Gastos no País com desastres crescem 15 vezes em 6 anos

Relatório do IPCC aponta que eventos extremos aliados à alta exposição humana a situações de risco podem aumentar tragédias. Nos últimos 30 anos, o aumento da ocorrência de desastres naturais no mundo foi responsável por perdas que saltaram de poucos bilhões de dólares em 1980 para mais de 200 bilhões em 2010. No Brasil, em somente seis anos (2004-2010), os gastos das três esferas governamentais com a reconstrução de estruturas afetadas nesses eventos evoluíram de US$ 65 milhões para mais de US$ 1 bilhão – um aumento de mais de 15 vezes.

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo, 17 de agosto de 2012

Os dados foram citados ontem durante evento de divulgação do Relatório Especial sobre Gestão de Riscos de Extremos Climáticos e Desastres (SREX), do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). A elaboração do documento foi motivada justamente por conta dessa elevação já observada de desastres e perdas. O alerta, porém, é para o futuro – a expectativa é de que essas situações ocorram com frequência cada vez maior em consequência do aquecimento global.

Alguns dos autores do relatório estiverem presentes ontem em São Paulo, em evento promovido pela Fapesp e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), para divulgar para a comunidade científica e tomadores de decisão os resultados específicos de América Latina e Caribe. A principal conclusão é que para evitar os desastres naturais, os cuidados vão muito além de lidar com o clima.

Vulnerabilidade. “O desastre natural não tem nada de natural. É a conjunção do evento natural com a vulnerabilidade e a exposição das populações a situações críticas”, afirma Vicente Barros, da Universidade de Buenos Aires e um dos coordenadores do relatório.

Segundo ele, desde 1950 vem ocorrendo um aumento do número de dias extremamente quentes e com chuvas extremas. Apesar disso, afirma o climatologista Carlos Nobre, co-autor do trabalho, o que foi considerado como fator determinante para os desastres foi a maior exposição dos seres humanos por conta do aumento do adensamento urbano. No final das contas, acaba sendo um problema de planejamento urbano.

Com base nas pesquisas existentes, ainda não dá para dizer com elevado grau de confiança que esse aumento de eventos extremos já seja resultado das mudanças climáticas. Mas para o futuro a indicação é de que o aquecimento possivelmente irá impulsioná-los. Situações consideradas hoje extremas poderão se tornar mais comuns – chuvas ou secas que acontecem a cada 20 anos, poderão aparecer a cada cinco, dois ou até anualmente. Outra tendência também é que elas possam se inverter, chuva forte num ano, seca em outro.

Independentemente do clima, porém, o relatório alerta que o risco de desastres continuará subindo uma vez que mais pessoas estarão em situação vulnerável. “É daí que virão os problemas. É um alerta para pensarmos em formas de adaptação. O Nordeste teve uma grande seca neste ano e o que o governo fez? Mandou cesta básica. A população, assim, não se adapta”, afirma o pesquisador José Marengo, do Inpe.

Além de alertar para ações dos governos, os pesquisadores chamaram a atenção também para a necessidade de mais estudos regionais. A confiança sobre o que é mais provável de acontecer, principalmente na Amazônia, ainda não é alta. Uma das ferramentas para isso é o desenvolvimento de modelos climáticos regionais. O projeto de um está sendo coordenado pelo Inpe e pela Fapesp, que pode estar pronto em até um ano, adaptado para a realidade brasileira.

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