O declínio do sonho americano

Só 4% da última geração nascida depois dos anos 1970 subiram um degrau na escala social. Assim, nos Estados Unidos, esfumou-se a esperança de uma vida melhor.

A reportagem é de Vittorio Zucconi, publicada no jornal La Repubblica, 12-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O grande rio do “sonho americano”, aquela corrente forte e tumultuosa que transportou gerações de pessoas rumo à esperança de uma vida melhor, está se tornando um pântano de água estagnada. A sociedade norte-americana perdeu sua própria mobilidade formidável e começa a se assemelhar cada vez mais às cansadas sociedades do Velho Mundo, onde já é muito mais fácil deslizar para baixo, do que subir rumo ao topo.

Apenas 4% dos norte-americanos da última geração pós-anos 1970, que hoje se tornou adulta, conseguiu subir alguns degraus na escala de renda e melhorar a sua própria situação em termos absolutos, de receita e de segurança, e em termos relativos, em comparação com as outras classes do censo. O instituto de pesquisas sociais Pew, que é o mais sério e equilibrado em matéria de demografia e de sociologia, concluiu com evidente amargura que o “sonho americano está vivo e goza de ótima saúde, mas apenas em Hollywood”.

Na realidade cotidiana, já é um sucesso se as famílias e os indivíduos conseguem se manter na renda média nacional, que é hoje de 49.900 dólares anuais brutos, ou 40 mil euros. Um número que poderia parecer invejável a um assalariado italiano, mas que se torna muito mais pálido se depurado, além dos impostos, dos custo do seguro de saúde privado, dos impostos locais e imobiliários calculados sobre o valor de mercado das casas, dos transportes privados, indispensáveis na transumância cotidiana dos trabalhadores pendulares sem meios públicos.

Apesar da “busca da felicidade” que a Constituição garante a todo cidadão, como “busca”, mas não como resultado, a corrida é cada vez mais parecida ao sofisma de Aquiles e da tartaruga, em que o cidadão Aquiles deve correr sempre mais rápido, sem jamais conseguir alcançar a tartaruga.

A renda das pessoas e das famílias, na verdade, aumentou em geral, mesmo atravessando o ciclone das duas recessões dessa primeira década de 2000, a de 2001, depois do 11 de setembro, e a de 2008, depois de um outro setembro negro, o colapso das torres de papel financeiras. Mas a distribuição da riqueza se desequilibrou muito mais do que no passado, transformando o perfil da sociedade norte-americana, de “maçã” com grande parte da classe média ao redor da circunferência, ao de “pêra”, em que a polpa se coloca já perto da base.

O tormento do cidadão Aquiles e da inaferrável tartaruga da promoção social se manifesta em um dado muito claro: 85% das pessoas, tanto homens como mulheres (que ainda continuam ganhando menos do que seus colegas, em paridade de trabalho) têm, nominalmente, mais do seus pais, possuem mais bens, móveis ou imóveis, casas, casas de lazer, bens de consumo, mas caíram, ou estão em risco de rebaixamento, na escala social. É um recuo relativo, portanto, que produz aquele sentimento de frustração e de rancor que moveu os protestos do “Occupy”. Nem tanto e não apenas por causa da raiva contra aquele 1% que controla grande parte do bolo, mas sim por causa daquele sentimento de ter perdido a possibilidade de, no futuro, cortar para si fatias mais substanciais. O “sonho americano”, justamente.

A certeza, embora muito mitológica, da ideologia neopuritana à la Horatio Alger, o escritor muito popular que, no início do século XX, convenceu gerações de crianças e jovens que, com seu próprio trabalho duro, disciplina, tenacidade, o horizonte das suas possibilidades era infinito, como os grandes céus do Oeste.

Estava aberta para todos a estrada do “rags to riches”, do salto dos trapos à riqueza. Hollywood, nos mesmos anos e ainda hoje, havia acompanhado e fortificado o mito, com aventuras de final feliz de órfãos, mendigos, marginalizados, famintos, capazes de saltar para o topo da sociedade, como exemplificou o clássico filme Trocando as bolas, com Eddie Murphy e Dan Aykroid.

Afroamericanos

Mas são justamente os afroamericanos, como o protagonista daquela fábula a cores, o segmento da população em que é mais fácil deslizar para trás do que progredir e sair das condições nas quais se nasceu, principalmente porque escasseia o combustível primeiro da mobilidade positiva: os títulos de estudo. Embora já não sejam mais uma condição suficiente para garantir uma vida de relativo bem-estar, os graus acadêmicos continuam sendo necessários para poder esperar escapar do ciclo dos trabalhos de salário mínimo, fritando hambúrgueres e servindo clientes nos hipercentros comerciais.

Ao longo da vida adulta, um graduado irá ganhar o dobro de um não graduado. Enquanto isso, a dessindicalização generalizada, sobretudo no mundo da grande, ou ex-grande, indústria, retirou aquela correia de transmissão salarial que havia feito, por exemplo, dos metalúrgicos de Detroit, a grande “classe média” norte-americana sem necessidade de graduações ou doutorados.

O sonho ainda vive, e se mantém, nos casos sensacionais, mas individuais, dos Steve Jobs que, da garagem da família, passam a criar indústrias colossais, dos Bill Gates, ex-aluno universitário sem nenhum diploma, mas com montanhas de dólares gerados pela sua empresa, ou, na política, dos Rick Santorum, neto de mineiros italianos, ou dos Barack Obama, filhos de ninguém, sem nenhuma outra recomendação do que a sua própria inteligência, que saltaram de colégios obscuros para a presidência dos EUA ou para cadeiras senatoriais.

Mas é nos grandes números, naqueles que contam, que o “sonho” se revela cada vez mais lenda: hoje, é mais fácil cair do topo da escala social para baixo – isso acontece com 6% dos filhos de ricos e privilegiados – do que, de baixo, passar para a camada mais alta, justamente 4%. E o número dos pobres, na definição técnica, subiu para o número recorde de 42 milhões.

Mobilidade

Esses dados do Pew Institute, que estudou o andamento e os deslocamentos da placa social norte-americana, não seriam cifras especialmente trágicas, se lidas em relação a outras sociedades e a outras nações.

Mas para os EUA, para a imagem de si mesma, que rege essa “nação de nações” há mais de dois séculos, a mobilidade é um ingrediente fundamental. O “pacto social”, a constituição não escrita que rege a democracia norte-americana, é a promessa das ocasiões, não a dos resultados.

Admitir que é preciso correr sempre mais rápido para ficar parado ou para não deslizar para trás é uma admissão de fracasso para a cultura do operoso calvinismo que promete, como fazia Horatio Alger nos seus 100 livros best-sellers, a recompensa terrena para o sacrifício e para a fadiga. E se, no futuro, os historiadores tiverem que examinar como, quando e por que essa “cidade luminosa sobre a colina”, como dizia Reagan citando os livros sagrados, também começou a se enfraquecer, não serão o endividamento, a globalização, as finanças que irão explicar o declínio do império norte-americano, mas sim o fim do “sonho”.

Um fim que se manifestou com lancinante clareza no colapso dos valores imobiliários depois de 2002. A casa, ou ao menos aquelas caixas de madeira e de gesso com papelão reproduzidas infinitamente nos subúrbios norte-americanos que aqui são generosamente chamados de casas, são, desde sempre, a materialização tangível, vivível do sonho realizado, além do primeiro, e muitas vezes único investimento, das famílias que contam com a revalorização sobre a venda para financiar a própria velhice, além das magras pensões federais.

Essas habitações eram o rio que alimentava o sonho, a única e verdadeira “escada móvel” do norte-americano médio. Quando a escada, levada ao paroxismo da avidez dos credores e da inconsciência dos devedores deslumbrados com as oportunidades fáceis, se bloqueou, a esperança rolou pelos degraus.

Há apenas um grupo de norte-americanos que vê constantemente aumentar sua própria renda e a sua própria posição relativa, e estes são os hispano-americanos, os “latinos”, destinados a se tornar o grupo étnico mais numeroso, mesmo entre os brancos, daqui a uma geração.

Adeus ao “American Dream”, e bem-vindos ao “Sueño Americano”.

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