Guerra salarial abala Bangladesh

Setor de têxteis tem impasse trabalhista

Jim Yardkey, The New York Times /Folha de S.Paulo, 3 de setembro de 2012

Bangladesh, um país antes pobre e irrelevante para a economia mundial, hoje é um grande exportador. Perdendo apenas para a China em exportações globais de roupas, suas fábricas produzem roupas para grifes como Tommy Hilfiger, Gap, Calvin Klein e H&M. Redes varejistas internacionais, como Target e Walmart, hoje têm escritórios na capital, Dacca. O setor de confecção de roupas é responsável por 80% das exportações de manufaturados do país e garante mais de 3 milhões de empregos.

Mas a fórmula manufatureira bengalesa depende de o país ter a mão de obra mais barata do mundo, o salário mínimo pago aos trabalhadores do setor de roupas é de aproximadamente US$ 37 por mês. Nos últimos dois anos, à medida que a inflação de mais de 10% vem erodindo os salários, os protestos e choques violentos com a polícia vêm se tornando comuns.

Em resposta, os líderes bengaleses recorreram aos instrumentos de segurança do Estado para manter as fábricas em funcionamento. Um comitê governamental de alto nível monitora o setor têxtil e inclui agentes militares, da polícia e de agências de inteligência. Uma força policial especial patrulha muitas áreas industriais. As agências de inteligência vigiam alguns sindicalistas. Em abril, o sindicalista Aminul Islam foi encontrado torturado e morto.

“A indústria do vestuário é a n°1 do país em termos de exportações”, disse Alonso Suson, do Centro de Solidariedade, em Dacca, um grupo de defesa dos direitos dos trabalhadores. “Qualquer desaceleração do desenvolvimento é uma questão de segurança nacional.”

Para as marcas globais, que procuram os custos de mão de obra mais baixos, Bangladesh vem sendo um lugar muito visado, especialmente na medida em que os salários na China vêm subindo. A grande consultoria McKinsey descreve o Bangladesh como “a próxima China” e previu que suas exportações de roupas, que hoje valem cerca de US$ 18 bilhões por ano, podem triplicar até 2020.

Em julho, porém, representantes de 12 grandes marcas e varejistas, alarmados com a agitação crescente, tentaram sem sucesso instigar o governo do Bangladesh a atender às reivindicações salariais dos trabalhadores. “Não há motivo de preocupação”, disse o ministro do Trabalho, Khandker Mosharraf, observando que as marcas não estavam cancelando seus pedidos.

Com cerca de 150 milhões de habitantes, o Bangladesh possui uma das maiores densidades demográficas do mundo. O país tem feito avanços na alfabetização de mulheres, na mortalidade juvenil e materna, na renda per capita e na expectativa de vida.

O setor do vestuário, em que cerca de 80% dos trabalhadores são mulheres, vem desempenhando um papel crítico, garantindo empregos socialmente aceitáveis para mulheres num país muçulmano conservador.

O governo da primeira-ministra Sheikh Hasina resiste a ampliar os direitos trabalhistas num país em que os donos das cerca de 5.000 fábricas de vestuário exercem influência enorme. Eles são grandes doadores políticos, proprietários de jornais e emissoras de TV. Mais ou menos dois terços dos parlamentares bengaleses são membros das três maiores associações comerciais do país. Ao menos 30 donos de fábricas ou familiares deles ocupam cadeiras no Parlamento -cerca de 10% do total.

“A política e os negócios estão tão interligados que são parentes”, disse Iftekharuzzaman, diretor da seção no Bangladesh da organização Transparency International. “A posição de negociação dos operários é muito, muito limitada.”

Um país dentro de um país

Mohammad Helal Uddin foi trabalhar para a Rosita Knitwear em maio de 2010. A Rosita ficava na nova Zona de Processamento de Exportações de Ishwardi, perto do vilarejo natal de Uddin. “Sinto que este emprego me confere alguma dignidade”, disse.

Uddin, 28, trabalhou no departamento de tricô, depois de seis meses foi promovido, com salário base de US$ 55 por mês. Ele não demorou a perceber irregularidades. Operários não estavam recebendo os reajustes prometidos, os abonos de comparecimento mensal ou os 17 dias de férias pagas por ano, além do dia de descanso semanal, de praxe. Os operários diziam, também, que faziam quatro horas extras diárias, mas recebiam por apenas duas.

Três décadas atrás, Bangladesh criou uma rede de zonas de exportação, para atrair investimentos externos com incentivos fiscais e outros benefícios. Hoje a grande maioria das fábricas de roupa fica fora dessas zonas, mas empresas estrangeiras como a Rosita e sua fábrica irmã Megatex, ambas pertencentes ao conglomerado South Ocean, de Hong Kong, preferem as zonas de exportação. Zonas como a de Ishwardi funcionam como países dentro do país maior. São governadas por uma agência separada e leis distintas. A agência é comandada por um oficial militar. Muitas fábricas contratam militares aposentados para gerir sua segurança.

Dentro das zonas de exportação, os salários eram mais altos e as condições de trabalho eram melhores. Mas os sindicatos eram proibidos, até 2004, quando o Parlamento cedeu à pressão internacional.

Em dezembro passado, os trabalhadores da fábrica da Rosita elegeram uma associação com 15 membros, presidida por Uddin. Em janeiro, uma operária denunciou um gerente bengalês de nível médio, que a estaria pressionando a fazer sexo com um dos chefes chineses. Operários enfurecidos exigiram que a direção da fábrica respondesse à queixa da funcionária e tomasse medidas em relação às discrepâncias em torno de reajustes anuais e férias vencidas. Seguiram-se seis semanas de confrontos e caos. Em fevereiro, equipamentos da fábrica da Rosita foram danificados durante um confronto. Quase 300 operários foram demitidos. Uddin foi demitido e preso temporariamente.

Ele contou que, quando tentou retornar ao trabalho, dois agentes o levaram à força a uma pequena guarita. Eram integrantes do Batalhão de Ação Veloz, uma força paramilitar governamental que é infame por ataques conhecidos como mortes no “fogo cruzado”. Uddin contou que um dos agentes lhe mandou assinar um pedido de demissão. “Se você não assinar, terá que enfrentar o fogo cruzado”, o agente lhe teria dito. Uddin assinou.

Dentro da fábrica, policiais e paramilitares exibiram cartas de demissão. Um executivo da South Ocean prometeu ouvir as reivindicações dos trabalhadores. Mas então, em 20 de março, os operários descobriram que a direção da fábrica tinha cortado uma espécie de abono por produtividade, o que significava uma redução no salário. Seguiu-se novo enfrentamento. Quando os operários retornaram ao trabalho, em 25 de março, o corte salarial ainda não tinha sido revogado por completo.

Centenas de trabalhadores fizeram uma greve espontânea. A polícia chegou logo depois e mandou todos voltarem ao trabalho. Uma costureira contou que um policial a espancou até ela desmaiar e rasgou suas roupas. “Implorei para que parassem”, contou.

Os operários começaram a atirar pedras, e os policiais fugiram. Horas depois chegaram mais policiais. O supervisor dos policiais, Akbar Hossein, negou que os policiais fossem os agressores. “Eles (os operários) atacaram a polícia”, disse.

Vídeos filmados com celulares mostram policiais disparando balas de borracha e espancando operários com canos.

A equação do poder

Três meses após os choques em Ishwardi, milhares de trabalhadores protestaram nos arredores de Dacca, reivindicando salários melhores e deixando uma das zonas industriais mais importantes do país paralisada por mais de uma semana. Policiais usaram gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes, dezenas destes ficaram feridos.

Após os protestos enormes de 2010, a primeira-ministra Hasina elevou o salário dos trabalhadores no setor de vestuário de US$ 20 para US$ 37 mensais. Mas seu governo resiste às novas reivindicações dos trabalhadores.

“Eles querem melhores padrões e condições de trabalho nas fábricas do Bangladesh”, disse Julia K. Hughes, presidente do grupo comercial Associação Americana de Importadores de Têxteis e Vestuário, de Washington. “Os salários precisam subir, sem dúvida.”

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