Bóson de Higgs: ”Apenas a ponta de um fenômeno mais complexo”

A massa do Higgs identificada no LHC corresponde exatamente ao valor que mantém nosso universo em equilíbrio.

Gian Francesco Giudice, La Repubblica, 5 de julho de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Reproduzido de IHU On-line.

Armada da mais avançada matemática e de uma boa dose de imaginação, uma geração de físicos teóricos concebeu a ideia de que o universo deve ter sofrido uma transformação, depois de um décimo de bilionésimo de segundo depois do Big Bang. Naquele instante, toda a estrutura do espaço-tempo se cristalizou em uma nova forma, após uma fase de transição, assim como a água se transforma em gelo abaixo de zero graus. O plasma de partículas que povoava o Universo, então, imediatamente sentiu a presença dessa nova entidade, que depois determinariam a dimensão dos átomos.

Os próprios físicos têm se deram conta de que essa ideia tão sugestiva a ponto de parecer ficção científica implicava a existência de uma nova partícula, um grânulo da substância que permeia todo o espaço-tempo. Os dados apresentados nessa quarta-feira no Cern mostram que essa partícula, o bóson de Higgs, realmente existe, corroboram a fantástica história da transição de fase cósmica.

O aspecto mais estimulante dos dados apresentados nessa quarta-feira refere-se aos “acoplamentos” do bóson de Higgs, ou seja, os números que descrevem a intensidade das forças exercidas pelo Higgs sobre as outras partículas. Esses acoplamentos são como os restos fósseis dos quais se pode reconstruir os dinossauros, como os indícios a partir dos quais se pode remontar ao crime. O modelo mais simples para o Higgs estabelece valores precisos para todos os acoplamentos, mas os físicos estão convencidos de que esse modelo é incompleto. Medidas em desacordo com as previsões não sancionam, portanto, uma derrota da teoria, mas corroboram a hipótese de que o bóson de Higgs é apenas a ponta do iceberg de um fenômeno mais complexo.

As medidas do Atlas e do CMS indicam uma discordância com as expectativas para alguns acoplamentos, reforçando as suposições de que fenômenos ainda desconhecidos se escondem atrás da fachada do Higgs. A incerteza estatística das medidas ainda é grande, mas, se os resultados de hoje forem confirmados nos próximos meses, esperamos novas e ainda mais surpreendentes descobertas. Os físicos se alegram com essas inconsistências preliminares dos dados, porque a física teórica se alimenta de mistérios e de paradoxos.

O segundo aspecto estimulante dos novos dados do LHC refere-se à massa do Higgs. O valor medido (entre 125 e 126 GeV, isto é, cerca de 130 vezes a massa do átomo de hidrogênio) abre uma estranha questão. Como dito, a causa última da colossal transição de fase que permitiu a evolução do nosso universo é justamente o Higgs. Lancemos agora a hipótese (talvez ousada) de que a atual descrição do mundo das partículas seja válida não só no regime em que foi verificada experimentalmente, mas também em distâncias muito menores.

Nesse caso, se descobriria um resultado impressionante. A massa do Higgs identificada no LHC corresponde exatamente ao valor que mantém nosso universo em equilíbrio, antes de uma segunda transição de fase que daria um fim ao nosso amado mundo. Embora esse apocalipse cósmico poderá acontecer em tempos muito remotos para preocupar a humanidade, a questão pode nos ensinar muito sobre a evolução do cosmos.

Será interessante entender por que as condições do universo são tais de modo a pô-lo em um estado quase crítico, onde vivemos como alegres campistas que armam suas tendas em um desfiladeiro de rocha à beira de um precipício.

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