O eclipse americano

Entrevista com Jack Levin, O Estado de S.Paulo, 29 de julho de 2012

Não era Gotham City. Era um cinema de Aurora, no subúrbio de Denver, no Estado norte-americano do Colorado. Em cartaz na sexta, dia 20, a estreia de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. No lugar do Coringa encarnado por Jack Nicholson e Heath Ledger noutros tempos, um transtornado James Holmes, estudante de neurociência, doutorando na Universidade do Colorado. Disparos feitos, 12 mortos e 58 feridos. Mas a conta não fecha aí.

“Se fizermos o cálculo, o principal problema não são os massacres. É a violência pequena”, diz Jack Levin, diretor do Brudnick Center on Violence & Conflict da Universidade Northeastern, de Boston. Para investigar os diferentes “gatilhos” dos serial killers, mass killers e criminosos “cotidianos”, o sociólogo prefere mirar as questões a partir de uma grande angular, com estatísticas do FBI e pesquisas próprias sobre a mentalidade, o modus operandi e a realidade dos assassinos brutais.

Para Levin, a cultura das armas, o fenômeno copy cat e a frustração dos outsiders são os principais detonadores desse pesadelo americano. “Os EUA estão se tornando uma nação de estranhos. É um eclipse da ideia de comunidade”, critica o autor de Extreme Killing (2011) e The Violence of Hate (2010), entre outros 30 livros. A seguir, a entrevista de Jack Levin ao Aliás.

Como o sr. analisa o que aconteceu em Aurora na semana passada?

É possível analisar massacres com estatísticas do próprio FBI. Sabemos que acontecem entre 20 e 25 massacres, com cerca de 200 vítimas, todos os anos nos EUA. Mas, certamente, esse número deve ser mantido em perspectiva, pois há mais de 15 mil vítimas de crimes isolados por ano nos EUA. Então, se fizermos as contas, o principal problema não são os massacres. É a violência pequena: a agressão doméstica, o assassinato de familiares, os crimes contra amigos e colegas de trabalho, os confrontos entre gangues de jovens e assim por diante. Além disso, apenas 16% dos massacres miram alvos aleatórios, isto é, atentados contra desconhecidos em lugares públicos como cinemas e clubes. A maioria é seletiva: os ataques visam a amigos e colegas de classe, quer dizer, conhecidos que os assassinos culpam por suas infelicidades na vida. O assassino quer se vingar e o faz pelas armas. Outro fator especialmente presente na cultura norte-americana é o fácil acesso a armas semiautomáticas. Isso esclarece parte, mas não todo o problema. Na maioria, os atiradores são solitários e socialmente isolados. Não têm a quem recorrer quando passam por momentos difíceis. Os EUA estão se tornando uma nação de estranhos. Muitas pessoas estão dispostas a se mudar para lugares distantes milhares de quilômetros por um novo emprego, ou por um novo começo, ou por uma última chance. É um eclipse da ideia de comunidade.

Após o tiroteio, a venda de armas subiu 43% no Colorado.

Muitos americanos acreditam que a dimensão do massacre em Aurora poderia ser reduzida se uma pessoa da plateia do cinema portasse uma arma. Realmente duvido disso. A polícia chegou à cena do crime 60 segundos depois do ataque. E chegou 60 segundos tarde demais. No calor da hora, seria difícil diferenciar o assassino e as vítimas. Uma pessoa armada possivelmente poderia ter atirado na pessoa errada.

Nesse contexto, qual é o peso da cultura americana das armas?

Nos EUA, a maioria dos mass killers usa armas semiautomáticas. Reduzir a disponibilidade de armas de alta potência poderia reduzir a prevalência desses ataques body count. Mas é sempre possível usar outras armas. Em 1995, Timothy McVeigh plantou uma bomba num prédio federal de Oklahoma, tirando 168 vidas. Em 2001, os ataques terroristas com aviões em Nova York e Washington resultaram na morte de quase 3 mil pessoas – sem uso de armas portáteis. Quer dizer, a substituição é possível.

Atualmente assistimos a guerras civis, massacres e outros crimes violentos no cotidiano. O que está acontecendo?

Não sei se a violência é parte da natureza humana ou se é parte da cultura da sociedade. A melhor resposta é: ambos. Ao mesmo tempo, há longos períodos na história marcados pela ausência de fortes conflitos e guerras. Além disso, a violência política não é encontrada no mundo inteiro. Do mesmo modo, certos países têm notavelmente mais massacres que outros. Isso indica que a cultura desses países certamente faz diferença. E recentemente o fator copy cat (imitação) se fortaleceu devido à atenção que a violência conquistou na mídia. O que antes atraía uma cobertura apenas local agora é nacionalmente (e internacionalmente) divulgado, dando a episódios isolados o poder de inspirar outros. O massacre de Columbine de 1999 inspirou muitos jovens a atirar em colegas de classe em vários países, inclusive no Brasil.

No Brasil, aliás, cidades como Rio e São Paulo estão vivendo uma onda de crimes.

Sim, mas o mass murder é bem diferente dos diversos homicídios “cotidianos”, cometidos principalmente por jovens. É preciso notar que a taxa de homicídio varia especialmente de acordo com a pobreza de certas cidades, onde os jovens não têm esperança para o futuro. Se você olhar atentamente para as taxas de homicídio internacionais poderá ver que a maioria dos países pobres tende a ter os mais altos índices desses crimes. Muitos assassinatos “cotidianos” são homicídios culposos. Não são premeditados, mas acontecem no calor do momento. Esses homicidas não perpetram violência aleatoriamente. Por outro lado, os que se sentem outsiders na sociedade são mais propensos a descarregar seu ódio contra os outros.

Há diferenças entre serial e mass killers?

Os serial killers tendem a ser sociopatas, capazes de matar sem sentir nenhuma culpa, nenhum remorso moral. Já os mass killers padecem de uma psicopatologia provocada por uma situação terrível – quer dizer, por eles interpretada como terrível. Eles sentem que estão se vingando, fazendo justiça. O gatilho é quase sempre alguma perda catastrófica – do emprego, de um relacionamento importante, de uma posição acadêmica e assim por diante. Ao que parece, o atirador de Aurora foi expulso do programa de doutorado da Universidade do Colorado. Talvez isso tenha sido o gatilho. Porém, tanto serial killers quanto mass killers são motivados pela necessidade de se sentirem importantes, se tornarem celebridades, amadas ou odiadas. E a mídia não tem apenas o direito, mas a obrigação de informar as pessoas sobre esses ataques. Ao mesmo tempo, também deve ter muito cuidado para não dar atenção excessiva a esses crimes. Não devemos dar espaço a esses monstros nas revistas de celebridades, contando detalhes das vidas desses assassinos. Não podemos transformar os vilões em vítimas.

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