Lições de história: a política de austeridade na europa

O mundo já está no que deveríamos chamar a Segunda Grande Depressão. Enquanto os Estados Unidos entram plenamente numa nova recessão, a crise na Europa vai de mal a pior. A economia chinesa perde velocidade e os chamados mercados emergentes começarão a sofrer as consequências da crise dentro de poucos meses.

Alejandro Nadal, Esquerda.net / La Jornada, 28 de julho de 2012

A política de austeridade que hoje se aplica na Europa está a mergulhar o continente numa profunda recessão. Num cenário tão desolador é bom olhar para as lições da história. Afinal, não é a primeira vez que se recorre aos dogmas do corte ortodoxo para procurar sair da crise. No que se segue, os leitores podem apreciar os paralelismos com a atual crise e a política de austeridade na Grécia, Espanha, Itália e Portugal.

Uma referência pertinente é o livro de Peter Temin, historiador de economia e alterações técnicas. No seu livro “Lições da Grande Depressão”, Temin examina a evolução dos governos da República de Weimar (1919-1933) e os seus esforços para endireitar uma economia devastada pela guerra e pelos altos custos das reparações de guerra impostas pelos aliados no Tratado de Versalhes. Tal como tinha anunciado Keynes, as reparações de guerra impostas à Alemanha provaram ser impagáveis. Em 1921, a França e a Bélgica enviaram 70 mil tropas para ocupar o vale do Ruhr em represália pela falta do pagamento e os efeitos foram desastrosos. Em reação, o governo alemão fez o apelo a uma greve geral. A resistência foi sufocada com extrema violência pelas tropas francesas.

A economia colapsou. A produção sofreu uma drástica redução e o desemprego disparou (para mais de 23 por cento). O fundo entrou em colapso e o governo recorreu à monetização para financiar o seu défice. Foram dadas todas as condições para o episódio da hiperinflação que deixou uma profunda cicatriz nas percepções do povo alemão.

Em 1923, a economia alemã estava evidentemente a explodir. Os Estados Unidos e a Inglaterra pressionaram para aliviar a situação. Em 1924, o famoso comité Dawes apresentou as suas recomendações para a retirada das tropas francesas do Ruhr, recalendarizar o pagamento das reparações de guerra e restruturar o banco central. O objetivo era arejar a economia alemã para que pudesse recuperar a um ritmo de crescimento aceitável. A prosperidade (algo artificial) dos anos vinte oferecia aos Estados Unidos uma suficiente margem de manobra para intervir na reconstrução da economia alemã: Washington comprometeu uma quantidade importante de recursos para investir na economia alemã.

Tudo isso implicava que qualquer descalabro nos Estados Unidos significaria o colapso da economia da República de Weimar. Por outro lado, as recomendações do comité Dawes eram de curto prazo e o peso das reparações de guerra continuou a sofrer um agravamento muito pesado. Em 1929, pouco antes do colapso de Wall Street, foi estabelecido outro mecanismo para aligeirar o peso das reparações de guerra. O resultado foi o chamado plano Young, anunciado em 1930. Mas já era demasiado tarde, pois era claro que os Estados Unidos já não podiam proporcionar o oxigénio de que necessitava a maltratada economia de Weimar e a Alemanha nunca poderia pagar as reparações.

As autoridades em Berlim moviam-se no âmbito de referência das finanças ortodoxas e do sistema de pagamentos internacionais que impunha o padrão-ouro. Tiveram que responder às restrições que esse ambiente internacional impunha com uma forte depressão interna. Hjalmar Schacht, presidente do Reichsbank e o seu sucessor, Hans Luther, aplicaram políticas restritivas e mantiveram uma taxa de desconto bem acima das taxas de Londres e de Nova Iorque com o objetivo de reduzir a perda de ouro. As autoridades fiscais foram ainda mais agressivas no seu afã deflacionário: desde os princípios de 1930, o chanceler Heinrich Brüning manteve cortes fiscais brutais e uma política deflacionária (reduções salariais e na ajuda ao desemprego) para restabelecer um equilíbrio no contexto do padrão-ouro.

Dado que a Alemanha tinha que pagar as suas contas externas com o poder de compra equivalente ao padrão-ouro, o ajustamento devia passar pela deflação no plano interno até se alcançar esse objetivo. As políticas deflacionárias e o revanchismo cristalizado nas reparações de guerra acabaram por despedaçar a República de Weimar. Entre 1929 e 1932, o partido nacional socialista passou de 12 para 107 deputados.

Os dogmas da ortodoxia em matéria financeira e fiscal carecem de sentido económico. Apoiam-se nalgumas ideias que parecem lógicas mas que são falsas. E quando se traduzem em política macroeconómica, o resultado é um desastre: não só são capazes de mergulhar uma economia na depressão mais profunda, mas também conduzem à destruição do tecido social e a uma paisagem de violência desoladora. No México e na Europa as lições da história não devem ser esquecidas.

* http://www.jornada.unam.mx/2012/07/25/opinion/029a1eco
Tradução: António José André

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