Elementos para um balanço preliminar do PSOL

Movimento de Esquerda Socialista, 18 de outubro de 2012

As recentes eleições municipais reconfiguram o mapa político do país. E como veremos neste texto há uma clara inflexão à esquerda. A votação do PSOL é um fato objetivo que demonstra uma inclinação à esquerda de uma parcela de massas, embora ainda minoritária, da sociedade brasileira. O que vemos é que assim como o PT tem ocupado uma parte do espaço que antes era do PSDB, do PMDB e até do DEM (entre outros partidos burgueses tradicionais), o PSOL tem ocupado um espaço que antes era do PT. Neste caso, em particular um espaço de esquerda que o PT abandonou.

Este é um primeiro balanço, preliminar. O resultado do segundo turno será muito importante, de tal forma que ainda não temos estas determinações eleitorais das disputas que acontecem em capitais fundamentais, como o caso de São Paulo. É claro que se for concretizada a vitória do PT no segundo turno da capital paulista, o sinal para a disputa eleitoral mais importante do país, a presidencial de 2014, estará dado: o fortalecimento das perspectivas da vitória do projeto de reeleição de Dilma e o incremento da crise do PSDB. Contudo, o desfecho eleitoral não muda o signo fundamental do resultado das urnas no último 7 de outubro. Um maior desgaste dos partidos do regime e uma abertura à esquerda nas grandes cidades. É lógico que há inúmeros fatores contrários, que jogam no sentido oposto do que estamos definindo, mas a definição correta deve ser dinâmica, perceber a tendência central, a perspectiva mais provável.

As eleições ganharam um tom de politização mais alto do que a média para uma disputa de caráter municipal, onde se avolumam pautas locais. Isso é uma consequência direta da crise social (o descaso da saúde pública, da educação pública, da segurança pública, etc) do país. Esta crise social provoca ainda mais descontentamento porque em 2011 e 2012 tivemos dois anos onde a marca da economia não foi de maior crescimento capitalista como as conjunturas de 2005 até 2010, mas de redução do crescimento e estagnação. O Brasil não está ainda numa situação de recessão econômica nem muito menos de depressão, mas o otimismo capitalista não contagia mais o povo. Ademais, estamos num período de transição em algumas as grandes cidades brasileiras, onde sob a bandeira da Copa e das Olimpíadas, os capitalistas organizam um processo de “modernização conservadora”, a serviço das grandes empreiteiras, empresariado do transporte e especulação imobiliária. Este processo reorganiza as cidades, aumentando o custo de vida, precarizando os serviços e empurrando os pobres para periferia, trazendo mais prejuízos para os trabalhadores e o povo. Tal cenário trouxe um embate mais nítido entre projetos de cidade, expresso mais claramente nas eleições do Rio de Janeiro.

A oposição de direita sai do primeiro turno diminuída. O bloco governista, apesar da vitória na maioria das cidades, sai mais fragmentado com a tentativa do PSB e de Campos de se descolar do PT [venceu eleições de BH, Recife e disputa contra o próprio PT em Fortaleza]. A curva de voto no PT mudou também: ganhou em cidades menores, nos interiores, onde historicamente a direita e o pragmatismo tinham mais força. Em SP, mesmo que ganhe, o maior símbolo de sua campanha continuará sendo, pelo menos para amplas parcelas da sociedade, a aliança com Maluf. Para além do julgamento do Mensalão, o PT cada vez mais está assemelhado com os partidos tradicionais do regime. O partido chefia a repressão e o desmonte das greves, faz parte de qualquer tipo de alianças e oferece um projeto privatista como o caso do leilão dos portos e aeroportos.

Também nesta conjuntura, as lutas sociais começam a ganhar terreno. Neste ano assistimos a importantes greves: como as da segurança pública, entre policiais e bombeiros, com ponto mais alto na Bahia e no Rio, onde apesar de derrotas colocaram em xeque os seus governos; a greve nacional unificada dos servidores públicos, especialmente nas universidades federais, contando com amplo apoio estudantil; isso sem falar das greves parciais como metalúrgicos, construção civil e lutas por moradia, contra o aumento dos transportes- em Natal, Teresina, Vitória e Niterói, apenas para citar alguns exemplos. O Brasil foi marcado, em 2012, por uma retomada inicial das lutas.

A grande novidade das eleições foi o crescimento do PSOL como expressão da oposição de esquerda ao governo e alternativa à velha política. Vários analistas reconheceram este crescimento como expressou Safatle, quando afirmou que um dos fenômenos importantes da eleição foi “a abertura para o desenvolvimento de uma esquerda fora do espectro do PT. Um dos partidos que tiveram o maior crescimento proporcional de votos foi o PSOL, graças à suas candidaturas no Rio de Janeiro e em Belém.”

O PSOL sai das urnas noutro patamar. Podemos afirmar que as eleições de 2012 marcam um salto de qualidade na história do Partido. Nossa presença nacional com a campanha Freixo no RJ; a chegada ao segundo turno em duas capitais, Belém e Macapá; ampliando e dobrando nossas bancadas em capitais como Porto Alegre, Fortaleza, Maceió; entrando nas Câmaras de vereadores de São Paulo, Salvador, Florianópolis, Natal; com votações expressivas e bancadas eleitas em Niterói, Campinas, Viamão; e a eleição do primeiro prefeito do Partido em Itaocara (RJ). Números preliminares falavam na eleição de 49 vereadores no país. Estamos com presença institucional em onze capitais, nas cinco regiões do país.

A primavera carioca foi a expressão mais avançada

É importante ressaltar que a vitória política incontestável do PSOL no Rio não é uma exceção à regra e sim, o ponto mais alto e condensado das contradições da situação política e das possibilidades para o PSOL. Nesta experiência a representação política esteve à altura da luta social, encontrando na coragem e no simbolismo de Marcelo Freixo, um protagonista para as demandas democráticas e sociais da cidade.

O clima político encontrou na Primavera Carioca terreno fértil para se desenvolver. A própria identidade com o termo “primavera” é uma referência às mobilizações democráticas e revolucionárias das praças árabes e mesmo movimentos como os “indignados espanhóis” e o Ocuppy Wall Street. Uma referência positiva que chegou a campanha de Freixo, como uma forma original de ressignificar a ação política.

A campanha foi se avolumando a cada pauta. Freixo optou por fazer um debate franco, propositivo, sem fugir das polêmicas. Polarizaram-se dois projetos nítidos de cidade, onde estão embutidas duas visões antagônicas de como fazer política. Durante a campanha também cresceu a mobilização nas ruas e a capacidade organizativa.

O ato de lançamento na ABI foi muito representativo, selando a frente social e política que apoia Freixo: além do apoio inicial do PCB e de outros setores da esquerda política, deslocamentos como o dos trabalhistas históricos [MRLB de Vivaldo Barbosa e outras lideranças], a dissidência petista, lideranças da sociedade civil e da luta democrática, bem como artistas do porte de Wagner Moura e Caetano Veloso. O show de Caetano e Chico, no dia 11/09, “Primavera Carioca”, foi um reencontro marcante. Os eventos vieram crescendo até chegar ao grande comício na Lapa.

Podemos definir que foi uma campanha que ganhou um caráter nacional. Tanto pela abrangência de suas pautas, suas conexões pelas redes sociais e pela mobilização de um amplo ativismo. Freixo cresceu muito na reta final, apesar do boicote das pesquisas e da campanha explicita que os grandes meios, em especial a Rede Globo fizeram para Paes. Chegamos a 28, 15 %, mais de 914 mil votos um segundo lugar que assustou a burguesia carioca. Elegemos uma bancada de 4 vereadores, a segunda maior da casa e principal da oposição. Paulo Pinheiro e Eliomar foram reeleitos com votações consagradoras [28.539 e 23.662, respectivamente]. Elegemos Renato Cinco com 12.498 votos e Jefferson Moura com 12.424.

No estado do Rio de Janeiro, nossa vitória não ficou circunscrita a capital. Tivemos dois outros excelentes resultados: em Itaocara, noroeste fluminense, o PSOL elegeu seu primeiro prefeito. Gelsimar Gonzaga, ex-cortador de cana e dirigente sindical [foi dirigente dos bancários do RJ], atualmente liderou as mobilizações dos municipários da cidade, ganhou com mais de 6 mil votos. O PSOL elegeu um vereador na cidade, Fernando Arceni. Gelsimar tem a oportunidade de transformar Itaocara num polo de resistência. Neste sentido, suas primeiras declarações entusiasma a militância do PSOL afirmando medidas políticas de participação popular nas decisões do poder público. Na cidade de Niterói, uma das mais importantes do estado, fizemos uma votação surpreendente: Flávio Serafini fez quase 50 mil votos [18, 40%] na majoritária e fizemos três vereadores [tendo os dois mais votados]: PEG, o mais votado com 8011 votos, Renatinho, segundo lugar no quadro de vereadores da cidade, com 6304, e Henrique Vieira, 2.878.

Crescemos nas capitais

A disputa de Belém nos colocou como uma alternativa de fato. O capital político acumulado por Edmilson Rodrigues foi expresso numa polarização contra vários candidatos da burguesia, majoritários no tempo de TV, levando a eleição para o segundo turno contra o tucano Zenaldo Coutinho. Edmilson chegou em primeiro lugar com 252.049 votos – cerca 32% dos votos. Nossa coligação elegeu cinco vereadores – quatro do PSOL, além de Cleber do PSTU. Marinor Brito foi a vereadora mais votada da cidade, com 21.723 votos. Entraram também Meg Barros [5.168], Fernando Carneiro [3.452] e Dr. Chiquinho[3.273].

O PSOL teve um belo desempenho nas capitais onde já tinha representação parlamentar. Em Porto Alegre, reelegemos nossa bancada de vereadores, ampliamos nossa votação – cerca de 6% dos votos no legislativo. Num quadro adverso, onde nossa principal porta-voz, Luciana Genro, estava impedida de concorrer. Roberto Robaina superou a marca dos 30 mil votos, chegando próximo dos 4%. Nesta capital onde o PT sempre foi historicamente mais forte do que em outras capitais, a queda do PT (fez menos de 10% dos votos) e o crescimento do PSOL mostram uma mudança histórica em curso: o PSOL começa a disputar para ser o pólo de esquerda mais importante da cidade. Pedro Ruas foi o vereador mais votado da cidade com 14.610 votos. Fernanda Melchionna foi reeleita com 7. 214 votos. Para além dos mandatos, o Partido saiu muito fortalecido no Rio Grande do Sul. Sai mais implantado entre os trabalhadores, com lideranças populares ascendentes em diferentes bairros e categoria. Na cidade de Pelotas, protagonizamos um dos fenômenos eleitorais mais interessantes do estado, com nosso jovem candidato Jurandir Silva chegando a 25.272 votos e 13,09%. A direção do PSOL no Rio Grande do Sul se fortalece, dando um exemplo de partido de combate.

No Nordeste, Fortaleza dobrou a bancada: além de João Alfredo, eleito com mais de 20 mil votos, entrou a companheira Toinha Rocha, com seus 5.314 votos. Renato Rosseno, uma vez mais se destacou, alcançando 148. 128 votos, ou seja, quase 12% dos votos válidos. Em Maceió foi eleita Heloisa Helena.

Entramos em uma nova fase em várias capitais. Elegemos dois vereadores em Natal, coligados com o PSTU que teve um fenômeno eleitoral com Amanda Gurgel, Sandro Pimentel – liderança da esquerda sindical, dirigente da Fasubra [1398 votos] e Marcos do PSOL [717 votos]; em Salvador, Hilton Coelho foi eleito com 16.408, onde Hamilton Assis teve 2,60% [total de33.650 votos]; em São Paulo, o bom desempenho da legenda garantiu a eleição de Toninho Véspoli [8.722 votos], onde Giannazi contribuiu para o voto na legenda, superando máquinas como a Força Sindical de Paulinho e aumentando nossa votação na comparação com 2008. Florianópolis também elegeu um vereador do PSOL, Afranio Bopré com 3.132 votos. O candidato a prefeito Elson Pereira fez impressionantes 14% dos votos.

Há uma disputa que merece uma nota aparte, já que vai na contramão da política que marcou o PSOL nas eleições em quase as principais cidades do país, e praticamente todas as capitais. Trata-se da situação de Macapá. Embora o partido tenha ido para o segundo turno, o que em si mesmo aparece como um fato extremamente positivo, uma expressão da força do partido, acabou promovendo um grave problema político pelas graves erros estratégicos e de princípio da direção do partido no estado do Amapa; Clécio está no segundo turno contra Roberto Goés [fez 56.947 votos, quase 28%]. Nossa coligação elegeu 3 vereadores [sendo um do PCB], entrando André Lima [2.393] e Prof. Madeira [2.238]. Mas existe uma contradição grave no processo de Macapá que já está transformando o que poderia ser uma vitória numa derrota. A direção local, Clécio e o Senador Randolfe sofrem um processo de pressões de classe, de adaptação ao regime burguês, que levam o Partido a uma diluição de seu perfil anti-regime ao aparecer publicamente com figuras da velha política como líderes do DEM e do PTB. Consideramos que esta política vai na contramão do que o PSOL fez no país inteiro e representa um ataque ao partido. A nota assinada por membros do DN corretamente condena a política de Macapá, reafirmando as bases programáticas do PSOL.

Uma ampliação nacional

Também elegemos vereadores em Campinas [Paulo Bufalo], Viamão [Augustão], Sete Lagoas [Ismael Soares], 2 vereadores em Vinhedo [Rodrigo Paixão e Valdir Barreto].

Por fim, tivemos bons resultados também nas majoritárias, mesmo não elegendo bancadas. Pelotas, com Jurandir Silva – 25.272 votos e 13,09%; no Norte do país, bons resultados com as votações de Robert Dagon em Boa Vista [10% dos votos] e Aluízio Vidal em Porto Velho [5.29%], Márcio Pinto em Santarém [ 8,25%]; também foram bem votados Mauro em Cuiabá [5, 42%] e Gustavo de Biase em Vitória [4,16%]; em Belo Horizonte, superamos o PSTU e Consola fez uma bela votação: 54.530, obtendo 4,25%; no Maranhão, numa cidade conflagrada por conflitos sociais, Açaílandia, o candidato a prefeito, Prof Milton, teve 8,69% – 4.865 votos.

Afirmação de um projeto e de um perfil

Os dados quantitativos comprovam o tamanho da nossa vitória. O mais importante foi afirmar um perfil partidário claro: um partido das lutas, anti-regime, contra a corrupção e as máfias, propositivo e capaz de firmar diálogo com amplos setores. Mas o mais importante é que o PSOL vai se apresentando como o polo que representa a resistência contra os capitalistas e a velha política. E nisso que o partido deve insistir e fortalecer. Além desta ser a política necessária, nestas eleições ficou claro que há espaço eleitoral para a mesma, que tal política não é mais marginal e tem tudo para crescer. Aliás, é a única que pode fazer o PSOL crescer. O que está posto como desafio é sermos os campeões de apresentar um projeto anticapitalista, ligando nosso partido com o povo pobre, com a juventude, e com os processos de luta que existem no mundo.

Nossa luta segue com mais força, após este outubro. A enorme audiência para nossas propostas deve ser acompanhada de uma ampla campanha de filiação partidária, organização de núcleos e instâncias. O PSOL deve seguir se postulando como um projeto que disputa a influencia de massas no âmbito local e, sobretudo, nacional, com candidatura própria em 2014 e uma atuação cotidiana, com seus parlamentares, dirigentes, lideranças e militantes nas lutas e reivindicações populares que só tendem a aumentar no próximo período.

A Direção Nacional do MES, Outubro de 2012.

Movimento Esquerda Socialista, corrente interna do Partido Socialismo e Liberdade

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