emissões reais poderá chegar a oito Gt, levando a um aquecimento de 3ºC a 5ºC.

Avaliações econômicas preliminares, destacadas no novo relatório, estimam que a falta de ação acarretará em custos no mínimo 10 a 15% maiores após 2020 se as reduções de emissões necessárias forem postergadas para as próximas décadas. “Uma transição para uma Economia Verde de baixo carbono está longe de ser alcançada, e a chance de atingir a meta de 44 Gt está diminuindo anualmente”, alertou Achim Steiner, diretor executivo do PNUMA.

Mas apesar de a atual situação ser preocupante, o estudo aponta que há diversas oportunidades para a redução de emissões em média de 17 Gt de dióxido de carbono equivalente (CO2e).

Entre os setores em que há maior possibilidade de haver grandes reduções de emissões estão o de eficiência energética industrial (1,5-4,6 Gt em cortes), agricultura (1,1-4,3 Gt), silvicultura (1,3-4,2 Gt), energia (2,2-3,9 Gt), construção (1,4-2,9 Gt), transporte (1,7-2,5 Gt) e resíduos (0,8 Gt).

O setor de construção é um dos que têm maior potencial para reduções em longo prazo, principalmente através do aumento da eficiência energética dos edifícios, por exemplo. Ações como essa poderiam proporcionar cortes de em média 2,1 Gt até 2020, e mais cortes de mais de nove Gt até 2050.

“Isso implica que, até 2050, o setor de construção pode consumir 30% menos energia elétrica em comparação com 2005, apesar de um crescimento projetado perto de 130% na área construída durante o mesmo período”, afirma o documento.

Já outros setores, como a silvicultura, precisam de mais atenção para que todo o seu potencial no corte de emissões seja explorado. “Embora permaneça subestimada, a diminuição do desmatamento é considerada uma opção de baixo custo para a redução de emissões de gases estufa”, diz o texto.

O relatório cita como exemplo de redução de emissões na silvicultura o Brasil, onde uma combinação de políticas de conservação, aliadas à queda nos preços das commodities agrícolas, levou a uma diminuição de 75% do desmatamento desde 2004, evitando 2,8 Gt de CO2e entre 2006 e 2011.

“Existem duas realidades dentro desse relatório. Uma é que suprir a lacuna ainda é possível com as tecnologias e políticas existentes; outra é que existem muitas ações inspiradoras, ocorrendo em nível nacional, de eficiência energética em construções, investimentos em florestas para evitar emissões ligadas ao desmatamento, novas normas de emissões para veículos e um notável crescimento no investimento em novas energias renováveis no mundo inteiro que, em 2011, totalizou cerca de US$ 260 bilhões”, comentou Steiner.

COP 18

O diretor executivo do PNUMA ressaltou que, para que os cortes realmente sejam suficientes, as iniciativas também precisam atingir um nível internacional, e precisam começar a ser executadas rapidamente.

“Enquanto os governos se esforçam para negociar um novo acordo internacional sobre o clima a entrar em vigor em 2020, é preciso colocar um pé firme no acelerador da ação, cumprindo os compromissos financeiros, de transferência de tecnologia e outros, nos termos dos tratados da Convenção do Clima da ONU. Há também uma grande variedade de medidas voluntárias gratuitas que podem preencher desde já a lacuna entre ambição e realidade, sem precisar esperar”, declarou ele.

Christiana Figueres, secretária executiva da Convenção Quadro nas Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), também enfatizou a importância das negociações que ocorrerão na próxima semana em Doha, no Catar, para a diminuição das emissões.

“Isso significa, em particular, renovar o protocolo de Quioto, desenvolvendo uma visão clara de como os gases de efeito estufa podem ser controlados globalmente antes e depois de 2020, e concluir as instituições necessárias para ajudar os países em desenvolvimento a se adaptar e tornar verdes suas economias, além de definir uma forma de mobilizar os recursos financeiros que os países em desenvolvimento precisam para implementar iniciativas climáticas”, observou Figueres.

“Os governos reunidos em Doha para o COP 18 precisam urgentemente implementar as decisões existentes, que permitirão uma transição mais rápida para um mundo de baixo carbono e resiliente. Além disso, eles precisam urgentemente identificar como estimular essa ambição”, acrescentou.

“O relatório sinaliza que o tempo está se esgotando, mas que os meios técnicos e as ferramentas necessárias para permitir que o mundo mantenha a temperatura global abaixo de 2°C ainda estão disponíveis para os governos e sociedades”, concluiu a secretária executiva.

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