Ciência descobre novos problemas para os corais

A maior parte dos corais do mundo prospera em zonas marinhas pouco profundas, às quais chega a luz que precisam para crescer. Contudo, o acelerado aumento do nível do mar, pelo derretimento dos gelos polares, porá fim a essa vantagem.

Stephen Leahy, IPS/Tierramérica, 23 de julho de 2012

Medições feitas em regiões tropicais revelam que a elevação de seus mares (de 3,3 milímetros ao ano) está a ocorrer a um ritmo mais acelerado do que o do crescimento de muitos corais nos últimos dez mil anos, indicam pesquisas divulgadas no XII Simpósio Internacional sobre recifes de Coral.

A maioria dos corais só prospera em águas pouco profundas, às quais chega abundante luz solar. O Mar do Caribe teve, em algum momento, 60% da sua área coberta por corais, que hoje ocupam apenas 10% dela, disse o professor emérito Jeremy Jackson, do Instituto de Oceanografia Scripps da Califórnia, no seu discurso no Simpósio, que aconteceu entre os dias 9 e 13 deste mês, na cidade australiana de Cairns. “Os corais são ecossistemas cruciais e ameaçados”, ressaltou. A elevação do mar é apenas uma dessas ameaças, além da sobrepesca, da contaminação e do branqueamento provocado pelo aquecimento global, acrescentou.

Uma peça colorida de coral é formada por milhares de diminutos animais, pólipos, que criam ao seu redor esqueletos calcários com forma de taça, usando cálcio da água do mar. As cores são dadas pelas microalgas que vivem em simbiose com eles. Geração após geração, os pólipos coralinos vivem, constroem uma parte do esqueleto que depois será recife e morrem. Esse habitat que criam é para eles mesmos e para cerca de 30% de todas as espécies que habitam os oceanos.

Quando os corais sofrem temperaturas muito altas ou contaminação, começam a ficar descoloridos pela morte das algas, tornam-se vulneráveis às doenças e morrem se o branqueamento durar muito tempo. Os corais fracos ou mortos quebram-se e os seus escombros são arrastados pelas ondas e por tempestades.

É possível que a Jamaica seja o país do Caribe onde os recifes se tenham deteriorado mais. Subsistem apenas entre 5% e 10%, por culpa da contaminação e da pesca excessiva. “Isto acontece pelo facto de a população ser muito pobre”, pontuou Jeremy. Entretanto, cada ilha é diferente. As também caribenhas Bonaire e Curaçao mantêm entre 20% e 30% de sua superfície original, que poderia ser aumentada com boa manutenção, criação de áreas proibidas para pesca, redução da contaminação procedente da terra e acesso controlado de turistas, destacou.

“Os recifes proporcionam proteção costeira, alimentos, turismo e outros serviços importantes, e perdê-los terá enormes consequências para a sociedade humana”, disse Roberto Iglesias Prieto, pesquisador do Instituto de Ciências do Mar e Limnologia da Universidade Nacional Autónoma do México. Um estudo feito em Belize estima que, sem recifes para proteger as comunidades costeiras, as tempestades poderiam causar prejuízos até 198 milhões de euros. Cerca de mil milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente dos recifes para o seu sustento, e mais de dois mil milhões têm nos pescados e mariscos a sua principal fonte de proteínas.

“Com exceção de uns poucos pontos muito isolados, a qualidade dos recifes coralinos deteriorou-se em todo o mundo, e continuará em declínio”, indicou Roberto. “Perder os benefícios e serviços proporcionados pelos recifes será uma tragédia para a humanidade”, declarou ao Terramérica. Há consenso entre os cientistas de que é quase certo que esses serviços vitais se perderão, a menos que sejam tomadas medidas urgentes para reduzir as emissões de dióxido de carbono que esquentam e acidificam os oceanos.

“Quando o explorador britânico James Cook navegou por Cairns, há menos de 300 anos, a atmosfera continha 280 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono. Agora, são 392 ppm”, disse a cientistas Janice Lough, do Instituto Australiano de Ciências Marinhas. Nos oceanos tropicais, a maioria das espécies vive em águas que apresentam variação de temperatura muito reduzida, entre dois e três graus. Se as temperaturas sobem mais e por períodos prolongados, algumas não resistem e nem sempre podem ir para outra parte, acrescentou Janice. “Pequenas mudanças podem ter grandes impactos”, explicou ao Terramérica.

Em muitos recifes tropicais, o crescimento e a reprodução de peixes diminuem quando a temperatura da água aumenta apenas dois ou três graus, afirmou Philip Munday, pesquisador da Escola de Biologia Marinha e Tropical da Universidade James Cook, da Austrália. Uma mudança aparentemente pequena, mas inesperada, é que o excesso de dióxido de carbono está a afetar a acidez dos oceanos, que já absorveram cerca de um terço de todas as emissões humanas desse gás de efeito estufa. Embora esse mecanismo ajude a reduzir o aquecimento do clima mundial, o excesso de dióxido de carbono está a alterar a composição química dos oceanos, fazendo com que suas águas sejam 30% mais ácidas.

Philip também descobriu que a maior acidez oceânica afeta de modo surpreendente o comportamento dos peixes. “A acidez que estimamos que existirá antes do final deste século afeta o sistema nervoso central de algumas espécies, alterando os seus sentidos do olfato e da audição e suas reações”, explicou. Nessas condições, o colorido peixe palhaço (Amphiprion ocellaris), famoso por causa do filme ‘Procurando Nemo’, sentir-se-é fatalmente atraído pelo cheiro dos predadores, acrescentou. Estas “deficiências sensoriais” dos peixes de recife e dos grandes predadores marinhos vão se manifestar quando houver na atmosfera entre 600 e 850 ppm de dióxido de carbono, que é o esperado para antes do final deste século se não forem adotadas medidas para reduzir as emissões, concluiu Philip.

A velocidade destas transformações dos oceanos é a maior já enfrentada pela capacidade de adaptação das espécies, segundo mais de 2,5 mil cientistas marinhos afirmam na Declaração de Consenso sobre Mudança Climática e Recifes de Corais, divulgada no Simpósio. No entanto, há “lampejos de esperança”, por exemplo em Bonaire, Curaçao e outros lugares onde se pôs em prática um bom manejo dos recifes e foram reduzidos os impactos sobre estes sistemas, enfatizou Jeremy. “Felizmente, as ações positivas para a sociedade humana (como reduzir as emissões) também são boas para os recifes”, observou.

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