Richard Sennett: juntos agora

“Fazer é pensar”, afirma Richard Sennett, um dos mais importantes sociólogos contemporâneos. Seu trabalho reflete sobre como os sujeitos podem se tornar intérpretes competentes da própria experiência a despeito dos obstáculos que a sociedade possa oferecer. Para ele, pensamento e sentimento estão contidos no processo de fazer, transformando em falsa a divisão entre o “homem que faz” e o “homem que pensa” – aqui se remete às reflexões da filósofa alemã Hannah Arendt, de quem foi aluno. Sennett acaba de ter lançado no Brasil o livro “Juntos: Os Rituais, os Prazeres e a Política da Cooperação”, segundo volume do seu “Projeto Homo Faber”, trilogia que tem no centro a ideia do homem como artífice de si mesmo.

Reportagem e entrevista de Giovanna Bartucci a Richard Sennett, Valor, 24 de agosto de 2012

Com mais de 15 livros publicados sobre como as cidades são organizadas – as relações entre classes sociais, oportunidades econômicas e relações familiares -, e também sobre as consequências sociais e emocionais do capitalismo contemporâneo, as pesquisas de Sennett se voltaram, nos últimos tempos, para os estudos culturais, estabelecendo um diálogo entre sociologia, história, antropologia e psicologia social.

Seu “Projeto Homo Faber” defende a urgência em pesquisar “as habilidades necessárias à vida cotidiana”, ao explorar práticas sociais e materiais – isto é, os objetos, as ferramentas e as máquinas criadas pelo homem e o modo pelo qual ele interage com elas – presentes em um mundo globalizado e pleno de incertezas.

Se em “O Artífice” (Record, 2009), primeiro volume da série, Sennett analisa a artesania, ou seja, o empenho de fazer bem as coisas materiais, no livro recém-lançado ele aborda a natureza da cooperação, traça a evolução de seus rituais desde a Idade Média até a atualidade e detém-se nas razões pelas quais a cooperação se tornou débil e na maneira pela qual pode ser fortalecida.

“Juntos” foi uma consequência natural de “O Artífice”, já que “a artesania prospera em comunidades com laços sociais fortes e em organizações que encorajam a cooperação”, afirma o sociólogo, professor da New York University, da London School of Economics e da Cambridge University – onde é professor-visitante emérito. Sennett define a cooperação habilidosa como um ofício que tem o seu fundamento no aprendizado de escutar o outro com atenção e na capacidade de dialogar, em oposição a debater ou discutir. No entanto, se na economia contemporânea artesania e cooperação estão ameaçadas e o desafio de conviver com a diferença – seja racial, étnica, religiosa ou econômica – é extremo, Sennett entende que a prática da cooperação se torna fundamental para a prosperidade da sociedade.

Considerando ainda que as relações e “condições” espaciais têm importância enorme no modo por meio do qual “estranhos” (ou pessoas diferentes umas das outras) se relacionam nas grandes cidades, o autor espera que o terceiro volume da trilogia, ainda em elaboração, possa produzir ideias de valor sobre como as cidades podem ser mais bem construídas visando a qualidade de vida das pessoas.

É provável que seus escritos sobre as cidades tenham sido fortemente influenciados por sua experiência de vida familiar. Nascido em 1º de janeiro de 1943, em Chicago, o autor morou, dos 3 aos 9 anos, com a mãe, escritora e destacada assistente social, em Cabrini Green, conjunto habitacional construído com o objetivo de suprir a escassez de moradia causada pela Segunda Guerra, mas também de combater a segregação racial.

O relacionamento passivo com o conjunto habitacional, cuja austeridade arquitetônica, com seus caixotes baixos e compridos, representava a bandeira modernista do projeto, deixou marcas na “comunidade mista de negros, brancos pobres, mutilados [de guerra] e perturbados mentais [que] compunha o objeto do experimento de inclusão social”, escreve o autor no livro “Respeito – A Formação do Caráter em um Mundo Desigual” (2004, Record). Frequentando uma escola católica e mergulhado em estudos musicais iniciados aos 5 anos, Sennett passou a infância em Cabrini Green. Aos 15, já tendo morado com a mãe em Washington, durante seis anos, o então músico saiu de casa e, de volta a Chicago, passou a viver de seu trabalho como violoncelista.

Músico profissional dos 15 aos 19, quando passou a sofrer de síndrome do túnel carpal, foi obrigado a abandonar a carreira precocemente e a investir, ainda que à época de maneira descomprometida, na sociologia. Assim, não soa estranha sua afirmação: “Minha sociologia é construída em torno do modelo de aquisição da habilidade de tocar um instrumento, e a prática e o aprimoramento da prática têm sido sempre o centro do que tenho realizado em sociologia”. E mais: “No que diz respeito à cooperação e relações de autoridade, a maneira por meio da qual músicos trabalham juntos se constituiu em um modelo de sociabilidade para mim”.

Detentor de numerosos prêmios e com obras traduzidas para diversos idiomas, Richard Sennett também publicou três livros de ficção na década de 1980, ainda inéditos no Brasil.

Eis a entrevista.

Antes de começar a trabalhar na sua trilogia, o senhor escreveu de maneira extensa sobre as consequências sociais e emocionais do capitalismo contemporâneo. Como vê o mundo hoje?

A década de 1990, período durante o qual escrevi esses ensaios críticos [“A Corrosão do Caráter”, “Respeito” e “A Cultura do Novo Capitalismo”], foi um período de boom para o neoliberalismo. O que está acontecendo agora é que estamos vivendo uma crise, a era neoliberal entrou em colapso, no que diz respeito à sua manutenção financeira, e suas fontes têm se provado insustentáveis. Tive um vislumbre disso, na época, quando percebi que a experiência de trabalho das pessoas estava se tornando muito empobrecedora. Hoje, eu diria que a ideia de encontrar uma alternativa não é um projeto utópico, mas algo que precisamos fazer porque esse sistema não funciona. No entanto, encontrar uma alternativa significa repensar coisas muito básicas, como o que é trabalhar bem, cooperar, criar um lugar no mundo para si. Estou interessado em pesquisar de maneira aprofundada sobre como as nossas atitudes e os nossos comportamentos devem mudar para que sejamos capazes de responder a essa crise.

A sua trilogia é, então, a sua resposta a esse estado de coisas?

Sim, exatamente. Eu me cansei de ser apenas um crítico do capitalismo. É deprimente escrever somente sobre o que não funciona bem. Comecei, então, a pensar sobre qual seria a melhor maneira de compreender como as pessoas exercem um ofício e trabalham. E todo esse novo campo que diz respeito a questões relacionadas às habilidades, à busca da qualidade e à forma que as atividades produtivas podem estar associadas a como as pessoas cooperam umas com as outras, estabelecem relações sociais e criam espaços para viver nas cidades, se abriu para mim. São esses os temas da trilogia.

Quais são os valores e práticas capazes de manter as pessoas “juntas”, cooperando umas com as outras, neste momento em que as instituições se encontram desacreditadas?

Penso que há duas, inicialmente. A primeira diz respeito ao tempo, à duração de tempo, que instituições da sociedade civil e organizações como ambientes de trabalho mantêm as pessoas em contato umas com as outras. Atualmente, o mundo social tem se organizado em torno de trocas de curto prazo, ao invés de relações de longo prazo. Expandir o tempo significa, por exemplo, possibilitar que trabalhadores estabeleçam contratos de longo prazo, em lugar de curto prazo. Essas são aplicações muito práticas. No que diz respeito às empresas, implica manter trabalhadores em suas equipes, ao invés de deslocá-los permanentemente, de maneira flexível. Ou seja, tempo funcionando aqui como cimento, como uma narrativa. A segunda habilidade que as pessoas têm que aprender, para enfrentar essa crise, diz respeito à capacidade de lidar com a agressividade e a competição, na medida em que formas agressivas de competição são recompensadas, enquanto outras formas não o são, provocando uma desigualdade enorme. Penso que é importante repensarmos a competição tanto culturalmente quanto economicamente.

O senhor tem afirmado que a “cooperação” tem se deteriorado na esfera política e também na sociedade civil e define o termo como “trabalhar com os outros para fazer algo que não se consegue fazer por si próprio”. No entanto, a expectativa é de que os homens e mulheres contemporâneos sejam autossuficientes e autocentrados. O que pensa desse paradoxo?

O problema aqui está em como pensar em precisar de pessoas com as quais não se está conectado intimamente, que não se conheça bem ou mesmo de quem não se gosta. Ou seja, de um modo mais adulto e complexo. E essa é a realidade adulta que está presente na “cooperação”. No entanto, para que isso seja feito é necessário imaginar que as relações sociais são como uma oficina [workshop] na qual as pessoas, com diferentes qualidades e habilidades, trabalham sobre um problema comum. Uma oficina não é apenas uma oficina de artesanato; existem laboratórios científicos que funcionam da mesma maneira. O paradoxo, então, não está na sociedade como um todo, mas exatamente no fato de que o sistema econômico recompensa e premia uma forma não produtiva de trabalho conjunto. E o sistema trata as pessoas como autossuficientes porque recompensa aqueles poucos que o são e não recompensa muito bem aqueles que não têm esse tipo de “capital humano” ou posição social. Desse modo, se há um paradoxo, aqui, diz respeito ao fato de que o sistema está cego para aquilo que é, de fato, produtivo.

“Uma das coisas que espero que fiquem claras é que não faço distinção entre corpo e mente, ao me ater a como os seres humanos produzem coisas”

Como o senhor vê as mobilizações sociais como Occupy Wall Street e os movimentos sociais omo a Primavera Árabe?

Com prazer! Mas são formas muito diferentes de cooperação. O que chamamos de Primavera Árabe foram movimentos de massa nos quais as pessoas cooperavam em grandes multidões, e o fato de se juntarem em uma quantidade enorme de pessoas foi parte de sua força. Os movimentos Occupy foram bem menores – e isso é algo que as pessoas esquecem, que eram de apenas 200 ou 300 pessoas. Esses movimentos não se apoiaram na quantidade de participantes e, sim, na persistência em provocar uma conscientização no público, de maneira geral, por meio da mídia. Em outras palavras, não era um movimento de massa, como o entendemos, mas tornou-se um na medida em que despertou o público de maneira bem diferente. E a cooperação, aqui, está no fato de que essas 200 ou 300 pessoas, dormindo juntas no parque, em Nova York, criaram laços sociais que permitiram que perseverassem. Os movimentos Occupy não eram “demonstrações”, que teriam a duração de algumas horas ou um dia, mas “ocupações” de longo prazo – o que deu às pessoas envolvidas a força para continuar a tentar despertar o público. Nos movimentos da África do Norte havia uma massa de pessoas que não precisava ser acordada. Elas haviam vivido sob tirania por décadas. O que precisavam era de um “instrumento” por meio do qual se juntar. Mas na Inglaterra e nos Estados Unidos os movimentos Occupy aconteceram após três anos de colapso financeiro, durante os quais a maioria das pessoas comprou a história de que o sistema tinha de ser restaurado ao que era antes, e os ocupantes desafiaram isso. As formas de cooperação são, então, muito diferentes, uma impessoal e outra bastante pessoal, com objetivos distintos. Mas ambas são formas de cooperação política.

O seu livro “Carne e Pedra” (1992) é um estudo sobre como a experiência do corpo tem sido moldada pela evolução das cidades. Como é que o terceiro volume de sua trilogia está relacionado ao seu trabalho anterior?

É claro que vou me apoiar em minhas pesquisas anteriores, mas a diferença está em que o terceiro volume tem como tema o design urbano, o planejamento e a arquitetura como ofícios. O foco estará menos na maneira em como as pessoas habitam espaços que não construíram e mais em como construir cidades de melhor qualidade por meio do design.

O corpo como sítio, como uma “cidade”. O que o senhor pensa dessa ideia?

O corpo é uma cidade! Sim, é um sítio tanto de conhecimento quanto de ação. E uma das coisas que espero que fiquem claras ao final dessa trilogia é que não faço distinção entre corpo e mente, ao me ater em como os seres humanos produzem coisas. Desconfio absolutamente da ideia de que as pessoas, quando produtivas, estejam fisicamente desconectadas e de que tenham uma vida espiritual divorciada dos sentidos. É estranho, mas esse é um tipo de romantismo que tem persistido: acreditar que se tenha uma vida interior divorciada da vida exterior.

E os seus romances? Como estão relacionados ao seu trabalho sociológico?

Gosto bastante de “Palais Royal” (1987). O que aconteceu foi que, quando terminei “O Declínio do Homem Público” (1974), senti que a minha escrita estava se deteriorando e eu estava perdendo a habilidade de escrever de maneira “evocativa”. Leio ficção sempre; decidi, então, que começaria a escrever romances para encontrar caminhos por meio dos quais rejuvenescer a minha escrita. Escrever não é algo natural para mim; os resultados são satisfatórios, mas preciso fazer um esforço. Assim, escrevi romances porque precisava fazer o meu workshop pessoal.

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