Tariq Ali: está em curso um ataque à dissidência

Esquerda.net, 19 de agosto de 2012

Tariq Ali: “Imagine que um dissidente em Pequim se refugiasse na embaixada britânica e o governo chinês ameaçasse que invadir”. Entrevistado pela Russia Today, o escritor e ativista político britânico-paquistanês Tariq Ali afirmou que em diferentes partes do mundo, incluindo no Ocidente, “está em curso um ataque à dissidência”. Ali recordou que ainda na quarta-feira o secretário do Interior britânico se referiu a hacktivistas – não ativistas – querendo dizer ativistas hackers. “Em breve vão dar-lhes a etiqueta de terroristas, ciberterroristas, como alguns já lhes chamam. A partir daí, é um passo muito pequeno até começarem a evitar que se expressem”.

O escritor considera que a cultura do mundo Ocidental “é profundamente hostil a pessoas que promovem fugas de informação ou hackers que atuam de acordo com o interesse público”. Considera assim que por todo o lado a democracia está a ser socavada.

Tariq Ali propõe que se imagine uma inversão de cenário: “Se um dissidente em Moscovo ou Pequim se refugiasse na embaixada britânica e o governo russo, ou o governo chinês ameaçasse que, de acordo com a lei local – não a lei internacional – ia invadir a embaixada e prender o refugiado. Imagine a reação que haveria nos média!”

Para o autor de “O Livro de Saladino”, as ameaças feitas pelo governo britânico acabaram por ajudar a causa de Julian Assange. “Se se ameaça um país de invadir uma embaixada, especialmente se se trata de países ferozmente independentes, como o Equador ou a Venezuela, ele não reage bem a isso. O governo britânico, como é parte dos Estados vassalos [dos EUA], pensa que os outros também deveriam reagir da mesma forma, mas eles pensam diferente”.

Perguntado sobre como é que Assange vai conseguir sair da embaixada, Tariq Ali, que esteve recentemente no Equador e falou com as autoridades do país, disse: “Deixaram-me muito claro em Quito que não vão fazer nada ilegal, querem negociar um acordo com o governo britânico, com o Foreign Office, e enquanto isso não acontecer, Julian vai ficar na embaixada”.

O escritor sublinha que o que torna este processo mais grotesco é que Assange sequer foi acusado de nada. “Querem que ele vá à Suécia para ser interrogado pelos procuradores. Por que não podem ir ao Reino Unido para interrogá-lo lá, tal como ele sugeriu? Os equatorianos dizem que eles são muito bem vindos à embaixada equatoriana de Londres, para interrogá-lo o tempo que quiserem. Mas eles também rejeitaram essa proposta”, diz, ponderando que se o que os procuradores suecos querem é interrogar Julian Assange antes de decidirem se vai ser acusado ou não, “por estas acusações sem grande consistência”, por que não vêm a Londres, fazem o interrogatório e então o acusam – se é isso que querem mesmo fazer? “Mas não fazem nada disso”.

No cenário hipotético de Assange ir para a Suécia, se os Estados Unidos realmente quiserem, “vão apanhá-lo, seja legalmente, sublegalmente ou de forma ilegal”. E sublinha: “Já vimos isso acontecer em toda a Europa. Governos europeus colaborando com os EUA para apanhar pessoas em plena rua. Claro que o fizeram a supostos terroristas, pessoas com barbas, pertencentes a países muçulmanos, ou de origem muçulmana, muitos deles inocentes, diga-se de passagem. Seria a primeira vez que apanhariam um cidadão australiano, de pele branca, de uma cidade europeia, sem a autorização do governo, mas o governo pode fechar os olhos”.

Tariq Ali recorda que nos EUA há uma exigência, dos neoconservadores e não apenas destes, de prender Assange e julgá-lo por atentar contra os interesses dos Estados Unidos. “Espanta-me como é que ele pode ser acusado disso, se nem sequer é cidadão dos EUA. Mas isto é possível, não se pode excluir qualquer possibilidade. Ele tem razão de se preocupar”, conclui.

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