Cidadãos do primeiro mundo, bem-vindos ao subdesenvolvimento

“Depois desta crise e de outras que virão, será ainda mais difícil distinguir um pobre europeu ou um norte-americano de um pobre do terceiro mundo, como tampouco será possível distinguir entre os ricos dos países centrais e os ricos do terceiro mundo”.

Alfredo Saieg, Rebelión, 8 de agosto de 2012. A tradução é do Cepat. Reproduzido de IHU On-line.

Crises vêm e crises vão: a asiática e o subprime nos Estados Unidos, a de Portugal, da Grécia e da Espanha, a próxima e as que virão, as que somam até hoje o não desprezível número de 280, nas últimas décadas, desde que o capitalismo financeiro sionista, com sede na Bolsa de Wall Street, começou a impor suas políticas neoliberais mundialmente.

Existem várias hipóteses para a origem destas crises, entre elas a que sustenta que elas correspondem a ciclos inevitáveis de um modelo econômico irreal, baseado na especulação, no narcotráfico e numa variada gama de ilícitos que pouco tem a ver com as leis que regem as economias reais, seja a lei de oferta e demanda cujo dogma é o mercado, seja a economia planificada ou uma mescla de ambas.

O que está claro, independente das suas origens: produzidas por esgotamento do modelo, provocadas de propósito ou simplesmente por sua própria ineficiência, elas são manipuladas de tal forma que os fatos não fazem outra coisa a não ser fortalecer a hegemonia global do capital financeiro, em detrimento das pessoas e do cambaleante capitalismo industrial, não tão selvagem, embora vigente em países como China, Rússia e Brasil.

Assim, para superar estas crises se impulsiona a partir dos Estados, pressionados pelos bancos e as grandes empresas multinacionais, processos de privatização de tudo o que se pode considerar fonte de lucro e de concentração de capital. Tudo se torna mercadoria: a saúde, a educação, os serviços de utilidade pública, a água. Refunda-se o Estado, deixando-o a serviço exclusivo do capital financeiro, e a democracia não consegue ser nem a sombra do que era. Desta forma, estas crises que são de uma pequena elite mundial de especuladores, mafiosos e ineptos neoliberais donos do dinheiro, dos grandes meios de comunicação e tecnologia, voltam-se contra nós.

No fundo das chamadas crises, nos fatos, aparece a artimanha que usa o capitalismo financeiro para se reacomodar e aprofundar o modelo de dominação, de seguir gerando, através dos mecanismos que impõe para a resolução de cada uma delas, maior concentração da propriedade e dos recursos do Estado. Cada uma destas crises é uma ocasião a mais para se apropriar da forma como liderar os recursos naturais e o fruto do trabalho de todos os habitantes do planeta, seja “numa boa”, utilizando-as como subterfúgio, seja por meio de guerras e golpes de Estado, em nome da democracia e da luta contra o terrorismo.

Estas formas de saída das suas crises são possíveis por meio do controle que exercem sobre os Estados, especialmente, em relação ao Estado norte-americano, como também dos meios de comunicação e da classe política mundial, amparados com a vantagem de contar com o monopólio das armas e a falta de uma alternativa popular.

Até hoje, o resultado destas chamadas crises tem sido sempre os mesmos: os ricos se tornam mais ricos, sendo cada dia menos, e os pobres mais pobres, sendo cada dia mais. O planeta continua sua acelerada deterioração e a democracia vai ficando nos ossos.

A crise europeia e o fim do Estado de bem-estar no primeiro mundo

Se algo caracterizou, até pouco tempo, os países do primeiro mundo, foi certa equidade na repartição da riqueza, que permitia seus cidadãos gozar de um relativo bem-estar. Isto foi possível graças à existência de um comércio desigual com o terceiro mundo, apropriação de seus recursos naturais e a propriedade da tecnologia. Numa concepção de Estado que, mesmo sendo capitalista, assegurava ao cidadão do primeiro mundo certas questões básicas como saúde, educação, etc., denominado como “Estado de bem-estar”.

Tudo isto começou a desaparecer e muito rapidamente se extinguirá, produto das chamadas políticas de cortes ou de austeridade, supostamente necessárias para superar a crise, aplicadas contra os trabalhadores e as pessoas em geral para desviar recursos para o banco privado e para a transformação do “estado de bem-estar”, num novo crivo orientado para favorecer exclusivamente o capital financeiro. O mesmo ocorre com a apropriação da riqueza do terceiro mundo, que hoje se destina, sem mais, para inchar os cofres do banco e das corporações transnacionais. É assim que os próprios cidadãos do primeiro mundo veem, diariamente, como se deteriora sua qualidade de vida, diminuem seus rendimentos e a paulatina perda, mas a esta altura inevitável, da grande maioria dos benefícios alcançados.

Depois desta crise e de outras que virão, será ainda mais difícil distinguir um pobre europeu ou um norte-americano de um pobre do terceiro mundo, como tampouco será possível distinguir entre os ricos dos países centrais e os ricos do terceiro mundo. Se continuar esta dinâmica, em mais alguns anos, não serão apenas os africanos, os latino-americanos, os flagelados terceiro-mundistas os que haverão de sofrer as penúrias inerentes ao subdesenvolvimento, mas também os cidadãos do que hoje se conhece como mundo desenvolvido. Todos serão nivelados: com uns muito acima, outros muito abaixo e ao centro uma pequena faixa da sociedade constituída por aqueles e aquelas que contam com a sorte de ficar entre os escolhidos, para administrar o modelo, como empresário de segunda, subordinado ao capital financeiro, profissional de elite, político institucional, militar ou juiz da alta hierarquia.

Este é o futuro que o capitalismo financeiro sionista nos oferece: crise e mais crise, em que eles se enriquecem, os recursos naturais se esgotam, o planeta se extingue e a grande maioria da população chega a níveis extremos de pauperização. Tudo isto no contexto de um mundo que dispondo de todas as bases tecnológicas e materiais para resolver os problemas que afetam à humanidade, longe de resolvê-los, aguçam e ampliam para todos os habitantes do mundo, como produto da voracidade do capital financeiro.

Nem tudo está dito

Não obstante, nem tudo está dito. A emergência na economia mundial de outros atores com economias fortes como a do Brasil, Índia, Rússia e China (BRIC), que advogam por um capitalismo de corte neokeynesiano e a multipolaridade, ao que se somam os governos progressistas da América Latina e de outras localidades, pressionam e de uma forma ou outra resistem à voracidade do capitalismo financeiro e não aceitam sua hegemonia, como tampouco a imposição da crise e sangue e fogo das políticas impulsionadas pelo FMI e seus acólitos, advogando por formas capitalistas mais equilibradas.

Não obstante isso, uns e outros representam fórmulas esgotadas que não apontam para a resolução dos assuntos centrais, que jamais o capitalismo interessou resolver, como a mudança da matriz produtiva, a exploração do trabalho assalariado, as sociedades divididas em classes, a intolerância étnica, religiosa e cultural, a reorientação do desenvolvimento tecnológico, a sobrevivência do planeta e da humanidade. Bem como não garantem a superação da democracia representativa, que não garante a autêntica participação democrática, hoje reivindicada pelos cidadãos do mundo.

A emergência de um novo ator social e político

A superação definitiva do que foi destacado anteriormente, não pode ser esperada de nenhum daqueles atores que advogam variações sobre o mesmo tema. As soluções devem surgir das próprias pessoas, daqueles que com o trabalho gera riqueza, conhecimento, ciência e tecnologia.

Assim é o entendimento de amplos setores da cidadania, que em diversos lugares do planeta se organizam, saem às ruas para expressar o descontentamento e, sobretudo, numa primeira instância, resistir as políticas que o capital financeiro tenta impor a nível global. A verdadeira crise do capitalismo será quando este, ameaçado pelas grandes maiorias, já não puder se reinventar para prolongar sua agonia, nem com falsas crises e soluções de remendo, nem com guerras e golpes de Estado, nem com todo o seu poder nuclear.

É uma nova realidade que convoca todos os cidadãos do mundo a transformarem a indignação em desobediência civil, organizarem-se em assembleias cidadãs comunais e de bairros autônomas, construírem poder cidadão, buscarem soluções próprias para os grandes problemas que hoje nos afetam, reformularem a democracia, criando novos e modernos instrumentos de participação e que isso se estenda para muito além do político para todos os âmbitos da sociedade.

Não se trata da tomada de poder, trata-se de criar e exercer o poder cidadão através de múltiplas formas de organização social que vão desenvolvendo alternativas e provocando mudanças reais, por meio do exercício de pressão e exigências sobre o empresariado e o aparato do Estado.

A prática do exercício do poder e as coordenações locais, nacionais e internacionais que começam a acontecer neste processo, num futuro próximo, possibilitarão o surgimento de uma proposta de um novo mundo, de novas formas de relações humanas, econômicas e um novo tipo de democracia.

É um processo que dá seus primeiros passos com o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, com os indignados da Europa e Canadá, na Tunísia e Egito, com os trabalhadores gregos, com as Assembleias cidadãs e o movimento estudantil, no Chile e América Latina. Será um processo lento, difícil, de avanços e retrocessos, não isento de repressão como parte da única resposta que se espera da elite no poder. É um processo que começou a dar seus primeiros passos, num longo caminho a ser percorrido, para evitar a queda no precipício, para o qual o capitalismo, inexoravelmente, nos conduz.

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