Um primeiro balanço das eleições municipais

Fernando Silveira, Correio da Cidadania, 12 de outubro de 2012

As eleições municipais não estão ainda encerradas, pois haverá 2° turno em 50 cidades do país, sendo treze capitais, envolvendo 44 milhões de eleitores e diversas cidades estratégicas para uma medição de forças mais categórica entre partidos e blocos dominantes. Dentre estas cidades, destacam-se São Paulo, Salvador, Fortaleza e outras, como as da região metropolitana e interior de São Paulo, do centro e norte do Paraná, Baixada Fluminense e região metropolitana de Belo Horizonte. Mas, em que pesem essas importantes disputas que marcam o mês de outubro, já é possível extrair algumas conclusões do 1° turno.

Há um crescimento da base governista e encolhimento da oposição à direita ao governo Dilma. Mesmo sem desconsiderar as disputas e contradições regionais – que, em diversos casos, colocaram em choque direto partidos do bloco de sustentação do governo federal (Recife e Belo Horizonte) -, os partidos que sustentam a atual coalização dominante do governo (formada pelo bloco PT-PMDB) controlam 77% dos municípios do país e disputam 47 das 50 cidades onde haverá o pleito em 2° turno.

A débâcle do DEM e o encolhimento do PSDB em relação a 2008 podem ficar ainda mais categóricos caso estes partidos sejam derrotados respectivamente em Salvador e São Paulo.

Considera-se aqui o recém-criado PSD de Kassab (quarta legenda mais votada do país) como parte da sustentação do governo federal. Este partido surgiu para isso mesmo: descolar-se do DEM para ir em direção ao “dilmismo”. A defesa decidida, pela senadora do agronegócio, Katia Abreu, da política agrícola do governo Dilma, a ponto de ser cotada para assumir ministério, fala por si. Nem mesmo a localização de Kassab com Serra em São Paulo muda essa geopolítica nacional do PSD, até porque, não fosse Serra o candidato tucano, era para a aliança com o PT que Kassab caminhava.

Também é necessário observar que, até aqui, o julgamento do mensalão não influi tanto assim no voto. Aliás, pouco influi se considerarmos que, pela primeira vez, em eleições municipais, o PT foi o partido mais votado do país (17,5 milhões de votos), ainda que tenha sofrido derrotas importantes. A estabilidade econômica, as parcialíssimas políticas públicas e o modelo bomba-relógio de consumo pelo endividamento das famílias são fatores determinantes para este voto, em geral favorável às candidaturas mais identificadas com os governos Lula e Dilma.

De outro lado, houve uma expressiva novidade nestas eleições, que, de um ponto de vista de uma esquerda coerente e socialista, merece ser destacada. Trata-se do significativo crescimento, ainda que numa parcela minoritária do eleitorado, de um voto crítico, canalizado em especial pelo PSOL. O fenômeno da votação de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro, a presença do partido no 2º turno em duas capitais do país – Belém e Macapá – e votações expressivas como em Fortaleza são evidências deste crescimento.

São expressões de um voto contra a desigualdade social, contra as mazelas estruturais de um Brasil que continua sendo o da segregação social e da concentração de renda, riquezas e terras.

Possivelmente, esse voto expressou uma parcela do eleitorado que compreende que foi o agronegócio, e não os sem-terra e os ambientalistas, que ganhou a batalha no governo Dilma. Ou dos que compreendem que as cidades não podem ser quintais da especulação imobiliária. Ou ainda um voto crítico e de desconfiança em um modelo de política de segurança que legitima a criminalização e o extermínio da juventude. Enfim, uma expressão crítica ao colapso e caos urbano das grandes cidades – seja nos transportes públicos e mobilidade urbana, na saúde pública ou na moradia.

Contra este perverso modelo chamado de “desenvolvimento” que vigora no país, tão refém e vulnerável ao capital financeiro, parceiro de empreiteiras e do agronegócio, é que uma parcela da sociedade e da juventude se manifestou de forma crítica nas eleições.

Depois do 2° turno, teremos um quadro mais definido, que em linhas gerais tende a favorecer o amplo e fisiológico campo de partidos governistas. Mas é bom ficarmos de olho, já que, depois de eleições, sempre vêm os famosos “sacos de maldades” (ainda mais em tempos de tormentas e crises externas como os que vivemos). Temas como uma nova reforma da previdência e a flexibilização da legislação trabalhista já estão na pauta.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: