Assange, Wikileaks e a censura no século XXI

Assim funciona o mundo de hoje, igual ou pior desde o instante em que a segurança nacional serviu para aniquilar os direitos humanos. Na versão de O Leopardo 2.0, tudo foi clonado para preservar a essência das mentiras.

Fernando Báez, autor da “História universal da destruição dos livros”, Esquerda.net, 5 de setembro de 2012

Na capa da revista Life nº 97, de 29 de maio de 1944, aparece uma imagem que sempre me perturbou. Refiro-me a cena frequente na Segunda Guerra Mundial: dois oficiais, um deles cabisbaixo, talvez sorridente, junto a uma pilha de folhas em chamas e o outro, tomando o desinteresse pelo dever, a deitar os olhos à correspondência. Ambos calcinam informação secreta num pequeno forno e a legenda da imagem estabelece de forma expressiva: “Oficiais da Base de Espionagem, que vigiam a espionagem do inimigo, queimam papéis confidenciais”.

Falo de 1944, um ano de ações terríveis que provavelmente obrigaram a apagar dados de operações cruéis contra os nazis; o incrível é que se passaram quase sete décadas e os governos dos EUA continuam em guerra e a ocultar dados, sem se importar com a Lei da Liberdade de informação, de 1966, nem com a Freedom of Information Clearing House, organismo que protege cidadãos em busca de informação pública que seja recusada. Lugares como a prisão de Guantánamo são abóbodas sobre verdades ocultas, embora os cidadãos entusiastas e ativos confiem que o fenómeno Wikileaks volte a pegar nos antecedentes dela e que derrube as aspirações dos manipuladores do mundo.

O primeiro golpe duro contra os agentes da desinformação ocurreu em 1971 quando o jornalista Neil Sheeban, do New York Times, teve acesso a 7000 páginas, classificadas como segredo máximo de estado sobre a guerra do Vietname, e começou uma sucessão de reportagens sobre os custos duma tragédia nacional. Isso provocou demissões e reações violentas sobre os Dossiês do Pentágono e, apesar da oposição política, o Supremo Tribunal sentenciou que a segurança nacional não estava acima do direito à informação em todas as ocasiões, dado isso poder ser mais uma desculpa do que uma realidade.

Nesse momento, o autor intelectual da fuga de documentos foi o analista militar Daniel Ellsberg, o qual destruiu a sua carreira por uma questão de consciência ao entregar o relatório Relações Estados-Unidos/Vietname, 1945-1967: um estudo preparado pelo Departamento de Defesa a 18 jornais diários, entre os quais o poderoso The Washington Post. O oficial que trabalhava na Rand Corporation foi espiado, difamado, inventaram-lhe mesmo cargos de espionagem para os soviéticos e uma mulher até advertiu que ele a violara. Um consumado e impune assassino como Henry Kissinger advertiu que Ellsberg “é o homem mais perigoso dos Estados-Unidos e deve ser detido a qualquer custo”. O mundo era na época tão absurdo como o atual e Kissinger, em vez de pagar pelos seus delitos, foi premiado com o Nobel da Paz.

No segundo caso, foi Watergate a expor as mentiras do Presidente Richard Nixon e a obrigá-lo a sair a 8 de agosto de 1974: a história pode ler-se em “Todos os Homens do Presidente”, um memorável relato de Bob Woodward e Carl Bernstein em que fonte identificada como Garganta Funda, que hoje sabemos chamar-se W. Mark Felt, um diretor-adjunto do FBI, expôs a verdade sobre escutas ilegais e pagamentos de suborno por parte da equipa mais próxima do primeiro mandatário. Como pôde manter-se à margem da polémica, é difícil de imaginar, não fosse o excelente trabalho dos repórteres.

Em anos recentes formou-se novo alvoroço conhecido como questão Wikileaks, cuja liderança o misterioso e polémico australiano Julian Assange detém, zangado hoje com os seus antigos companheiros de estrada. A hiper-inflação de arquivos que a era digital acelerou pode explicar que tenham sido difundidas 251.287 transmissões de documentos, entre novembro e dezembro de 2010, uns menos importantes que outros, contudo fundamentais para conhecer a atividade de 274 embaixadas dos EUA no mundo.

Alguns documentos são entediantes, ultra-conhecidos; apenas 15.000 documentos têm relevância e justifica-se que as cadeias de média globais se interessassem repentinamente por divulgar o seu conteúdo no meio duma crise, como a fracassada ocupação do Iraque, o desastre do Afeganistão e a hecatombe económica, enfrentada por um Presidente Barak Hussein Obama, de origem tão havaiana como o próprio vocábulo Wiki.

Em geral, as publicações da organização Wikileaks apareceram e continuam a aparecer, não sem conflitos crescentes, em prestigiosos meios internacionais como El País, Le Monde, Der Spiegel, The Guardian e The New York Times. Entre a difusão de material mais controverso está, talvez, um vídeo de 12 de julho de 2007 onde se consegue discernir como tropas dos EUA asassinaram com desprezo o repórter da Reuters Namir Noor-Eldeen e, para não deixar testemunhas, mataram outras dez pessoas. Conspiração de silêncio que acompanhou também o crime contra o jornalista José Couso, condenado a ser símbolo sem significado pelos grandes grupos de média.

“Assange é um terrorista da alta tecnologia”, assinalou o obscuro vice-presidente Joseph Biden, burocrata ao serviço de clubes e associações favoráveis às indústrias militares. O bloqueio à WikiLeaks, com certeza, passou por uma cibercensura violenta: a bondosa Biblioteca do Congreso, bastião conservador nas mãos de James Billington – especialista da era Reagan que continua no ativo – nega a qualquer utilizador acesso aos documentos transmitidos, situação que causou problemas dado que a consulta da base-de-dados do próprio Congresso não se podia processar.

O ceticismo e a surpresa não devem impedir que a leitora e o leitor tenham presente que dentro dos EUA há um pequeno grupo de poder cujos privilégios são intocáveis, como em qualquer outro lugar do mundo, seja a China, a Rússia ou a Suíça. Não há média, não há instituição ou espaço que não esteja sob o seu controlo, sobretudo desde o fortalecimento dos grupos de poder, pós-guerra fria e posterior colapso da União Soviética. O Pentágono possui uma Unidade para a ciberguerra capaz de assediar e reter informação sobre dados de segurança nacional, mas estranhamente não pôde impedir o fluxo de dados da Wikileaks.

Não faz sentido não perder de vista onde começa a história. A fonte principal da fuga de informação foi Bradley E. Manning, jovem defensor dos direitos de homossexuais nascido em 1987, criado em Oklahoma, cidade onde o veterano Timothy McVeigh causou o enorme atentado terrorista de 1995. De Manning, treinado em Fort Huachuca, centro militar no Arizona, sabemos que tinha acesso à rede secreta de documentos e que era especializado em determinar as vulnerabilidades do adversário, analisar e preparar emboscadas. No Iraque, esteve em Contingency Operating Station Hammer, do qual, para além do amor pelo golfe dos seus oficiais, se conhecem as operações de guerra suja que levaram a cabo.

Um belo dia, a repulsa reprimida ou a sensação de poder que a informação dá, ou ambas as coisas, levaram a que Manning preparasse um CD, que etiquetou com o nome da extravagante cantora Lady Gaga, e que descarregasse os dados que tinha à mão, ponta do icebergue do que poderia ser a Antártida dos segredos. Posteriormente contactou a organização Wikileaks e a sua ação custou-lhe prisão, isolamento e tortura, sem contar com o misterioso manto de negligência mal-agradecida que cobriu as suas ações, numa era de banalidade e farândola viciante.

Tudo se encaminhava para passar a ser notícia sem público, entre 2010 e 2012, até o Equador conceder asilo diplomático a Julian Assange, que estava na Embaixada do Reino Unido, para logo se saber que a policía já contava com um Plano para violar qualquer acordo internacional e extraditar Assange para a Suécia, onde mulheres o acusam de fazer amor sem preservativo, desculpa perfeita para a Suécia poder cumprir com o pacto ignorado para entregar o jornalista aos EUA. EUA onde seria preso e onde eventualmente desapareceria em poucos anos quando os cidadãos estivessem distraídos por qualquer episódio duma das suas séries de televisão favoritas sobre a fama, a sobrevivência, ou o humor inócuo.

Assim funciona o mundo de hoje, igual ou pior desde o instante em que a segurança nacional serviu para aniquilar os direitos humanos. Na versão de O Leopardo 2.0, tudo foi clonado para preservar a essência das mentiras: Guantánamo continua; o Iraque está à beira duma guerra civil; a AlQaeda fortalece-se na África subsaariana; Bin Laden foi assassinado e atirado ao mar, e essa versão deve aceitar-se, sem provas, como única; o Afeganistão é um desastre; os banqueiros corruptos de Wall Street, criadores duma crise mundial, estão mais protegidos que nunca; e para manter tranquilos os média, que se queixam dos seus mortos – nunca dos mortos dos outros — desenvolveram-se veículos áereos não tripulados (drones) que aniquilam silenciosamente centenas de pessoas no Paquistão e no Iémen – muitas delas inocentes. Não fora a Wikileaks, e o caminho que abriu, as falsidades teriam alibis perfeitos e por isso milhões de nós decidiram apoiar o labor de Assange e de quem, como ele, nos ajude a desmascarar os responsáveis pela crise global de que padecemos nestes inícios do século XXI. Aconteça-nos o que acontecer, prisão ou desaparecimento, os nossos filhos e filhas merecem um mundo melhor, mais transparente.

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FERNANDO BÁEZ, venezuelano, assessor da UNESCO, é perito de topo em património cultural e tráfico ilícito de bens culturais. Em 2003 visitou o Iraque como membro das comissões UNESCO que investigaram a destruição de bibliotecas e museus dessa nação. Atualmente vive no Egito com bolsa do governo do Qatar para investigar a rota trans-saariana dos livros na história da Europa, África e Médio Oriente. Doutor em Ciências da Informação e Bibliotecas, autor de vários livros, nomeadamente: A destruição cultural do Iraque (2005), O saque cultural da América Latina (2008), História universal da destruição dos livros (Texto, 2009), Nova História universal da destruição dos livros (Destino, España, 2011), As maravilhas perdidas do mundo (2012, a lançar em breve).

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