Fim do euro seria ‘parada cardíaca’ para a Europa

Fragmentação econômica da Europa interromperia, a curto prazo, os fluxos transacionais de bens, serviços e capitais, com risco de calotes múltiplos.

Nicolas Berggruen, Mohamed El-Erian e Nouriel Roubine, O Estado de S.Paulo, 22 de agosto de 2012

Vozes respeitáveis na opinião dominante estão concluindo que a zona do euro pode não ser mais sustentável. Nessa visão emergente, a Europa faria melhor dividindo-se agora do que mais tarde, quando os custos seriam muito maiores. Mas essa opinião vai longe demais. Ninguém deve duvidar: se a zona do euro se fragmentar totalmente, a Europa fracassará como mercado único e a União Europeia também poderá desmoronar.

No curto prazo, uma fragmentação seria o equivalente econômico e financeiro de uma parada cardíaca para a Europa. Os fluxos transnacionais de bens, serviços e capitais seriam interrompidos na medida em que preocupações com as denominações em moedas sobrepujariam o cálculo de valor normal. Os grandes descompassos entre moedas alimentariam uma tensão financeira corporativa, podendo até causar calotes múltiplos. O desemprego aumentaria. E a provisão de serviços financeiros básicos, dos bancários aos seguros, seriam reduzidos, com uma alta probabilidade de corridas aos bancos nos membros mais vulneráveis da zona do euro.

Os controles proliferariam – já que as economias fracas tentariam limitar a fuga de capitais e as economias fortes resistiriam às entradas excessivas. No processo, o próprio funcionamento do Mercado Comum que sustenta o projeto de integração europeia seriam solapado. A balcanização de bancos, mercados financeiros e mercados de dívida pública que já está havendo seria seguida pela balcanização do comércio de bens, serviços, trabalho e capital, e um retorno ao protecionismo comercial e financeiro.

Os países que a essa altura já estão atolados em vários anos de gestão da crise têm amortecedores internos limitados, se é que têm algum, para absorver novos choques. Por conseguinte, as rupturas econômicas e financeiras provavelmente alimentarão uma agitação social e a disfunção política – solapando ainda mais o suporte nacional à integração europeia. Embora o impacto da catástrofe seria sentido principalmente pelas economias fracas (anteriormente periféricas), os países mais fortes (anteriormente centrais) também seriam substancialmente atingidos.

Analisemos cada caso em separado.

Com o retorno a suas moedas nacionais, as economias mais fracas da zona do euro poderiam recuperar o controle de um conjunto mais amplo de instrumentos de política econômica. Com isso, elas teriam meios melhores para buscar os ganhos competitivos que são fundamentais para restaurar a dinâmica do crescimento e gerar empregos.

Mas para a eficácia disso seria preciso uma hábil gestão de uma grande desvalorização monetária. Eles teriam de contrabalançar pressões inflacionárias significativas e os custos mais altos de importações, ruptura de canais de transmissão bancários e monetários e custos de risco crescentes. E, com a Europa toda arruinada, eles descobririam que as vantagens de preço obtidas pela desvalorização correm o risco de ser erodidas por um colapso da demanda regional. Ademais, dado o descompasso das moedas, um retorno em larga escala às moedas nacionais poderia envolver também uma série de calotes, junto com algumas reestruturações coagidas e uma conversão forçada de ativos em euros nas novas moedas nacionais depreciadas.

As questões de demanda regional e calotes também são importantes para as economias mais fortes. Apesar dos ganhos obtidos em diversificação comercial, incluindo uma maior reorientação para países emergentes, uma quantidade significativa de suas exportações ainda é vendida na Europa. O colapso desse mercado se somaria aos prejuízos causados pela demandas financeiras em acelerada erosão sobre o calote de economias mais fracas de suas dívidas em euros, tanto diretas como via a provável necessidade de recapitalizar instituições regionais. A reestruturação de dívidas, e mesmo os calotes puros e simples, enfraqueceria os balanços das instituições de crédito, aumentaria a própria dívida (porque elas terão os mesmos ativos, mas obrigações maiores) e seus custos de capital. E a classificação AAA da Alemanha e de outros membros centrais da zona do euro também ficariam em risco.

Depois, há o restante do mundo. A Europa ainda é a maior zona econômica e a mais interligada financeiramente. Como tal, rupturas inevitavelmente seriam transmitidas para o restante do mundo.

E, com os Estados Unidos já em dificuldade para manter um crescimento econômico e uma criação de empregos significativos, ocorreria uma recessão global.

Tudo isso tem a ver, é claro, com a razão porque todas os pronunciamentos políticos têm repetidamente buscado descartar uma dissolução da zona do euro; é também por isso que os líderes de outros países exerceram pressão sobre seus congêneres europeus para enfrentarem a crise regional de maneira mais determinada e holística.

Mas palavras e persuasão moral são absolutamente insuficientes para barrar as forças da dissolução que foram capacitadas por importantes falhas de projeto e alimentadas por anos de respostas políticas mais táticas que estratégicas, mais sequenciais que simultâneas, e mais parciais que abrangentes.

Somente com a compreensão da enormidade dos riscos que enfrentam, os líderes da Europa terão a possibilidade de superar as persistentes tensões internas e convergir para uma resposta potencialmente capaz de virar o jogo.

E somente então eles conseguirão convencer uma cidadania cética da necessidade de tomar medidas realmente sem precedentes – primeiro, reformar a zona do euro numa união mais coerente que é menor, menos imperfeita, e mais robustamente planejada e operada; segundo, garantir que essa zona do euro reformulada possa avançar na geração de crescimento e empregos; e terceiro, salvaguardar o funcionamento mais geral da União Europeia.

Depois de brigarem e se desentenderem por tanto tempo, os líderes europeus já não têm ao seu dispor uma solução limpa, relativamente barata e altamente garantida para a crise regional.

O que eles têm é algum tempo – embora não muito – para tentar defender a integridade do projeto de integração regional dando passos ousados agora, a começar por uma união econômica, fiscal e bancária, e avançando para uma união política.

Mas o resultado não é garantido, e haveria inevitavelmente rupturas imediatas. Mas tudo isso se apequena ante a catástrofe que a Europa e o mundo experimentariam se a Europa continuar com uma abordagem que continua demasiada pequena e tardia.

A Alemanha e o centro precisam decidir corajosamente se acreditam que a zona do euro pode sobreviver e em que formato. Se a resposta for sim, a busca de uma união imperfeita precisaria ser acompanhada de um financiamento oficial maciço – tanto fiscal como do Banco Central Europeu – para a periferia atenuar o doloroso ajuste via austeridade, reformas e desvalorização interna.

Se decidiram que a zona do euro não é viável tal como é, e que uma união menor não é alcançável, os custos de dissolvê-la desordenadamente mais tarde do que dissolvê-la agora seriam muito maiores. O que não deve e não pode continuar é a zona do euro permanecer no seu meio termo indefinido atual. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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