Paquistão: greve geral em protesto contra a morte de 314 trabalhadores em incêndios

Fábrica têxtil de Karachi, de cinco andares, era uma verdadeira prisão: as janelas tinham barras de ferro e não havia saídas de emergência. Foi preciso serrar as barras para saltar, em muitos casos para a morte. Protesto será dia 15.

Tomi Mori, Esquerda.net, 13 de setembro de 2012

Na terça-feira, dois incêndios levaram a vida de pelo menos 314 trabalhadores, numa das maiores tragédias da história industrial do Paquistão. Em Karachi, a maior cidade do país, morreram pelo menos 289 quando a fábrica têxtil, que empregava 1.500 trabalhadores pegou fogo, transformando os cinco andares do edifício onde operava num verdadeiro inferno, segundo relatam testemunhas do desastre. Homens e mulheres tiveram que saltar pelas janelas, morrendo ou, no melhor dos casos, ferindo-se. As condições de segurança de trabalho não são cumpridas pela maior parte das empresas do Paquistão, como ocorre em absolutamente todos os países do globo, em maior ou menor grau, levando sempre à injusta morte de trabalhadores. Não havia qualquer saída de emergência, e as portas existentes, que poderiam estar abertas para prevenir a tragédia, estavam fechadas. Todas as janelas do prédio tinham barras de aço e os operários tiveram de serrá-las, como puderam, desesperados, enquanto as chamas consumiam o prédio, para tentar escapar. Só havia uma porta de saída aberta e a empresa parecia mais um presídio que um local de trabalho.

As chamas foram tão poderosas que 40 caminhões dos bombeiros levaram horas para poder controlá-las, e o que restou do prédio pode desabar a qualquer momento. Não havia onde guardar tantos corpos das vítimas.

O patrão e os encarregados, mais preocupados com as mercadorias do que com as pessoas, fugiram e foram inscritos, pela polícia, numa lista de pessoas proibidas de sair do país.

Nesse mesmo dia, em Lahore, segunda cidade do país, uma pequena fábrica de sapatos também se incendiou quando funcionários tentavam ligar o gerador de energia, devido às constantes faltas de luz, comuns em todo o país. A fábrica operava num bairro residencial e, ao que parece, funcionava ilegalmente.

Uma vida marcada pela opressão e por guerras

Viver no Paquistão, um país islâmico de 180 milhões de habitantes, nunca foi uma tarefa fácil. Apesar das diversas etnias que compõem a outrora chamada Índia britânica, parte dessa colónia transformou-se no Paquistão e a outra parte na atual Índia. É uma vida marcada pela opressão e por guerras, como as três guerras com a Índia na área da Caxemira ou depois como a chamada guerra contra o “terrorismo” que ocasionou milhares de mortes e o deslocamento de 3 milhões de pessoas, causando um transtorno imenso para a população pobre do país.

Um país subjugado pelo imperialismo americano, basta lembrar que os militares americanos invadiram-no na operação que matou Osama Bin Laden, em maio de 2011, sem julgamento e sequestrando o cadáver que, segundo a versão oficial, nunca confirmada por fontes independentes, foi atirado ao mar para acabar com qualquer vestígio do homem e do mito cujas ideias nenhum socialista compartilha, mas, nem por isso, apoiam a sua sumária execução.

Greve geral dia 15 em protesto e em defesa da vida

Segundo um manifesto que nos enviou o sindicalista paquistanês Dilawer Abbas, o Partido Trabalhista do Paquistão fez um apelo a uma greve geral no próximo sábado, 15. De acordo com o manifesto: “Fechem todas as fábricas públicas e privadas e instituições no dia 15 de setembro e sentem-se em frente às fábricas em solidariedade com os mortos no incêndio. Chamamos todo o público a juntar-se a nós nesse ‘dia de tristeza’”. A greve geral recebeu adesão imediata da Federação Sindical Nacional e de outras organizações, como a Linha de apoio às mulheres trabalhadoras.

Segundo postagem de Naveed Shaheen, no Facebook: “Muito simples, o sistema capitalista e os seus agentes, incluindo o Estado, é responsável por cada morte de trabalhadores no Paquistão ou no mundo”. O sindicalista Dilawer Abbas ressaltou que a tragédia era “muito triste”, na mensagem que enviou.

O governo, para salvar a sua imagem, ordenou uma inspeção nos locais de trabalho. Mas com a corrupção existente também no Paquistão, sabemos que tudo não passa de demagogia. A greve geral é assim a única forma de defesa para tentar impedir novas mortes em locais de trabalho, inevitáveis sob o capitalismo.

Falta de segurança faz parte do quotidiano

Mesmo em países como o Japão, a falta de segurança faz parte do quotidiano. Na semana passada, na obra onde trabalha um amigo como operário da construção civil, ocorreu um acidente. Devido à frouxidão das normas, um jovem e inexperiente operário, cuja idade a lei trabalhista impede de trabalhar em locais altos, derrubou uma ferramenta do vigésimo andar do prédio que estamos a construir. Embaixo, trabalhava, contra as normas de segurança, outro operário. A ferramenta caiu do vigésimo andar sobre a sua mão, ocasionando apenas a quebra de um dedo. Mas se tivesse caído sobre a sua cabeça, por questão de centímetros, mesmo usando capacete, já não estaria entre nós. Se isso ocorre no Japão, não é difícil entender o que ocorre em países pobres como o Paquistão ou Índia.

A greve geral dos trabalhadores do Paquistão ocorrerá no dia global de mobilização, 15 de setembro, onde estão marcadas manifestações importantes como as de Portugal, a marcha sobre Madrid, no Estado Espanhol, a manifestação na Argentina (que será realizada dia 13) e outras manifestações como na Rússia, Alemanha e Suíça, entre outras, como a do Occupy Wall Street, nos EUA, no dia 17, e diversos tipos de protestos como na Tailândia, Filipinas, França, Japão, Bangladesh, Índia, Indonésia, Sri Lanka e Canadá.

Moções de solidariedade com os trabalhadores do Paquistão podem ser enviadas para: www. laborpakistan.org

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