Os jogos olímpicos e a mercantilização do esporte

Ricardo Coelho, Esquerda.net, 12 de agosto de 2012

Investir na formação de atletas para que possam ganhar medalhas nos jogos olímpicos é reforçar o elitismo que enche os cofres dos ginásios privados e exclui grande parte da população da prática desportiva.

Quem ligar a televisão nestes dias para ver o telejornal terá de assistir a um desfilar de notícias sobre a participação portuguesa nos jogos olímpicos, acompanhada de lamentações pelas medalhas não ganhas. O discurso nacionalista alia-se ao individualismo para criar um ambiente de competição feroz, acompanhado de apelos ao consumo. Qualquer semelhança entre isto e o desporto é pura coincidência.

Os jogos olímpicos modernos surgiram por iniciativa do Barão de Coubertin, que conseguiu juntar
aristocratas de várias partes do mundo ocidental para criar o Comité Olímpico Internacional (COI),
em 1894. Quando os primeiros jogos se realizaram, em 1896, na cidade de Atenas, apenas uma elite
proveniente dos países mais ricos do mundo pôde participar. As mulheres foram excluídas e o
estatuto de amador foi usado como arma de arremesso contra os trabalhadores para os impedir de
participar.

Os dois jogos seguintes, de Paris (1900) e St. Louis (1904), tiveram uma participação maior mas
continuaram a ser fortemente elitistas. Emblematicamente, ambos os jogos se realizaram em
conjunto com feiras comerciais, mostrando desde cedo os laços próximos entre as olimpíadas e o
grande capital.

O COI foi entretanto crescendo em importância e orçamento mas nem por isso passou a ser menos
elitista ou mais democrático. Ainda hoje a escolha de novos membros é feita pelos membros
presentes, assegurando que o COI permanece sempre dentro dos mesmos círculos de poder. A
realeza europeia está presente em força, e cinco dos seus oito presidentes contavam com títulos
nobiliárquicos.1 Apenas em 1982 o COI deixou de ser exclusivamente masculino, para passar a ser
quase exclusivamente masculino.

Tal como é um erro pensar que os jogos olímpicos são um evento desportivo, também o é pensar
que o COI é uma associação sem fins lucrativos com o fim de promover o desporto. Na realidade,
trata-se de uma poderosa e riquíssima multinacional, que detém o exclusivo dos direitos televisivos
sobre a transmissão dos jogos olímpicos. Tal como a FIFA e a UEFA, a COI move governos e
autarquias, que competem entre si para ver quem consegue esbanjar mais dinheiro em eventos
elitistas e obras públicas que não passam de elefantes brancos.

Apesar de todas as promessas de promoção da paz no mundo, o COI também não se tem
distinguido pelo respeito dos direitos humanos, tendo pactuado sistematicamente com ditaduras. As
olimpíadas de 1936, em Berlim, foram usadas por Hitler como manobra de propaganda. O COI
escolheu fechar os olhos à carnificina da ditadura, tal como o fez em 1968 com a ditadura
mexicana, em 1988 com a ditadura sul-coreana e em 2008 com a ditadura chinesa. 2

Como bem resumiu, Mike Marqusee, autor de vários livros sobre desporto, “O pódio olímpico é um
pacote simbólico: excelência individual ao serviço do estado-nação sob o domínio do capital
multinacional.”3 Uma frase acertadíssima para descrever o momento em que se gastam mais de
nove mil milhões de euros num Reino Unido dilacerado pelas medidas de austeridade para
organizar uns jogos olímpicos “verdes” cujo parceiro para a sustentabilidade é a BP, uma das
maiores criminosas ambientais do mundo.

A promoção do desporto como meio de estimular estilos de vida saudáveis e o convívio entre
pessoas deve ser um dos objetivos centrais de uma sociedade. Mas isso não se confunde com gastar
fortunas em mega-eventos destinados a atletas pagos/as a peso de ouro e com bilhetes à venda a
preços proibitivos.

Defender o direito ao desporto passa por defender o investimento em equipamentos desportivos
públicos, abertos ao público e espalhados por bairros, escolas e locais de lazer, assim como em
aulas de ginástica e outras atividades desportivas orientadas para toda a gente, incluindo crianças,
idosas/os e pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida. Pelo contrário, investir
na formação de atletas para que possam ganhar medalhas nos jogos olímpicos, como se isso
significasse alguma coisa para o país, é reforçar o elitismo que enche os cofres dos ginásios
privados e exclui grande parte da população da prática desportiva. Tal como tantas outras coisas
importantes para uma boa vida em sociedade, também o desporto tem de ser recuperado das garras
do capitalismo.

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1 Lista de membros do COI em
http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_members_of_the_International_Olympic_Committee#Current_
members_of_the_International_Olympic_Committee
2 Zany Begg, “What the Olympic Games really celebrate”, http://www.greenleft.org.au/node/21650
3 Mike Marqusee at the Olympics: ‘Individual excellence at the service of the nation-state and
multinational capital’, http://links.org.au/node/2975

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