Alemanha também paga a fatura da sua gestão da crise

País não é uma ilha em auge económico rodeada pela miséria dos vizinhos. É o estado industrial do mundo mais dependente das suas exportações, e estas, desde o início do ano, estão em queda, não só nos mercados da UE, como no dos BRICs.

Michael R. Krätke, Esquerda.net, 6 de agosto de 2012

“Crise? Que crise?”, parece dizer Merkel. Mas a Alemanha também é atingida por ela. Dizer as coisas tal como são. Cair neste atrevimento provoca um ostracismo social na Alemanha, o país dos ilusionistas.1 “Crise? Que crise?”, perguntam os cidadãos da República Federal Alemã, enquanto apontam o dedo para o resto da Europa. A crise é coisa dos outros, não nossa. Tudo está maravilhosamente bem connosco. 2011 foi um ano recorde. Pela primeira vez o volume das exportações alemãs para todas as regiões do mundo ultrapassou todos os recordes e atingiu valores bilionários. A Alemanha é uma ilha em auge económico rodeada pela miséria dos países vizinhos, que caem um atrás do outro na crise.

A Alemanha conseguiu escapar da crise económica mundial de 2008-2009, mas deixou a pele no processo. A chanceler de ferro resgatou bancos falidos e autorizou injeções económicas na indústria alemã, como o chamado Abwrackprämie, que facilitava a aquisição de automóveis novos. Graças a estas medidas, o país das virtudes aumentou a sua dívida estatal no considerável valor de 2,1 biliões de euros. Apesar do crescimento económico atual, muitos cidadãos alemães contemplam com ansiedade a chamada eurocrise. A superioridade económica do “Modelo Alemanha” não parece ser imune à dívida.

Os programas de austeridade impostos pela Alemanha aos países da eurozona conduziram esta última à depressão económica. A economia da maioria dos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) está em dramático declive e o resto da União Europeia não sai do atoleiro da crise. A consequência é que os países altamente endividados da eurozona fazem cada vez menos aquilo deveriam, segundo a lógica do modelo exportador alemão: reduzem a importação das mercadorias de qualidade da indústria alemã e apostam no crescimento das suas próprias exportações e superávits.

Não tenham medo!

Já no ano passado, reduziu-se o ritmo das exportações alemãs, ainda que a forte queda das vendas a países como a Grécia (em torno de 13%) e Portugal (9,5%) sejam uma exceção e ambos os casos pouco desequilibrem a estratégia exportadora alemã. Mas 2012 está a ser muito pior. As exportações alemãs para os países europeus em crise caem a pique, especialmente para Espanha e Itália. Desde o mês de abril, as exportações alemãs para todos os estados europeus retrocedem sem exceção, numa média de 3,6 a 4% em relação aos meses anteriores. O mês de junho causou alarme porque a produção industrial alemã destinada à exportação baixou aos níveis da explosão da crise em 2009. O índice de gestores de compras do setor manufatureiro da Alemanha caiu em torno de 0,5% e o de toda a economia privada – incluindo o setor de serviços – em torno de 0,8%, alcançando assim os níveis mais baixos desde 2009. O motivo foi que os pedidos para a exportação retrocederam tanto como no mês de abril de 2009: um indício de como a recessão e o estancamento dos países do Sul da Europa pode saltar as fronteiras e chegar também à Alemanha.

Em 2009, ainda 62,3% das exportações alemãs destinavam-se a países da União Europeia, em 2010 este valor baixou para 59,97% e no ano seguinte voltou a cair para 59,1%.

Mas repetem-nos: Não tenham medo! Apesar de continuarmos a ser, hoje como ontem, o estado industrial de todo o mundo mais dependente das suas exportações, as nossas oportunidades de futuro encontram-se nos países emergentes com os seus imponentes índices de crescimento. Na China, na Índia, no Brasil, na Rússia ou também na Turquia continuaremos a ter a partir de agora as vendas de que precisamos para manter em pleno rendimento a máquina exportadora alemã. A história está a nosso favor, sobretudo se a vemos do ponto de vista da estratégia exportadora. Mas isto não é mais que uma vã ilusão, se tivermos em conta o estado atual da economia mundial.

Sem boas notícias

A indústria alemã não marca passo apenas nos mercados europeus, como também em todo o mundo. Enquanto em alguns pontos do planeta a atividade comercial ainda regista lucros, reduz-se o superávit da balança comercial em termos gerais. A Alemanha consegue até um terço deste superávit com os seus sócios da União Europeia – dos quais só 12,3% com estados da zona euro –, sendo os dois terços restantes com países de fora da UE, mas muito especialmente com o grupo dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que há tempo que não parece estar disposto a ficar relegado para um segundo plano.

Só uns quantos exemplos para mostrar como se estende a depressão: o Brasil vive das exportações, especialmente das de matérias-primas, para as quais a China constitui o principal mercado. Ao desacelerar o crescimento e baixarem os preços das matérias-primas, o crescimento do Brasil encolheu também dos 7,5% em 2010 para os 2,7% em 2011. Apesar de o Brasil ser para a Alemanha um sócio comercial pequeno (1,1% das exportações do ano passado tiveram-no como destino), trata-se do mais importante da América do Sul. A proporção do subcontinente nas exportações alemãs é de 2%, com tendência a baixar.

A Índia, sócio comercial da República Federal muito mais relevante que o Brasil, cresce desde o início de 2012 a um ritmo tão lento como o de há nove anos. A sua taxa de crescimento caiu para 5% este ano, em comparação como o mesmo semestre do ano anterior, devido ao debilitamento da sua indústria de processamento de componentes, provocado pela crise.

O arrefecimento da China pode observar-se já desde 2010. O prognóstico para o país asiático este ano é o de um crescimento de 7,6%, o valor mais baixo desde 1999. O índice de gestores de compras para a indústria chinesa caiu a pique em maio e alcançou o seu valor mais baixo neste ano, com o Banco Central chinês a reagir com a redução da taxa de juros preferencial. Ninguém se surpreende assim que, nestas circunstâncias, também desçam as importações chinesas.

Daqui se conclui que não há boas notícias para a Alemanha, pois a República Popular da China, com uma percentagem de exportações de 61%, é o quinto maior sócio comercial da Alemanha. Além disso, desde o início do ano, estancaram as importações alemãs da China, causando irritação no lado chinês. No comércio com a China, a Alemanha regista até à data um forte défice. No início, tratou-se de uma vantagem para os chineses. Mas se se degradar o intercâmbio de mercadorias com a Alemanha, não faltam alternativas à China: o que oferece a indústria alemã também podem oferecer com muito poucas exceções os fornecedores japoneses ou sul-coreanos.

Em abril e maio, uma delegação do Fundo Monetário Internacional visitou a Alemanha e recomendou ao governo alemão um pacote de “reformas estruturais” que, dizem, deveria ajudar os mercados internos alemão e europeu.

Michael R. Krätke é membro do Conselho Editorial de SINPERMISO, é professor de política económica e direito fiscal na Universidade de Amsterdão, investigador associado do Instituto Internacional de História Social dessa mesma cidade e catedrático de economia política e diretor do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido.

31/7/2012

Publicado no Freitag, sob o título “Alarm für die Insel der Seligen “.

Traduzido para o castelhano por Àngel Ferrer e publicado na Sinpermiso, sob o título “Alarma en la isla de los benditos: la gestión alemana de la crisis pasa factura a la propia Alemania”

Traduzido do castelhano para o português por Luis Leiria, para o Esquerda.net

1[Nota do tradutor espanhol] Possível referência à célebre citação de Rosa Luxemburgo: “Wie Lasalle sagte, ist und bleibt die revolutionärste Tat, immer ‘das laut zu sagen, was ist” (Como disse Lasalle, dizer em voz alta as coisas tal como são é e continuará a ser o ato mais revolucionários).

Uma resposta

  1. Com respeito a facilidade, em superar suas crises, há mais de 3 séculos a Alemanha vem sendo o foco de atenção

    Enfim, um clássico exemplo que a inveja move montanhas.

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