“Haja Governo de Esquerda e nós estaremos lá”

João Semedo e Catarina Martins deram a primeira entrevista conjunta após a Convenção do Bloco. Para além da apresentação do modelo de coordenação paritária, falaram do sucesso da Greve Geral, da exigência da demissão do Governo e da proposta de um Governo de Esquerda que rompa com o memorando da troika.

Esquerda.net, 16 de novembro de 2012

Na entrevista ao programa “De Caras”, transmitido na quinta-feira na RTP, o jornalista Vítor Gonçalves questionou ambos os dirigentes bloquistas sobre o novo modelo de coordenação e as principais decisões saídas da VIII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda.

João Semedo e Catarina Martins começaram por sublinhar o grande impacto da Greve Geral de dia 14 em Portugal, destacando também ter-se vivido “um momento europeu de solidariedade entre os povos, um momento de luta do trabalho contra as políticas de austeridade”, nas palavras da dirigente bloquista. Questionada sobre as cenas de violência após a manifestação da CGTP, Catarina Martins reforçou a ideia de que “nada apaga a força de quem fez uma greve geral tão grande e foi isto que marcou o dia”. João Semedo declarou que o Bloco lamenta os incidentes ocorridos ao final da tarde de quarta-feira em São Bento, acrescentando que “a violência não acrescenta nenhuma razão seja a que causa for” e referindo os relatos de irregularidades durante as detenções de pessoas apanhadas longe de São Bento e mantidas durante horas nas esquadras sem respeito pelos seus direitos.

“Este Governo já não corresponde à maioria social que o elegeu”

Nas questões sobre a situação política, os coordenadores bloquistas voltaram a defender a demissão do Governo de Passos Coelho. João Semedo recordou que “este Governo já não corresponde à maioria social que o elegeu” e que não seria o primeiro a ser demitido, apesar de ter maioria parlamentar. Em seguida, defendeu que deve ser dada a palavra aos eleitores, porque “foram enganados nas últimas eleições, foi-lhes prometida pelo PSD e o CDS uma política completamente contrária” à que levam a cabo no Governo.

“O Presidente da República tem de avaliar essa situação”, uma vez que tem por obrigação zelar pelo regular funcionamento das instituições, alertoiu o coordenador do Bloco. Para Catarina Martins, o Governo perdeu legitimidade ao insistir em ir contra a Constituição em dois Orçamentos consecutivos. “É um Governo que não é capaz de agir dentro desta ordem constitucional”, afirmou a coordenadora do Bloco.

“Não há nenhum preconceito no Bloco relativamente ao exercício do poder”

A proposta de um Governo de Esquerda para romper com o memorando em nome duma política virada para o emprego e a recuperação da economia preencheu boa parte da entrevista, com o jornalista a questionar sobre a presença do PS nesse cenário. “Não pusemos ninguém de fora. Mas fazemos a análise que o PS se sente ainda preso ao memorando”, afirmou Catarina Martins. “O PS tem dito coisas muito diferentes, tem um pé na oposição e outro no memorando”, referiu por seu lado João Semedo, que ouviu “António José Seguro há pouco tempo dizendo aquilo que para a direção do PS era uma heresia ainda há poucos meses: que era preciso renegociar os juros e a dívida”.

“Não temos nenhum formato pré-definido para um Governo de Esquerda”, acrescentou o coordenador do Bloco, lembrando que a Convenção “determinou como eixo central da nossa estratégia provocar uma mudança muito significativa no arranjo de forças sociais e políticas. Daqui a uns meses, o xadrez político, partidário e social não será o que é hoje e nós estamos cá para o mudar”, prometeu Semedo, garantindo que “não há nenhum preconceito no Bloco relativamente ao exercício do poder” e que após a Convenção, a organização afirma claramente que “haja um Governo de Esquerda e nós estaremos nesse Governo de Esquerda”.

“Por sermos fiéis àquilo que pensamos e dizemos, não contem connosco para um Governo que se chame de esquerda, mas que faça uma política de esquerda envergonhada ou de meia direita”, prosseguiu Semedo, confiante que as propostas do Bloco irão alcançar nas próximas eleições um apoio superior às eleições de 2009, quando o Bloco teve o melhor resultado eleitoral da sua história.

Por seu lado, Catarina Martins resumiu as quatro condições enunciadas na Convenção para darem a base a esta proposta. “Para que haja um Governo de Esquerda é preciso juntar todas as pessoas, partidos, movimentos que queiram romper com o memorando para poder reestruturar a dívida, que percebam que é preciso controlo público do crédito para haver investimento e combater o desemprego, que queiram devolver salários e pensões e que queiram reformar o sistema fiscal para um sistema mais justo”, referiu a coordenadora do Bloco.

“As decisões são quase sempre partilhadas em todos os partidos”

O modelo de coordenação paritária que o Bloco adotou na VIII Convenção foi outro dos temas da entrevista, com Catarina Martins a lembrar que “é um modelo que já existe e tem raiz na esquerda europeia em que o Bloco se insere”. “No mesmo fim de semana da Convenção do Bloco, os Verdes alemães elegeram também uma liderança paritária. É assim no Parti de Gauche em França, no Die Linke da Alemanha e no Partido de Esquerda Europeia, onde o Bloco de Esquerda propôs isso mesmo”, explicou. Questionada sobre a mudança na forma de tomar decisões, disse que “as decisões são quase sempre partilhadas em todos os partidos”, independentemente do modelo de liderança, e essa é a experiência também da direção do Bloco.

João Semedo sublinhou uma diferença do Bloco em relação aos outros partidos: “o coordenador do Bloco não tem nenhum direito diferente dos outros dirigentes”. E disse que a nova coordenação paritária no Bloco “é um modelo com grandes potencialidades, pela diferença de experiências e de trajetórias, ângulos diferentes de observar a mesma realidade”. “A prática demonstrará que a liderança do Bloco a dois será tão forte, tão capaz, tão interveniente, tão concretizadora quanto tem sido até hoje”, concluiu o coordenador bloquista.

A entrevista focou ainda temas como as próximas eleições autárquicas, que o Bloco irá discutir em Conferência Nacional no início do ano, as mudanças na liderança parlamentar, previstas para depois do debate do Orçamento de Estado. E houve uma pergunta que ficou com resposta em suspenso: a de saber qual dos dois irá protagonizar o primeiro debate quinzenal com Passos Coelho no Parlamento – o anúncio ficou prometido para a próxima quarta-feira.

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