O paradigma: Teoria sobre revoluções científicas faz 50 anos

Desenvolvida pelo físico Thomas Kuhn no clássico A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), a teoria de paradigmas que são compartilhados pela comunidade científica até que sejam superados tornou-se um lugar-comum em discussões intelectuais e corporativas, mas permanece brilhante e atual.

John Naughton, The Guardian / Folha de S.Paulo, 2 de setembro de 2012

Há 50 anos, a editora da Universidade de Chicago lançou um dos livros mais influentes do século 20: A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn. Para tirar a prova, basta pensar se você já ouviu ou empregou a expressão “mudança de paradigma”, provavelmente a mais usada -e abusada- nas discussões contemporâneas sobre mudança organizacional e progresso intelectual.

A sacada de Kuhn surgiu da compreensão de que, se alguém deseja entender a ciência aristotélica, precisa conhecer a tradição intelectual na qual Aristóteles trabalhava. Para ele, o termo “movimento” queria dizer mudança em geral – não só a mudança de posição de um corpo, hoje.

Essa percepção é o propulsor do livro de Kuhn, que foi lançado em 1962, com 172 páginas. O autor se referia à edição como “um simples rascunho”. Sem dúvida preferiria ter escrito um tijolo de 800 páginas. A legibilidade e a relativa brevidade do tal “rascunho” foram cruciais para o seu sucesso.

A proposição central é que um estudo cuidadoso da história da ciência revela que o desenvolvimento, em qualquer campo científico, acontece em fases. A primeira é a “ciência normal”. Nessa fase, uma comunidade de pesquisadores que compartilha uma estrutura intelectual – “paradigma” ou “matriz disciplinar” – se envolve na solução de enigmas gerados por discrepâncias (anomalias) entre o que o paradigma prevê e o que a observação ou experimento revela.

Em geral, as anomalias são resolvidas por alterações graduais de paradigma ou pela constatação de erros de observação ou nos experimentos. Como define o filósofo Ian Hacking em seu prefácio para a nova edição de A Estrutura das Revoluções Científicas, “a ciência normal não busca novidade, mas limpar o status quo. Tende a descobrir o que espera descobrir”.

O problema é que em períodos mais longos as anomalias não resolvidas se acumulam e a situação força os cientistas a questionar o paradigma. Quando isso acontece, a disciplina entra em crise, caracterizada, nas palavras de Kuhn, por “uma proliferação de articulações convincentes, a disposição de tentar qualquer coisa, a expressão de descontentamento explícito, o recurso à filosofia e ao debate de preferência aos fundamentos”.

A crise é resolvida por uma mudança revolucionária de visão do mundo, na qual o paradigma deficiente é substituído por um novo. É a “mudança de paradigma” que se tornou clichê, e depois que ela acontece o campo científico retorna à ciência normal, mas com nova estrutura. E o ciclo recomeça.

O que mais incomodou os filósofos foi o argumento segundo o qual paradigmas concorrentes são “incomensuráveis”, ou seja, não há modo objetivo de avaliar seus méritos. Não há, por exemplo, como testar os méritos comparativos da mecânica newtoniana (que se aplica a planetas e bolas de bilhar, mas não ao que acontece dentro do átomo) e da mecânica quântica (que trata do nível subatômico).

Mas, se os paradigmas rivais forem de fato incomensuráveis, isso não implicaria que as revoluções científicas, ao menos em parte, tivessem bases irracionais?

A grande ideia de Kuhn -a de um “paradigma” como estrutura intelectual que torna a pesquisa possível- ganhou vida própria. Charlatães, marqueteiros e administradores de empresas a usam para convencer seus clientes da necessidade de mudanças em sua visão de mundo. E cientistas sociais viram uma rota para a respeitabilidade e as verbas de pesquisa, o que por sua vez resultou na emergência de paradigmas patológicos em áreas como a economia.

A ideia mais intrigante, porém, é a de usar o pensamento de Kuhn para interpretar sua realização. Discreto, ele causou uma revolução conceitual mudar nossa compreensão da ciência. Mas as anomalias já começam a se acumular. Kuhn acreditava que a ciência girasse em torno de teorias, mas uma vanguarda cada vez mais forte usa pesquisas baseadas não em teorias, mas em dados.

E, embora a física fosse indubitavelmente a rainha das ciências, quando o livro de Kuhn foi escrito, esse papel agora é da genética molecular e da biotecnologia. Será que sua análise se aplica a essas novas áreas? Se não, será o momento de uma mudança de paradigma?

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