A elite governante chinesa não pode ignorar os apelos para a mudança

O Congresso nacional do Povo decorreu no meio de um descontentamento crescente. Para sobreviver, os líderes partidários cedo terão de afrouxar o seu aperto ao poder.

Hsiao-Hung Pai, The Guardian, 15 de novembro de 2012

O 18º Congresso Nacional do Povo da China reuniu 2.200 delegados na capital para “eleger” líderes predeterminados, numa mudança de poder que ocorre uma vez a cada década. Enquanto as elites se instalam dentro da Grande Casa do Povo (que exclui o “povo”), os taxistas de Beijing receberam ordens da segurança do Estado para retirar as manivelas dos vidros; as lojas de facas receberam ordem de encerrar durante o evento; ninguém pode comprar qualquer coisa que voe, incluindo balões; e as músicas Pop que contenham palavras como “morte” ou”saia” foram censuradas.

Mas o que marca a diferença do 18º congresso com os seus antecessores são os crescentes apelos à mudança que vêm debaixo. Durante o 14º Congresso, de 1992, o primeiro depois do massacre de Tian Anmen, não havia essa ideia de “cidadania”, já que a atmosfera de repressão tinha silenciado a sociedade. Mesmo durante o 17º congresso, em 2007, houve uma relativa calma social e pouco entusiasmo pelo debate político no seio da população. Mas o descontentamento tem crescido constantemente, principalmente como resultado da desaceleração económica. Muitos trabalhadores estão a sofrer o impacto da queda global e, na terceira década de reforma económica e na era da abertura (gaige kaifang), atravessam a maior insegurança das suas vidas. Enfrentam o desemprego, a insegurança do emprego e o peso da privatização dos serviços públicos – e já deixaram de ficar calados.

Houve um grande aumento de “incidentes de massas” (o termo que o governo usa para todas as formas de desobediência civil) por todo o país: o número chegou a 80 mil em 2008 e aumentou para cem mil em dois anos.

E, mais do que nunca, os cidadãos chineses estão a falar através das crescentemente ativas redes sociais. Os eleitores escondidos – os utilizadores da Internet – estão a demonstrar a sua frustração e fúria em relação à ausência de democracia.

Já chamaram ao congresso Sparta – uma palavra que tem o objetivo de dar a volta aos censores da Internet de todo o país.

Na Sina Weibo e na Qzone – esta última é a maior rede social do mundo, com 9,5 milhões de novos postsescritos diariamente – o descontentamento cidadão está a ferver. Enquanto o mundo assiste aos apertos de mão dos líderes, os cidadãos chineses dizem que se sentem excluídos e ridicularizados.

Os bloggers demonstram uma total falta de confiança na capacidade do governo para resolver o problema da corrupção, que está a crescer particularmente ao nível local. “O nosso sistema político exclui a participação civil… A liderança central tem faltas de legitimidade… A economia de mercado exacerbou o graves problemas de corrupção e de má gestão da burocracia estatal”, diz Shen Zewei.

Outros questionam a excessiva riqueza da classe política – demonstrada pelo escândalo Bo Xilai, assim como as revelações da fortuna de 2000 milhões de euros de Wen Jiaobao, comparada com a dos seus homólogos de Taiwan: “Como se explica que os dirigentes [de Taiwan] almocem em cantinas e levem marmitas e os nossos políticos façam banquetes caríssimos e remetam a fortuna familiar ao nível do segredo de Estado?”

“A necessidade de democracia não pode ser impedida; não podem bloquear-nos”, disse o blogger Leiwusheng.”Durante o 16º Congresso [em 2002], só havia 50 milhões de utilizadores; durante o 17º congresso já éramos 200 milhões; hoje, há mais de 530 milhões de cibernautas. O que quer dizer que um em cada três chineses usa a Internet. Será que acham realmente que nos podem bloquear e impedir-nos de dizer o que não querem ouvir?!”

Mais do que nunca, também os trabalhadores migrantes estão a falar. Há uns dias, Miao Cuihua pôs online um vídeo de protesto pedindo o pagamento dos salários devidos aos operários da construção migrantes de Tianjin. Ela disse ser porta-voz dos nongmin-gong (trabalhadores rurais migrantes). A sua situação de não pagamento de salários é uma de dezenas de milhares em todo o país. O vídeo atraiu mais de um milhão de visualizações em dois dias. Choveram mensagens de solidariedade de outros trabalhadores. Os média nacionais ficaram espantados, mas seguiram a linha oficial ao informar sobre o “Sparta” e ao escrever sobre os “trabalhadores modelo” que foram enviados ao Congresso para elogiar o Partido Comunista.

A população chinesa que usa as redes sociais – em grande parte jovem, em idade laboral, e muitos vivendo longe de casa – é a mais ativa. Gastam, em média, 46 minutos por dia nos sites das redes sociais, mais do que os seus congéneres dos EUA (37 minutos). São todos bem informados e têm informação política. Cada vez mais parece que criaram uma ciber sociedade civil capaz de mudanças efetivas. Vimos a onda de protestos conhecida como a revolução jasmim, inspirada na Primavera árabe, organizada online em 2011. No mesmo ano, uma dúzia de apoiantes online do levante de Wukan (contra a apropriação fundiária) organizaram protestos em Guangzhou.

Os sites de bloggers podem ser censurados e fechados, mas recomeçam em qualquer outro lado, sob novos nomes. É uma guerra de guerrilhas da classe trabalhadora.

Todas estas tendências apontam para uma clara direção no futuro: a elite governamental já não pode esperar que a classe trabalhadora seja dócil e desista dos seus direitos políticos em nome da “liberdade económica”. Quando as pessoas são encorajadas a consumir e ajudar ao crescimento económico, querem ter uma palavra sobre como são geridos os seus postos de trabalho e o próprio país. A sua fúria continuará a ser canalizada para apelos e para ações de mudança. Muito cedo, aqueles que estão no Sparta terão de afrouxar o aperto para poder sobreviver.

Traduzido do Guardian

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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