O grande negócio da fome

A disponibilidade de alimentos – ou seja, a fome potencial – tornou-se um campo de afirmação do mercado de futuros e, como tal, cada vez mais dominado por uma lógica de especulação.

José Manuel Pureza, Esquerda.net, 18 de agosto de 2012

Multiplicam-se os indícios de uma crise alimentar global de gravidade idêntica à experimentada em 2008. Os preços de cereais como o milho, o trigo ou a soja vêm batendo recordes de preço em bolsa, com subidas de 23% para o milho e 19% para o trigo, num só mês, dando assim expressão a expetativas de colheitas tragicamente escassas, com quedas na ordem dos 2,5 milhões de toneladas (trigo).

Como em 2008, as explicações mais comuns voltam a ser casuísticas e técnicas, sugerindo que se trata de uma anomalia passageira a um estado das coisas bem ordenado, eficiente e justo. Ele é o aquecimento global, ele é o upgrade da dieta alimentar nos países mais pobres, ele é a transformação de países tradicionalmente auto-suficientes em países largamente importadores de alimentos. Ora, estas explicações, sendo em si mesmas acertadas e relevantes, não dão conta dos fatores de fundo que determinam a instalação da crise alimentar como situação normal. Na verdade, a persistência de longa duração de cerca de três mil milhões de pessoas com fome crónica e outros tipos de subnutrição não se explica por razões conjunturais.

Há realidades pesadas, muito mais densas que todas as justificações de curto prazo, que impõem a sua lei e que fazem com que nada pareça ter sido aprendido com as sucessivas crises e com a cadência cada veza mais rápida de iminências de rutura dos stocks mundiais de produtos alimentares básicos.

A primeira dessas realidades pesadas é o credo desenvolvimentista para o qual a destruição das pequenas e médias unidades de produção agrícola e a sua substituição por grandes unidades de monoprodução intensiva para exportação é sinónimo de progresso, sobretudo para os países mais pobres. Essa substituição é, ao contrário, um grave retrocesso que torna a produção agrícola muito mais suscetível de oscilações imprevisíveis e vulnerabiliza enormemente produtores e consumidores, sujeitando ambos a pressões para fugas em frente – de que o recurso a organismos geneticamente modificados ou a transformação de manchas gigantescas de culturas de subsistência em base de sustentação energética (bio-combustíveis) são exemplos maiores. Mas retrocessos para uns lucrativos para uns poucos outros é o que mais há. No caso, as grandes multinacionais agroalimentares (ADM, Bunge, Cargill, Monsanto) apresentam lucros na ordem dos 2 a 3 mil milhões de dólares anuais. Lucros com o negócio com quem pode e lucros com a fome de quem nada pode: a Glencore recebeu em 2011 78 milhões de dólares do Programa Alimentar Mundial para prestar ajuda alimentar a áreas de calamidade.

A segunda razão de fundo explicativa da tendência para uma situação de crise permanente no mercado mundial de alimentos é a crescente inserção destes mercados nos processos de especulação financeira em detrimento da sua compreensão como área essencial de afirmação de direitos humanos indiscutíveis. A consideração dos alimentos como uma mercadoria como qualquer outra, a que acedem apenas os que dispõem de dinheiro para os pagar é, na verdade, tributária de uma conceção nos antípodas da afirmação de um direito fundamental de todos à alimentação. Essa contradição entre necessidade natural permanente e incapacidades – aliás crescentes, por força da crise económica – de procura efetiva de alimentos por parte de largas camadas da população é o sonho dos especuladores. A disponibilidade de alimentos – ou seja, a fome potencial – tornou-se um campo de afirmação do mercado de futuros e, como tal, cada vez mais dominado por uma lógica de especulação. Nada melhor para preencher o vazio deixado pelo rebentar da bolha especulativa no imobiliário. E, tal como nela, as exigências morais são luxos na especulação sobre bens alimentares: se a fome de milhões de pessoas render milhões de euros, pois assim seja.

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