Avós: os novos solteiros

As famílias se tornaram pequenas não tanto porque não vivemos junto com os próprios avós, mas porque os “vovôs” sobrevivem por muito tempo e, assim, aparecem nas estatísticas como “casais sem filhos” (porque os filhos não vivem com eles), ou, se viúvos, como “famílias unipessoais”.

Chiara Saraceno, La Repubblica, 23  de agosto de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Reproduzido de IHU On-line.

Uma das maiores causas de mudança na composição das famílias é o envelhecimento da população. O duplo fenômeno da redução dos nascimentos e do aumento da expectativa de vida mudou a forma tanto das unidades familiares residenciais (aqueles que vivem debaixo do mesmo teto) quanto das redes parentais e das relações entre as gerações.

Aos muitos netos que, ainda na minha geração de 70 anos, não conheceram nenhum avô, se substituíram os pouquíssimos netos que muitas vezes têm, por longos trechos das próprias vidas, quatro avós e se tornam adultos tendo ainda algum deles. Não moram juntos, em geral, mas têm relações frequentes e muitas vezes intensas.

A redução do número de pessoas que compõem uma unidade familiar de residência deve ser lida sobretudo nesse contexto de profunda transformação demográfica. As famílias se tornaram pequenas não tanto porque não vivemos junto com os próprios avós, mas porque os “vovôs” sobrevivem por muito tempo e, assim, aparecem nas estatísticas como “casais sem filhos” (porque os filhos não vivem com eles), ou, se viúvos, como “famílias unipessoais”, com um maravilhoso oxímoro totalmente italiano.

Nem mesmo no passado a maior parte das pessoas vivam debaixo do mesmo teto em famílias com três ou mais gerações. Era verdade apenas para algumas camadas (principalmente rurais) e regiões [italianas] (o Centro, o Norte-Leste). Mas mesmo nessas regiões e camadas esse modo de fazer família se tornou progressivamente uma exceção, apesar de que o aumento da expectativa de vida o tornasse teoricamente mais acessível e por um período mais longo.

Em compensação, a experiência de ter redes geracionais de três e até de quatro gerações ao longo da própria vida tornou-se uma experiência normal. Ocorre em todos os países desenvolvidos, mas na Itália o fenômeno tem uma intensidade maior, dada a histórica importância das redes de parentesco na vida cotidiana e social, e nas trocas de ajudas, no nosso país. Uma importância ao mesmo tempo dada por óbvia e reforçada pela fraqueza do bem-estar público, e agora sob tensão justamente pelo cruzamento de mudanças demográficas e pela inadequação do bem-estar.

Não há apenas o fenômeno da cada vez longa permanência dos filhos na família, o que retarda a possibilidade de que estes últimos façam a sua própria família. Mesmo quando saem de casa, os jovens muitas vezes se apoiam nas famílias de origem para aceder a uma casa ou para enfrentar imprevistos econômicos.

Os avós, e sobretudo as avós, mais do que em outros países são um recurso indispensável para a organização de uma família jovem em que ambos os genitores, ou o único presente, trabalham. E os idosos frágeis ou não autossuficientes necessariamente devem contar com as filhas e noras, na ausência de uma rede de serviços capilar e acessível. Mesmo quando há um cuidador, muitas vezes quem detém a liderança é uma filha ou uma nora. “Intimidade à distância” e interdependência mais ou menos forçada são dois lados da mesma moeda.

Não são apenas os fenômenos demográficos que transformam o modo de fazer família e modificam os limites entre as relações familiares e outros tipos de relação. A própria redução dos nascimentos é resultado de profundas transformações culturais relativamente à importância dos filhos ou, melhor, do seu número, para a autorrealização e, ao mesmo tempo, do maior investimento sobre cada filho. Separações e divórcios assinalam não apenas que nos tornamos menos capazes de fazer um bom casamento, mas também que mudaram as expectativas. E estamos menos dispostos/as a permanecer em uma relação que se tornou negativa ou sem sentido.

A essa maior, embora arriscada, liberdade nas relações familiares serve de contrapeso um afrouxamento dos limites entre relações familiares e não familiares. Não me refiro apenas às famílias de fato, hetero ou homossexuais, mas também às chamadas “famílias de escolha”, baseadas na escolha recíproca de solidariedade mais do que em estatutos institucionalizados. Pode assumir a forma da coabitação, mas o mais frequente é o de uma rede de autoajuda mútua e de socialidade cotidiana.

É um fenômeno que na Itália se refere principalmente aos casais jovens com filhos pequenos, que integram, ou substituem, a rede parental horizontal com a rede que constroem com amigos. Em outros países, por exemplos os nórdicos, a Holanda, os Estados Unidos, isso se refere tanto aos jovens que ainda não formaram uma família própria quanto aos idosos.

A capacidade de construir famílias e redes “familiares” continua sendo vital. Basta olhar para além do modelo único.

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