Quem são as verdadeiras vítimas do escândalo Libor

Boa parte da cobertura mediática do escândalo Libor centrou-se nas formas como o Barclays tentou manipular a taxa para baixo durante a crise financeira, para fazer o banco parecer mais seguro. Isso levou alguns ouvintes a fazerem uma boa pergunta: se as taxas foram empurradas para baixo, isso não ajuda os consumidores?

Robert Smith, NPR / Esquerda.net, 28 de julho de 2012

Afinal de contas, a Libor é a referência que aparece nas taxas de juro variáveis das hipotecas e outros empréstimos. Em resposta à nossa reportagem, a ouvinte Cameron Napps escreveu: “Eles baixavam as taxas Libor e beneficiavam o ‘Zé Povinho’… Os únicos que se lixaram com o negócio foram os investidores institucionais… que estavam do lado oposto das operações fraudulentas”.

É parcialmente verdade, mas o escândalo é maior e mais complicado que isso. Os reguladores da Comissão do Mercado de Futuros e Mercadorias especificam que os corretores do Barclays tentaram manipular as taxas tanto para cima como para baixo, dependendo do tipo de contrato em que queriam fazer dinheiro. A Comissão divulgou vários emails que pedem para a taxa ser ficada num valor mais alto. Como este aqui: “Temos outro grande arranjo amanhã e com o movimento do mercado eu estava à espera que conseguíssemos definir as Libor a um e três meses tão altas quanto possíveis. (31 maio, corretor em Nova Iorque para o emissor).

Parte desta confusão explica-se por haver duas fases diferentes do escândalo: a da Ganância e a do Medo.

Ganância (2005-2007): Antes da crise financeira, temos provas de que os corretores pediam rotineiramente taxas mais altas e mais baixas para ganhar mais uns cobres. Não era uma conspiração de alguém em especial, mas muitas pessoas diferentes a tentarem influenciar apostas específicas que faziam em relação à Libor. Provavelmente, seriam pequenas alterações, mas com as apostas penduradas na balança por todo o mundo a valerem milhares de milhões de euros, isso podia valer muito.

Medo (2007-2009): Quando começou a crise financeira, o Barclays estava mais preocupado em sobreviver do que com dinheiro. Houve pressões da administração para manipular a Libor apenas numa direção: para baixo. A razão disso era que naquele período não havia nenhum banco disposto a admitir que o custo do seu crédito fosse alto. Se a taxa indicada por qualquer banco à Libor parecesse alta, podia querer dizer que esse banco tinha problemas (ou seja, os outros mostravam relutância em emprestar-lhe dinheiro). Por isso, todas as manipulaçõesdurante o período de “Medo” foram para baixar a taxa Libor.

Então quem são as vítimas?

Se os corretores do Barclays conseguiram puxar as taxas para cima antes da crise financeira, tal como tinham pedido, então os consumidores ficaram a perder. Cada empréstimo negociado com base na Libor pode ter tido uma taxa ligeiramente superior. É difícil dizer agora em quanto se alteraram as taxas, mas é uma possibilidade.

Quando a taxa baixou durante a crise, os consumidores podem ter conseguido melhores negócios nos seus empréstimos. Mas isso não quer dizer que devamos celebrar. Muitas cidades, fundos de pensões ou sistemas de transportes tinham feito investimentos com base na Libor. Teriam assim ganho muito menos dinheiro se a Libor fosse manipulada para baixo. A cidade de Baltimore, por exemplo, recorreu à justiça e reclama ter perdido milhões de dólares com esta manipulação.

No fim das contas, talvez nunca venhamos a saber o resultado final de quem ganhou e que perdeu dinheiro. As mudanças foram pequenas, e é difícil provar qual seria a taxa de o Barclays e outros bancos não as tivesses alterado. Mas quer a Libor tenha sido manipulada para baixo ou para cima, a verdadeira vítima é a confiança no sistema bancário. Se os bancos mentem tão despreocupadamente acerca de uma das referências do mundo financeiro, sobre que mais irão mentir?

Robert Smith é correspondente do programa Planet Money da NPR norte-americana

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